Remo Bodei, que tem três livros publicados no Brasil, reforça o papel
dos filósofos
SONIA GOLDFEDER
Especial para o Estado
NICE O filósofo italiano Remo Bodei, professor de História
da Filosofia na Universidade de Pisa, tem uma proposta para salvar a razão. Estudioso de
Hegel e ultimamente dedicado a uma pesquisa sobre modelos éticos e estéticos, da
memória e da identidade coletiva, Bodei, de 64 anos, participou em Nice, na França, em
agosto, do 29.º Congresso da Associação das Sociedades de Filosofia de Língua Francesa
- que reuniu mais de 500 pessoas, entre pensadores, professores e pós-graduandos em
filosofia, em torno do tema Futuro da Razão, Devir das Racionalidades - com uma palestra
intitulada Pensar o Futuro. Conjecturas da Razão.
Ele analisou o desmoronamento de uma concepção da História como um
movimento único em uma só direção, o declínio das grandes esperanças coletivas, a
fragmentação dos projetos coletivos em uma pluralidade de histórias (sem maiúscula)
desconectadas umas das outras.
Remo Bodei que tem três obras traduzidas no Brasil pela Edusc: A
Política e a Felicidade, A Filosofia do Século XX e História Tem um Sentido ,
como a maior parte de seus colegas presentes nesse encontro, acredita que o mundo esteja
vivendo uma catástrofe. Mas enxerga, apesar de tudo, uma possibilidade de saída através
de uma intervenção consciente numa realidade na qual a filosofia teria um importante
papel. Ele conversou com o Estado sobre as possibilidades de resolver o problema do vazio
deixado pela derrocada das utopias que viam o futuro como a possibilidade da salvação
espiritual ou política.
Estado O senhor acredita que hoje ainda é possível pensar um projeto futuro de
vida coletiva?
Remo Bodei Podemos dizer que o futuro se tornou, hoje, algo obscuro, porque
acabou o que chamávamos de uma cultura da necessidade. Até há alguns anos estávamos
habituados a pensar que a história caminhava em uma determinada direção, em direção
ao reino da liberdade, a uma sociedade sem classes. Depois essa idéia foi confrontada com
uma explosão de situações com a queda do Muro de Berlim, com o o fim do bloco
socialista. Vimos que a História era mais astuta e inventiva do que pensávamos. Por
isso, chegou-se a uma conclusão que vai ao encontro da afirmação do economista John
Maynard Keynes, segundo a qual o inevitável não acontece nunca, o inesperado
sempre.
Estado E essa nova situação acabou por mudar a nossa idéia da relação do
homem com a História...
Bodei Essa situação produziu uma série de conseqüências: em primeiro lugar,
acabou aquele tipo de relação que atribuía à política uma função redentora, no
sentido de que ela se adequava ao presumido curso da história: quem avançava era
considerado progressista, quem ficava para trás era considerado reacionário. Hoje não
se sabe mais em que direção devemos andar. Outra conseqüência que podemos tirar dessa
situação é a de que, enquanto estava em vigência esse modelo de futuro hipotecado do
presente, acreditava-se que a história procedesse através de contradições dialéticas.
O que acontece hoje é um desenvolvimento sem contradições e, sobretudo, assistimos a
contradições sem desenvolvimento. Portanto, não há mais nenhuma possibilidade de
redenção daqueles elementos negativos da existência do indivíduo na sociedade: a
doença, a morte, a ignorância. Antes se podia dizer, em termos religiosos, que
suportando o que era negativo no presente Deus nos compensaria no além. Ou então, em
termos marxistas, aquilo que fora suprimido nas gerações presentes se compensaria nas
gerações futuras. Hoje a vareta mágica, a alquimia que transforma o negativo em
positivo não funciona mais, estamos em uma situação em que há um vazio no presente.
Estado E como então atacar esse vazio de forma racional?
Bodei Eu procurei, nesse sentido, propor um modelo de razão conjectural
inspirado em Condorcet o estudioso francês do século 18, que era filósofo e
matemático. Condorcet se baseava no se (se acontece alguma coisa, então...), levando em
consideração as conjecturas, não relativas ao passado, mas ao futuro. A vantagem desse
modelo é que não fazemos profecias e, portanto, não se inventa o futuro de maneira
utópica. A desvantagem é que substancialmente tudo se torna relativo na história, tudo
se torna um jogo ligado ao domínio do acaso.
Estado Como esse modelo nos ajudaria a entender o que está acontecendo hoje?
Bodei Diante desse modelo procurei ver o que acabou em nossa cultura. Primeiro,
acabou a união entre utopia e história que tinha sido o resultado de uma conjunção do
pensamento do século 18 e 19. A idéia de utopia, quando aparece pela primeira vez, está
ligada a uma sociedade perfeita mas impraticável, uma ilha à qual chegávamos por acaso
depois do naufrágio e a história era um conjunto de eventos organizados geralmente
segundo uma idéia de uma providência divina. O que acontece nos séculos 18 e 19 é uma
hibridação entre história e utopia. Com essa mudança surge a idéia de que a
perfeição existe, no futuro, nesta terra e não no céu, ou seja, que ela é possível.
Esse modelo porém entrou em crise no sentido de que esse amálgama de uma utopia que
dinamizava a História e da História que tornava utopia, mais conectada com a realidade,
se dissolveu. E nós temos hoje, de novo, de um lado, por exemplo, com os
fundamentalistas, o retorno de uma história sagrada: o homem, em vez de olhar para a
frente, olha para o alto. De outro lado, temos uma história que não tem meta, não tem
direção e, portanto, o retorno do inesperado, quando tudo se torna casual.
(© O Estado de
S. Paulo)