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O galã com a receita da ironia

25/11/2002

 Castellito em ‘Simplesmente Martha’: charme como chefe italiano sedutor

 

O italiano Sergio Castellitto conquista as mulheres com 'Simplesmente Martha'

Alexandre Werneck
Repórter do JB

   Qual é a receita de um galã de cinema? Quilos de músculos, cobertos por camadas de Tom Cruise e Brad Pitt e pitadas de Hugh Jackman e Leonardo DiCaprio? O romano Sergio Castellitto desobedece bem a isso: é um galã que parece um homem normal. Os olhos caídos, o olhar irônico, o nariz adunco, a barba geralmente por fazer, a voz comum. É o homem que a mulher pode encontrar de fato depois de sair da sala de cinema, o vizinho, o colega do trabalho. Em Simplesmente Martha, da alemã Sandra Nettelbeck, que estréia sexta-feira no Rio, esse colega de trabalho é o chefe de cozinha italiano Mario, contratado para o restaurante comandado pela bela, mas problemática Martha. Não é preciso dizer que o moço apimenta a relação e faz desandar o molho da muralha de secura da chef de cousine. Dela e das moças que vão ao cinema ver o filme.

   - Para mim é maravilhoso pensar que as mulheres gostem de mim. Mas não porque me ache bonito, mas é porque as mulheres são muito mais sensíveis e são mesmo a maioria do público - diz o ator de 49 anos, mantendo o bom humor (e fazendo certa campanha para agradar as fãs), apesar de seu celular entrecortar a entrevista, de seu carro, enquanto ele vai para sua casa, em Roma.

   Conhecido dos brasileiros por seus excelentes trabalhos nos filmes O homem das estrelas (1995), de Giuseppe Tornatore, e Concorrência desleal (2001), de Ettore Scola, Castellito foi uma das figuras fáceis do Festival do Rio BR. Embora não tenha vindo à cidade, três filmes com ele foram exibidos na mostra. Martha, O último beijo, de Gabriele Muccino, que estréia em breve no Rio, e A hora da religião, do conterrâneo Marco Bellocchio, um dos melhores filmes do evento. Em A hora..., ele não vive um galã, mas conquista a bela Diana (vivida pela maravilhosa Chiara Conti), professora de religião do filho. E há algo que une os trabalhos de Castellito no reflexivo filme de Bellocchio e na engraçada comédia romântica de Sandra Nettelbeck: a ironia. É que Ernesto, seu personagem em A hora..., um designer conhecido por sua carreira como pintor, não perde oportunidades de ironizar as tradições italianas, principalmente a igreja católica, que quer canonizar sua mãe e pede seu auxílio para isso. Ele chega a se envolver em um inusitado duelo com um nobre por rir dessas tradições.

   - A ironia ajuda a fazer os papéis dramáticos também. Ela ajuda a olhar para os papéis com distanciamento - diz ele.

   Mas em Martha, a ironia foi mais do que um elemento do personagem. Foi quase uma arma do ator:

   - Interpretei com ironia o personagem. Há um estereótipo do italiano fora da Itália: macaroni, sotaque, jeitão mais malandro. Fiz isso o mais ironicamente possível.

   Pois lá está ele, no filme, ''o mais ironicamente possível'', entre panelas e fogões, dando comidinha na boca de Martha, conquistando a sobrinha que a cozinheira tem que criar quando sua irmã morre, e preparando um jantar elegantíssimo, mas que pode ser comido no chão e sem os talheres. Ouvem-se mais suspiros femininos na sala escura diante do estilo príncipe-encantado-possível do ator. E essa imagem fica mais temperada somando à sua história o feliz casamento com a atriz e escritora Margaret Mazzantini, com a qual tem três filhos, e com quem está sempre trabalhando. Seu próximo projeto, aliás, será dirigido por ele, a partir do livro dela. Catelitto considera este o maior desafio de sua carreira, que diz levar mais a sério que sua própria pessoa:

   - Sou muito sério no trabalho, mas nada sério na vida pessoal. Não conseguiria ser ator se fosse.

   Pois ele leva tão a sério o trabalho que teve horas de aulas com chefes de cozinha para Simplesmente Martha. Mas ele é obrigado a confessar algo que talvez macule sua imagem com as mulheres: não adiantou muito.

   - Como muito, mas não sei cozinhar nada!

(© JB Online)

Salada de línguas no cinema
 

   Apesar da simpatia de Castellito, algo soa estranho em Simplesmente Martha: o filme se parece muito com uma comédia romântica americana. De fato, se Meg Ryan estivesse no papel que é de Martina Gedeck e Nicholas Cage no de Castellitto, poderia ser o mesmo filme.

   - Estamos acostumados com as comédias inglesas e francesas no máximo. Por isso, todo mundo chama a atenção para o filme ter cara de americano. É difícil imaginar o que pode ser uma comédia alemã - diz Castellitto.

   O ator defende o filme.

   - Ele é bem escrito, lida bem com a psicologia. Gosto do simbolismo de usar o ato de cozinhar como uma metáfora para as relações humanas - diz ele, que fazia as cenas em italiano e dublava depois a si mesmo em alemão.

   Metáforas ou não, Simplesmente Martha, chega aos cinemas na sexta-feira tendo feito sucesso no Festival do Rio BR e nos Estados Unidos. O trailer do filme exibido no Brasil, aliás, todo em inglês, parece querer fazer parecer que se trata de uma comédia romântica americana (ele é vendido internacionalmente como Mostly Martha e não como o original alemão, que aliás, é em italiano: Bella Martha). Talvez até consiga mais sucesso que o greco-americano O casamento grego e seja a comédia romântica da temporada, fazendo o público conhecer melhor o ator, que começou no teatro no final dos anos 70 e que chegou ao cinema pela primeira vez em 1982, em O general do exército morto, de Luciano Tovoli.

(© JB Online)

 

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