Obra reúne 26 contos do escritor italiano
MARCELO REZENDE
DA REPORTAGEM LOCAL
Como em toda obra do escritor italiano Primo Levi,
"O Último Natal de Guerra" (lançado agora pela editora Berlendis &
Vertecchia) mostra ser o mundo um lugar perigoso para se estar; um território repleto de
desafios morais onde cada ato equivale -necessariamente- a um imenso risco, e a
inocência, sobretudo, é uma forma de mistério.
"O Último Natal" reúne parte dos contos
produzidos por ele entre 1977 e 1987, ano de sua morte, aos 67 anos; possivelmente, um
suicídio. Em 2002, duas biografias de Levi foram publicadas em língua inglesa, e parece
não existir uma afirmação definitiva sobre a queda de uma escada, em sua casa; se o
fato foi um acidente ou uma opção.
O volume traz, então, Levi em seu "último
instante estilístico", como define a crítica italiana, e reúne uma produção
publicada de maneira esparsa na imprensa de seu país. São 26 contos nos quais ele
ficciona sua timidez e melancolia e se lembra de pequenos e dramáticos episódios
passados em Auschwitz -onde foi prisioneiro de fevereiro de 1944 ao final de 1945,
integrando um grupo de 650 judeus deportados.
Levi, quando escreveu esses contos, estava no que
poderia ser descrito como o novo momento de sua vida na literatura e em meio a uma batalha
-para ele- essencial: lutava para deixar de ser apenas um sobrevivente, uma testemunha, e
esperava ser reconhecido como um escritor. Algo que seria como uma nova forma de
liberdade.
Ele já tinha publicado seus mais conhecidos
livros: "É Isto um Homem" (1947), "A Trégua" (1963), ou "A
Tabela Periódica", em 1975; textos de caráter autobiográfico que direta ou
indiretamente o conduziam de volta a sua experiência com o extermínio. Como o próprio
Levi explicava, foi Auschwitz que fez dele um escritor, em nome da "necessidade tanto
moral quanto psicológica".
Escrever era para ele um ajuste de contas e uma via
para sua ambição: deixar de ser um químico na industrial cidade de Torino (ele
trabalhou durante anos em uma fábrica que pertencia a um ramo da família do romancista
Alberto Moravia) e se tornar um criador.
Suas histórias, em "O Último Natal de
Guerra", procuram o equilíbrio entre a maneira que seus leitores se acostumaram a
vê-lo e o modo como olhava a si mesmo, esperançoso em deixar de ser uma vítima ou
consciência -involuntária- da humanidade.
Todos os dias, dizem seus biógrafos (Ian Thomson,
autor de "Primo Levi", e Carole Angier, de "The Double Bond"), recebia
dezenas de cartas de pessoas estranhas a ele, que lhe pediam conselhos sobre como
enfrentar seus problemas.
Era dessa condição que Levi procurava escapar, a de
uma imagem determinada pela fama, uma fama nascida da tragédia na juventude. Sua fuga só
poderia acontecer pela criação.
Há em sua ficção muito de Italo Calvino -os dois
estrearam juntos na cena italiana, trazendo relatos do conflito; Levi, nos campos;
Calvino, na resistência-, como o apego à fábula e ao fantástico. Mas seu tom é
desesperançado, e o humor, mesmo quando aparece, é uma presença anômala. Um objeto
fora de ordem.
Assim, um canguru é convidado para uma festa em
"Jantar em Pé"; nações eternamente em guerra descobrem a paz em "As Duas
Bandeiras" e provocam mais violência no coração de um homem; jornalistas
entrevistam uma girafa, uma toupeira, uma aranha ou uma formiga, que mostram a visão que
têm dos homens.
E há, claro, o inescapável: as lembranças.
Episódios ocorridos durante a guerra, alguns já tratados por ele em outros textos, que
são retomados em nome de uma reflexão, de um esclarecimento.
Um Primo Levi não sobrevive sem o outro, e eles tanto
se aproximam quanto se repelem em "O Último Natal de Guerra", buscando síntese
ou aniquilação; Levi foi um químico que amava a profissão e, apesar de saber ser uma
ilusão literária, jamais abandonou a busca pela fórmula perfeita.
O Último Natal de Guerra
Autor: Primo Levi
Edição: Berlendis & Vertecchia
Quanto: R$ 28 (160 págs.)
(© Folha de S. Paulo)