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Benigni, mas pode chamar de Pinóquio

19/11/2002

Roberto Benigni, como Pinóquio

 

Depois da euforia dos anos pós-Oscar, o ator e diretor italiano Roberto Benigni enfrenta tarefas mais complicadas na pele de Pinóquio, uma de suas obsessões. Por Frank Bruni, de The New York Times

   A última vez que o mundo viveu uma overdose de Roberto Benigni, o ator italiano saltava pelas cadeiras de um auditório, jogava beijos e tagarelava, rodando a uma velocidade mais freqüentemente associada às ambulâncias. A euforia do Oscar transformava-se em absoluta mania.

   Por isso, um encontro com Benigni em Roma, no início de uma tarde de novembro, foi algo como um choque. Para começar, estava quieto e absolutamente tranqüilo. Quase murmurava. Suas palavras saíam arrastadas, uma de cada vez, separadas por longos períodos de silêncio

   "Dunno" (“Não sei”), dizia Benigni, em inglês. Então parava, contemplando o som da palavra.

   "Dunno", repetia, e aparentemente decidira que as sílabas não eram suficientemente incisivas, porque ele tentou novamente, reforçando as consoantes.

   "Don´t know" (“Não sei”), dizia, com mais uma pausa, deixando de lado o “dunno”coloquial.

   "D on´t know", repetia, dando ênfase à segunda palavra, e desta vez ficara finalmente satisfeito. Enquanto isso, os técnicos permaneciam sentados do outro lado de uma vidraça. Eles acenaram entre si com a cabeça. E Benigni encarou um microfone diante de uma grande tela de cinema, partindo para uma nova série de sílabas.

   Fazia pouco mais de uma semana da estréia de seu novo filme, Pinocchio, e Benigni estava dublando para o inglês todos os diálogos em italiano do personagem principal, interpretado por ele, para o lançamento nos cinemas americanos, agora no Natal.

   Essa tarefa exige um grau de compostura ao qual Benigni não está muito acostumado, mas é uma atividade ainda mais digna de nota por outra razão: ele nunca tinha feito isso antes, a dublagem de seus filmes para distribuição internacional. E a decisão de fazê-lo para Pinocchio mostra como sua carreira mudou dramaticamente e tem agora outros grandes parâmetros.

  Entre seus fãs e patrocinadores, há muita confiança na receptividade do filme fora da Itália. E essa receptividade certamente será estimulada por A Vida é bela, que conquistou três Oscars em 1999 e foi o filme em língua estrangeira recordista de bilheteria nos Estados Unidos até O Tigre e o Dragão. Essa é a esperança.

   Benigni tem vivido entre os tormentos e as vantagens dessa herança, com todos os privilégios e pressões que uma evolução impõe. Seria essa versão animada de Pinóquio – co-escrita por Benigni, dirigida por Benigni e estrelada por ele – a resposta certa?

   À primeira vista, o filme parece um frívolo passo atrás, principalmente depois da audácia de A vida é bela, que encontrou humor na angústia do Holocausto. A vida é bela ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro, deu o Oscar de melhor ator a Benigni e ganhou a aversão de alguns críticos.

   Benigni, que fez 50 anos em outubro, insiste que aquele que rejeita a narrativa de Pinóquio por esta ser uma peça de criança está perdendo suas camadas de profundidade, sobre as quais ele trabalha de maneira exuberante. "Ele é um personagem como Édipo!, D. Quixote!, Fausto, sem dúvida!", disse Benigni numa extensa entrevista no seu escritório, no centro de Roma, algumas horas antes do início da sessão de dublagem. É nessa conversa que aparece aquele Benigni da noite do Oscar, e da maioria dos momentos em público: hiperativo, solto, necessitando de algo maior e menos frágil que um ponto de exclamação para uma pontuação de dublagem.

   "Pinóquio era tão complicado!", se queixa. "Este é o mais difícil filme da minha vida Oh Mamma mia! É o mesmo que Cristovão Colombo indo para a América: ´Volte!’ ‘Não, estou indo!’ ‘Volte!’ ‘Não, estou indo!’ Foi tão difícil."

   "Mamma mia, prossegue, misturando uma frase ocasional em italiano no seu inglês agora melhorado, que ele precisa praticar. "É tão cruel, Pinóquio. Apavorante!" Neste ponto, Benigni está se referindo ao original, do livro de 1883, escrito por Carlo Collodi, no qual, ele disse, "todos estão contra Pinóquio – contra a alegria, a pureza, a honestidade."

