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Remo Bodei: o futuro como algo obscuro

25/11/2002

Juan Carlos Melero/Divulgação   ‘O Sono da Razão’, gravura de Francisco Goya, artista espanhol que no século 18 criou uma alegoria para os pesadelos que ameaçam a história humana

 

Remo Bodei, que tem três livros publicados no Brasil, reforça o papel dos filósofos

SONIA GOLDFEDER
Especial para o Estado

   NICE – O filósofo italiano Remo Bodei, professor de História da Filosofia na Universidade de Pisa, tem uma proposta para salvar a razão. Estudioso de Hegel e ultimamente dedicado a uma pesquisa sobre modelos éticos e estéticos, da memória e da identidade coletiva, Bodei, de 64 anos, participou em Nice, na França, em agosto, do 29.º Congresso da Associação das Sociedades de Filosofia de Língua Francesa - que reuniu mais de 500 pessoas, entre pensadores, professores e pós-graduandos em filosofia, em torno do tema Futuro da Razão, Devir das Racionalidades - com uma palestra intitulada Pensar o Futuro. Conjecturas da Razão.

   Ele analisou o desmoronamento de uma concepção da História como um movimento único em uma só direção, o declínio das grandes esperanças coletivas, a fragmentação dos projetos coletivos em uma pluralidade de histórias (sem maiúscula) desconectadas umas das outras.

   Remo Bodei – que tem três obras traduzidas no Brasil pela Edusc: A Política e a Felicidade, A Filosofia do Século XX e História Tem um Sentido –, como a maior parte de seus colegas presentes nesse encontro, acredita que o mundo esteja vivendo uma catástrofe. Mas enxerga, apesar de tudo, uma possibilidade de saída através de uma intervenção consciente numa realidade na qual a filosofia teria um importante papel. Ele conversou com o Estado sobre as possibilidades de resolver o problema do vazio deixado pela derrocada das utopias que viam o futuro como a possibilidade da salvação espiritual ou política.

Estado – O senhor acredita que hoje ainda é possível pensar um projeto futuro de vida coletiva?

Remo Bodei – Podemos dizer que o futuro se tornou, hoje, algo obscuro, porque acabou o que chamávamos de uma cultura da necessidade. Até há alguns anos estávamos habituados a pensar que a história caminhava em uma determinada direção, em direção ao reino da liberdade, a uma sociedade sem classes. Depois essa idéia foi confrontada com uma explosão de situações com a queda do Muro de Berlim, com o o fim do bloco socialista. Vimos que a História era mais astuta e inventiva do que pensávamos. Por isso, chegou-se a uma conclusão que vai ao encontro da afirmação do economista John Maynard Keynes, segundo a qual “o inevitável não acontece nunca, o inesperado sempre”.

Estado – E essa nova situação acabou por mudar a nossa idéia da relação do homem com a História...

Bodei – Essa situação produziu uma série de conseqüências: em primeiro lugar, acabou aquele tipo de relação que atribuía à política uma função redentora, no sentido de que ela se adequava ao presumido curso da história: quem avançava era considerado progressista, quem ficava para trás era considerado reacionário. Hoje não se sabe mais em que direção devemos andar. Outra conseqüência que podemos tirar dessa situação é a de que, enquanto estava em vigência esse modelo de futuro hipotecado do presente, acreditava-se que a história procedesse através de contradições dialéticas. O que acontece hoje é um desenvolvimento sem contradições e, sobretudo, assistimos a contradições sem desenvolvimento. Portanto, não há mais nenhuma possibilidade de redenção daqueles elementos negativos da existência do indivíduo na sociedade: a doença, a morte, a ignorância. Antes se podia dizer, em termos religiosos, que suportando o que era negativo no presente Deus nos compensaria no além. Ou então, em termos marxistas, aquilo que fora suprimido nas gerações presentes se compensaria nas gerações futuras. Hoje a vareta mágica, a alquimia que transforma o negativo em positivo não funciona mais, estamos em uma situação em que há um vazio no presente.

Estado – E como então atacar esse vazio de forma racional?

Bodei – Eu procurei, nesse sentido, propor um modelo de razão conjectural inspirado em Condorcet – o estudioso francês do século 18, que era filósofo e matemático. Condorcet se baseava no se (se acontece alguma coisa, então...), levando em consideração as conjecturas, não relativas ao passado, mas ao futuro. A vantagem desse modelo é que não fazemos profecias e, portanto, não se inventa o futuro de maneira utópica. A desvantagem é que substancialmente tudo se torna relativo na história, tudo se torna um jogo ligado ao domínio do acaso.

Estado – Como esse modelo nos ajudaria a entender o que está acontecendo hoje?

Bodei – Diante desse modelo procurei ver o que acabou em nossa cultura. Primeiro, acabou a união entre utopia e história que tinha sido o resultado de uma conjunção do pensamento do século 18 e 19. A idéia de utopia, quando aparece pela primeira vez, está ligada a uma sociedade perfeita mas impraticável, uma ilha à qual chegávamos por acaso depois do naufrágio e a história era um conjunto de eventos organizados geralmente segundo uma idéia de uma providência divina. O que acontece nos séculos 18 e 19 é uma hibridação entre história e utopia. Com essa mudança surge a idéia de que a perfeição existe, no futuro, nesta terra e não no céu, ou seja, que ela é possível. Esse modelo porém entrou em crise no sentido de que esse amálgama de uma utopia que dinamizava a História e da História que tornava utopia, mais conectada com a realidade, se dissolveu. E nós temos hoje, de novo, de um lado, por exemplo, com os fundamentalistas, o retorno de uma história sagrada: o homem, em vez de olhar para a frente, olha para o alto. De outro lado, temos uma história que não tem meta, não tem direção e, portanto, o retorno do inesperado, quando tudo se torna casual.

(© O Estado de S. Paulo)

 

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