Da Reuters, em Roma
Vitaliano Della Sala era um padre respeitado por seus superiores até que
começou a participar de passeatas ao lado de homossexuais e ativistas antiglobalização.
Agora, Della Sala perdeu seu posto.
Seus fiéis estão furiosos e prometem realizar protestos que podem
chacoalhar a pequena cidade de Sant'Angelo a Scala, um lugar tranquilo do sul da Itália
que conta com 700 habitantes.
O padre, de 39 anos, recebeu um comunicado de seu superior informando-o sobre
sua expulsão da paróquia da cidade, que fica a leste de Nápoles.
A remoção de Della Sala chamou atenção dos meios de comunicação do
país porque, durante anos, o padre esteve à frente de passeatas com ativistas
antiglobalização, homossexuais e desempregados.
"Da noite para o dia, passei a ter os mesmos problemas daqueles que não
possuem emprego ou casa para morar", afirmou Della Sala.
"Agora posso dizer de coração aberto: 'Sou um de vocês. Não tenho
emprego. Não tenho casa'. Acho que esse é o plano de Deus para mim", acrescentou.
O italiano enfureceu o Vaticano dois anos atrás, quando discursou em um
passeata do Orgulho Gay realizada em Roma. "Eu disse que o Vaticano estava errado por
excluir os gays das comemorações do jubileu, naquele ano. Nunca disse concordar com a
homossexualidade. Disse apenas que ficaria perto deles", declarou.
O próprio papa João Paulo 2º criticou a Parada do Orgulho Gay, afirmando
que as autoridades de Roma haviam ofendido a honra da Igreja Católica ao permitir que o
evento acontecesse durante o Ano Sagrado de 2000.
Naquele Natal, Della Sala expôs um presépio estranho em sua paróquia. O
berço ficava atrás de uma janela despedaçada de um McDonald's. O menino Jesus estava
desaparecido e podia-se ler o slogan: "Vamos quebrar o vidro de nosso egoísmo, o
vidro que divide os ricos dos pobres".
O decreto do superior regional do Vaticano, abade Tarcisio Giovanni, foi
pregado na porta da igreja de Della Sala, num gesto que lembrava o de Martinho Lutero em
1517. No decreto, Della Sala era acusado de frequentar pessoas que divulgavam opiniões
contrárias aos ensinamentos da Igreja e que promoviam a violência.
Essa foi uma alusão clara ao apoio do padre aos ativistas
antiglobalização. Della Sala participou dos protestos em 2001 na cidade de Gênova, onde
a polícia matou um ativista.
Em uma pesquisa divulgada pelo jornal "La Repubblica", de Roma, 78%
dos entrevistados mostraram-se contrários ao afastamento de Della Sala.
(© FOLHA Online)