Ex-primeiro-ministro
da Itália diz que 'esperança' representada por Lula não pode 'ser traída'
CONRADO CORSALETTE
O ex-primeiro-ministro da Itália Massimo D'Alema afirmou ontem, após
encontro em São Paulo com o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, que a
comunidade internacional sofrerá "conseqüências muito graves'' caso não se
esforce em ajudar o próximo governo brasileiro. "O mundo, os Estados Unidos e a
Europa, não podem se dar ao luxo de permitir que toda a América Latina se transforme
numa grande Argentina", disse D'Alema, em entrevista concedida à tarde, no comitê
central de campanha do presidente eleito.
Presidente do Partido Democrático da Esquerda (PDS) italiano (ex-Partido
Comunista), D'Alema sustentou que "a esperança" representada por Lula não
poderá "ser traída". "Espero que a Europa não perca esse grande
compromisso, porque seria gravíssimo se o mundo não entendesse a esperança representada
por Lula, que é a esperança não só Brasil, mas de um continente inteiro", disse o
ex-primeiro-ministro italiano. "O mundo precisa não apenas respeitar Lula, mas
também ajudar o Brasil."
Antes da visita ao Brasil, de onde partiria ainda na noite de ontem, o
ex-primeiro-ministro esteve no Uruguai, no Chile e na Argentina. "Falei com
políticos e presidentes desses países, progressistas e conservadores, socialistas e
liberais, e para todos eles o Brasil de Lula é uma esperança", disse D'Alema.
"A vitória de Lula teve valor não apenas para o Brasil, mas para toda América
Latina."
"Reflexões" - Na conversa com o presidente eleito, o
político italiano disse ter escutado "reflexões" neste momento pós-eleitoral
e discutido as relações entre o Brasil, a América Latina e a Europa, ressaltando o
empenho da Itália para que as barreiras comerciais da União Européia, principalmente
agrícolas, sejam removidas o mais rápido possível.
"Massimo D'Alema é companheiro e amigo do PT", disse Lula, na
breve apresentação que fez do ex-primeiro-ministro. "Certamente nessas conversas e
neste momento que o PT se prepara para assumir o governo, muito teremos a aprender com
quem já teve a responsabilidade de dirigir um país importante como a Itália."
O ex-primeiro-ministro italiano elogiou muito o presidente eleito e disse
que Lula saberá lidar com a realidade de ser governo. "Governar implica realismo e
gradualidade na busca dos objetivos", afirmou D'Alema. "Eu tenho grande
confiança de que Lula sabe perfeitamente dessas coisas."
D'Alema afirmou ainda que Lula manterá o "prestígio
internacional" do Brasil conquistado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, mas
ressaltou as perspectivas de mudança. "Cardoso foi importante para o País e
reforçou o prestígio internacional do Brasil e, neste ponto de vista, Lula continuará a
representar o Brasil com grande prestígio e com grande visibilidade", disse o
ex-primeiro-ministro. "Mas naturalmente que Lula representa mudança, que tem no seu
centro algumas escolhas claras: redução da desigualdade social e combater a fome e a
miséria, promover o desenvolvimento e o emprego."
(© O Estado de S. Paulo)