   A moral de Pinóquio, de acordo com Benigni, é que a felicidade existe, podemos vê-la, mas nunca alcançá-la". A beleza e a tristeza da fábula, explica, é que Pinóquio, entretanto, continua tentando apoderar-se dela com seus pequenos e desajeitados braços de madeira.

   Benigni, por sua vez, tenta colocar uma pilha de meditações existenciais em cima das previsíveis e açucaradas trapalhadas de seu Pinóquio. Isso produz um filme que não é nem um vôo livre de fantasia, nem uma alegoria sombria, mas algo intermediário.

   Na Itália, as resenhas geralmente positivas pararam um pouco com os excessos entusiásticos, apesar de o filme estabelecer um recorde do cinema italiano, com a estréia em cerca de 900 cinemas do país, e alcançar cerca de US$ 7 milhões em seus três primeiros dias de lançamento.

   Durante décadas, Benigni teve obsessão em filmar Pinóquio, e tanto o caráter de Pinóquio quanto sua imaginação foram leitmotiv de sua vida e carreira. Quando começou a se firmar como comediante, Benigni foi descrito algumas vezes como Pinóquio, por causa da sua insignificante estatura, espírito brincalhão e suas raízes na região da Toscana, onde o livro original foi escrito e ambientado.

   "O jeito de me mover, a maneira de interpretar, o jeito como eu vivo, tudo é muito semelhante ao de Pinóquio", disse. Em 1986, quando Benigni apareceu no filme americano Down by Law, o ator disse ao jornal The New York Times que, para fazer seu papel, um turista italiano preso, pensou em Pinóquio, a quem chamou de "o único outro comediante da Toscana e, como ele, "muito simplório, mas também muito esperto, muito inteligente".

   Nos anos subseqüentes, Federico Fellini teria dito que queria fazer a animação de Pinóquio, com Benigni no papel principal. Benigni ainda tem um desenho que Fellini fez dele como Pinóquio e o mantém nos escritórios de sua produtora, Melampo, um nome emprestado de um personagem do Pinóquio de Collodi.

   O ator disse que, pouco antes da morte de Fellini, em 1993, "para fazê-lo feliz, disse, ´por favor, por favor, Federico, recupere-se, porque nós temos de lançar Pinóquio´ E ele sorria para mim e dizia ´Oh, você vai lançar Pinóquio, Robertino´. Essa foi sua última frase para mim”.

   Pinóquio esteve sempre ali, dançando dentro e fora do cérebro de Benigni. Harvey Weinstein, co-chairman da Miramax, disse que nos ensaios para a decisiva noite do Oscar, observara as estranhas manobras do ator no auditório. “Por que você está andando em cima das cadeiras?", teria perguntado o executivo.

   "Você não deve ter lido o Pinóquio de Collodi”, teria respondido Benigni. No livro original, Pinóquio equilibra-se sobre os ombros de outros bonecos num show de marionetes. Horas mais tarde, durante uma das incursões vitoriosas de Benigni no palco do Oscar, Weinstein recordara: "Eu sabia quando ele passaria por Steven Spielberg e Billy Bob Thornton – na hora em que ele fez aquilo, eu disse: ´O próximo Pinóquio’".

   A Miramax distribuiu A vida é bela nos Estados Unidos. Foram 4 cinemas, dois em Nova York e dois em Los Angeles. A Miramax também está distribuindo Pinocchio, mas agora pretende exibi-lo em cerca de 2.000 telas. E os americanos vão ouvir Pinóquio em inglês, melhor que o legendado - um ajuste necessário quando o alvo é também infantil.

   Tudo isso faz com que alguns italianos fiquem muito preocupados com Benigni, que estreou como um provocador e que uma vez teve de pagar multa por fazer brincadeira sobre o papa. O medo é que ele tenha se tornado um hollywoodiano puro. Essas ansiedades todas não são aliviadas pelo orçamento de US$ 45 milhões de Pinocchio – cerca de seis vezes o que Benigni diz ter gasto com A vida é bela.

   Um jornal italiano, Il Foglio, publicou recentemente uma charge de Benigni vestido com um pijamão de Pinóquio com a seguinte legenda: "Depois de Pinóquio, atuará Benigni como Mickey Mouse?"

(© maga.zine estadao.com.br)

 

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