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Papa pede a italianos que tenham mais filhos

15/11/2002

O papa João Paulo II em visita ao parlamento italiano, em 14.11.2002

 

Em visita histórica ao Parlamento, ele falou também sobre guerra, paz e religiosidade

   ROMA - O papa João Paulo II converteu-se ontem no primeiro pontífice a visitar o Parlamento italiano e, num discurso de 50 minutos, na presença das autoridades máximas do país, pediu à população que tenha mais filhos, um tema preocupante em um país que tem as mais baixas taxas de crescimento populaconal da Europa. Considerando "grave ameaça" a redução de nascimentos que leva ao declínio demográfico e ao envelhecimento da população, o papa mostrou-se preocupado com os "problemas humanos, sociais e econômicos que essa crise trará à Itália nos próximos anos".

   Em sua mensagem, João Paulo II advertiu ainda sobre os perigos de uma guerra "sem solução", o terrorismo internacional e a globalização. O papa pronunciou um discurso surpreendentemente longo aos deputados e senadores, em que censurou as "horríveis desigualdades" encontradas no mundo e alertou contra "a lógica do confronto, que não conduz a solução nenhuma", em referência à ameaça do terrorismo internacional. Ele pediu também que se construa uma Europa cristã, apelando para que a União Européia inclua a religião católica em sua futura Constituição.

   João Paulo II, de 82 anos, que sofre do mal de Parkinson, andava devagar, mas parecia estar bem. Falou com voz clara e negou-se a movimentar-se na plataforma com rodas, utilizada durante as cerimônias religiosas, por causa de seus problemas físicos.

   Aplausos - Recebido de forma triunfal, na presença do primeiro-ministro Silvio Berlusconi e do presidente da República, Carlo Azeglio Ciampi, o papa foi interrompido 21 vezes por aplausos. Três tipos de argumentos foram abordados durante sua intervenção: os de caráter nacional, europeu e mundial. O pontífice aproveitou a oportunidade para rechaçar a responsabilidade das três religiões monoteístas (cristã, muçulmana e judaica), no desenvolvimento do terrorismo. João Paulo II afirmou que elas têm sido envolvidas "de maneira totalmente deformada".

   Ao referir-se à ameaça de conflito contra o Iraque, o papa advertiu aos países cuja "matriz histórica tem sido a fé cristã" sobre os riscos de cair "prisioneiros da lógica das guerras que não têm solução". Assim, ele convidou todas as nações a trabalhar para "encontrar caminhos de paz".

   Em sua exposição, o pontífice reiterou sua preocupação com as "espantosas desigualdades" que marcam o mundo e se uniu ao coro daqueles que criticam "a globalização selvagem, sem alma e sem justiça".

   As partes menos aplaudidas foram as referentes à redução dos nascimentos, à defesa da família, em particular os direitos adquiridos no casamento, e à oposição à união livre entre heterossexuais e homossexuais. (AFP, Ansa e AP)

(© O Estado de S. Paulo)

Mafioso se entrega à polícia ao ouvir discurso

   ROMA - Emocionado com o discurso do papa, um dos chefes da Máfia siciliana, Benedetto Marciante, decidiu se entregar às autoridades da prisão de Rebibbia, em Roma. Sentenciado a 30 anos de reclusão por homicídio, Marciante ficou especialmente sensibilizado pelos comentários do papa sobre os valores familiares.

   Segundo Roberto Tricoli, advogado do mafioso, o discurso que o papa fez no Parlamento italiano - e transmintido ao vivo pela TV - acendeu a fé religiosa de Marciante. "Em 30 anos de profissão, eu nunca havia visto nada como isso antes", disse Tricoli. "É um milagre." (AP)

(© O Estado de S. Paulo)


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