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Primo Levi reaparece em seu último instante estilístico

09/12/2002

 

 

Obra reúne 26 contos do escritor italiano

MARCELO REZENDE
DA REPORTAGEM LOCAL

   Como em toda obra do escritor italiano Primo Levi, "O Último Natal de Guerra" (lançado agora pela editora Berlendis & Vertecchia) mostra ser o mundo um lugar perigoso para se estar; um território repleto de desafios morais onde cada ato equivale -necessariamente- a um imenso risco, e a inocência, sobretudo, é uma forma de mistério.

   "O Último Natal" reúne parte dos contos produzidos por ele entre 1977 e 1987, ano de sua morte, aos 67 anos; possivelmente, um suicídio. Em 2002, duas biografias de Levi foram publicadas em língua inglesa, e parece não existir uma afirmação definitiva sobre a queda de uma escada, em sua casa; se o fato foi um acidente ou uma opção.

   O volume traz, então, Levi em seu "último instante estilístico", como define a crítica italiana, e reúne uma produção publicada de maneira esparsa na imprensa de seu país. São 26 contos nos quais ele ficciona sua timidez e melancolia e se lembra de pequenos e dramáticos episódios passados em Auschwitz -onde foi prisioneiro de fevereiro de 1944 ao final de 1945, integrando um grupo de 650 judeus deportados.

   Levi, quando escreveu esses contos, estava no que poderia ser descrito como o novo momento de sua vida na literatura e em meio a uma batalha -para ele- essencial: lutava para deixar de ser apenas um sobrevivente, uma testemunha, e esperava ser reconhecido como um escritor. Algo que seria como uma nova forma de liberdade.

    Ele já tinha publicado seus mais conhecidos livros: "É Isto um Homem" (1947), "A Trégua" (1963), ou "A Tabela Periódica", em 1975; textos de caráter autobiográfico que direta ou indiretamente o conduziam de volta a sua experiência com o extermínio. Como o próprio Levi explicava, foi Auschwitz que fez dele um escritor, em nome da "necessidade tanto moral quanto psicológica".

   Escrever era para ele um ajuste de contas e uma via para sua ambição: deixar de ser um químico na industrial cidade de Torino (ele trabalhou durante anos em uma fábrica que pertencia a um ramo da família do romancista Alberto Moravia) e se tornar um criador.

   Suas histórias, em "O Último Natal de Guerra", procuram o equilíbrio entre a maneira que seus leitores se acostumaram a vê-lo e o modo como olhava a si mesmo, esperançoso em deixar de ser uma vítima ou consciência -involuntária- da humanidade.

   Todos os dias, dizem seus biógrafos (Ian Thomson, autor de "Primo Levi", e Carole Angier, de "The Double Bond"), recebia dezenas de cartas de pessoas estranhas a ele, que lhe pediam conselhos sobre como enfrentar seus problemas.

   Era dessa condição que Levi procurava escapar, a de uma imagem determinada pela fama, uma fama nascida da tragédia na juventude. Sua fuga só poderia acontecer pela criação.

   Há em sua ficção muito de Italo Calvino -os dois estrearam juntos na cena italiana, trazendo relatos do conflito; Levi, nos campos; Calvino, na resistência-, como o apego à fábula e ao fantástico. Mas seu tom é desesperançado, e o humor, mesmo quando aparece, é uma presença anômala. Um objeto fora de ordem.

   Assim, um canguru é convidado para uma festa em "Jantar em Pé"; nações eternamente em guerra descobrem a paz em "As Duas Bandeiras" e provocam mais violência no coração de um homem; jornalistas entrevistam uma girafa, uma toupeira, uma aranha ou uma formiga, que mostram a visão que têm dos homens.

   E há, claro, o inescapável: as lembranças. Episódios ocorridos durante a guerra, alguns já tratados por ele em outros textos, que são retomados em nome de uma reflexão, de um esclarecimento.

   Um Primo Levi não sobrevive sem o outro, e eles tanto se aproximam quanto se repelem em "O Último Natal de Guerra", buscando síntese ou aniquilação; Levi foi um químico que amava a profissão e, apesar de saber ser uma ilusão literária, jamais abandonou a busca pela fórmula perfeita.


O Último Natal de Guerra
Autor:
Primo Levi
Edição: Berlendis & Vertecchia
Quanto: R$ 28 (160 págs.)

(© Folha de S. Paulo)

 

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