O italiano Sergio Castellitto conquista as mulheres
com 'Simplesmente Martha'
Alexandre Werneck
Repórter do JB
Qual é a receita de um galã de cinema? Quilos de
músculos, cobertos por camadas de Tom Cruise e Brad Pitt e pitadas de Hugh Jackman e
Leonardo DiCaprio? O romano Sergio Castellitto desobedece bem a isso: é um galã que
parece um homem normal. Os olhos caídos, o olhar irônico, o nariz adunco, a barba
geralmente por fazer, a voz comum. É o homem que a mulher pode encontrar de fato depois
de sair da sala de cinema, o vizinho, o colega do trabalho. Em Simplesmente Martha,
da alemã Sandra Nettelbeck, que estréia sexta-feira no Rio, esse colega de trabalho é o
chefe de cozinha italiano Mario, contratado para o restaurante comandado pela bela, mas
problemática Martha. Não é preciso dizer que o moço apimenta a relação e faz
desandar o molho da muralha de secura da chef de cousine. Dela e das moças que
vão ao cinema ver o filme.
- Para mim é maravilhoso pensar que as
mulheres gostem de mim. Mas não porque me ache bonito, mas é porque as mulheres são
muito mais sensíveis e são mesmo a maioria do público - diz o ator de 49 anos, mantendo
o bom humor (e fazendo certa campanha para agradar as fãs), apesar de seu celular
entrecortar a entrevista, de seu carro, enquanto ele vai para sua casa, em Roma.
Conhecido dos brasileiros por seus
excelentes trabalhos nos filmes O homem das estrelas (1995), de Giuseppe Tornatore,
e Concorrência desleal (2001), de Ettore Scola, Castellito foi uma das figuras
fáceis do Festival do Rio BR. Embora não tenha vindo à cidade, três filmes com ele
foram exibidos na mostra. Martha, O último beijo, de Gabriele Muccino, que
estréia em breve no Rio, e A hora da religião, do conterrâneo Marco Bellocchio,
um dos melhores filmes do evento. Em A hora..., ele não vive um galã, mas
conquista a bela Diana (vivida pela maravilhosa Chiara Conti), professora de religião do
filho. E há algo que une os trabalhos de Castellito no reflexivo filme de Bellocchio e na
engraçada comédia romântica de Sandra Nettelbeck: a ironia. É que Ernesto, seu
personagem em A hora..., um designer conhecido por sua carreira como pintor, não
perde oportunidades de ironizar as tradições italianas, principalmente a igreja
católica, que quer canonizar sua mãe e pede seu auxílio para isso. Ele chega a se
envolver em um inusitado duelo com um nobre por rir dessas tradições.
- A ironia ajuda a fazer os papéis
dramáticos também. Ela ajuda a olhar para os papéis com distanciamento - diz ele.
Mas em Martha, a ironia foi mais
do que um elemento do personagem. Foi quase uma arma do ator:
- Interpretei com ironia o personagem.
Há um estereótipo do italiano fora da Itália: macaroni, sotaque, jeitão mais
malandro. Fiz isso o mais ironicamente possível.
Pois lá está ele, no filme, ''o mais
ironicamente possível'', entre panelas e fogões, dando comidinha na boca de Martha,
conquistando a sobrinha que a cozinheira tem que criar quando sua irmã morre, e
preparando um jantar elegantíssimo, mas que pode ser comido no chão e sem os talheres.
Ouvem-se mais suspiros femininos na sala escura diante do estilo
príncipe-encantado-possível do ator. E essa imagem fica mais temperada somando à sua
história o feliz casamento com a atriz e escritora Margaret Mazzantini, com a qual tem
três filhos, e com quem está sempre trabalhando. Seu próximo projeto, aliás, será
dirigido por ele, a partir do livro dela. Catelitto considera este o maior desafio de sua
carreira, que diz levar mais a sério que sua própria pessoa:
- Sou muito sério no trabalho, mas
nada sério na vida pessoal. Não conseguiria ser ator se fosse.
Pois ele leva tão a sério o trabalho
que teve horas de aulas com chefes de cozinha para Simplesmente Martha. Mas ele é
obrigado a confessar algo que talvez macule sua imagem com as mulheres: não adiantou
muito.
- Como muito, mas não sei cozinhar
nada!
(© JB Online)
| Salada de línguas no
cinema |
| Apesar da simpatia de Castellito, algo
soa estranho em Simplesmente Martha: o filme se parece muito com uma comédia
romântica americana. De fato, se Meg Ryan estivesse no papel que é de Martina Gedeck e
Nicholas Cage no de Castellitto, poderia ser o mesmo filme.
- Estamos acostumados com as comédias inglesas e
francesas no máximo. Por isso, todo mundo chama a atenção para o filme ter cara de
americano. É difícil imaginar o que pode ser uma comédia alemã - diz Castellitto.
O ator defende o filme.
- Ele é bem escrito, lida bem com a psicologia. Gosto do
simbolismo de usar o ato de cozinhar como uma metáfora para as relações humanas - diz
ele, que fazia as cenas em italiano e dublava depois a si mesmo em alemão.
Metáforas ou não, Simplesmente Martha, chega aos
cinemas na sexta-feira tendo feito sucesso no Festival do Rio BR e nos Estados Unidos. O
trailer do filme exibido no Brasil, aliás, todo em inglês, parece querer fazer parecer
que se trata de uma comédia romântica americana (ele é vendido internacionalmente como Mostly
Martha e não como o original alemão, que aliás, é em italiano: Bella Martha).
Talvez até consiga mais sucesso que o greco-americano O casamento grego e seja a
comédia romântica da temporada, fazendo o público conhecer melhor o ator, que começou
no teatro no final dos anos 70 e que chegou ao cinema pela primeira vez em 1982, em O
general do exército morto, de Luciano Tovoli.
(© JB Online) |