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Desencanto com Berlusconi chega ao auge

10/12/2002

 

 

Araújo Neto
Correspondente

   ROMA. Em menos de 19 meses, o governo de centro-direita chefiado pelo cavaliere Silvio Berlusconi conseguiu o que a muitos parecia impossível acontecer na política da Itália: esbanjar um extraordinário capital de consenso, de popularidade, simpatia e apoio que havia acumulado na eleição de 13 de maio de 2001. Às vésperas de 2003, o governo Berlusconi entra em fase de decomposição. Nos últimos 15 dias, a ruptura com as maiores confederações sindicais do país, as críticas sempre mais veementes feitas pela Confederação das Indústrias, as polêmicas cada vez mais acirradas com o Vaticano, e as greves e manifestações de protesto em toda a Itália marcaram o acirramento da crise política.

   As principais e grandes causas da decomposição do governo Berlusconi são clamorosas. Primeiro, a inadimplência já considerada inevitável do contrato social que, como candidato a chefe de governo, Berlusconi propôs aos italianos. No contrato, firmado há um ano e meio por ele num programa transmitido pela maior rede da televisão estatal do país, RaiUno, Berlusconi assumiu cinco compromissos: redução da pressão fiscal, diminuição dos crimes, aumento das aposentadorias mais baixas, redução do desemprego à metade até 2006 e realização de grandes obras públicas, entre as quais a ponte que liga a Sicília ao continente.

Desemprego levou à união de sindicatos

   A raiva e o protesto que todos os dias estão nas ruas das cidades italianas são conseqüências do quase total desrespeito das cinco promessas que Berlusconi fez, inclusive afirmando que, se não as cumprisse, não voltaria a se candidatar a nenhum cargo eletivo. A redução fiscal que Berlusconi quer aprovar no Parlamento beneficiaria apenas uma mínima faixa de trabalhadores. O aumento das aposentadorias acabou se transformando num grande logro: dos cerca de 30 milhões de aposentados italianos, só um número irrisório deles deverá ser contemplado com uma aposentadoria maior.

   A criação de novos empregos foi brutalmente impossibilitada, e provocou a união e a rebelião de todas as confederações sindicais, pelo acordo que o governo estabeleceu com a Fiat, que já anunciou a demissão, nos próximos meses, de 8.100 operários em suas fábricas italianas. Demissões que levarão esses operários a viver, nos próximos anos, com salários muito inferiores aos atuais, pagos pelo único instituto de amortização social existente na Itália, a chamada Caixa de Integração.

Berlusconi propôs a demitidos fazerem “bico”

   Diante deste protesto unânime e geral, não só dos metalúrgicos demitidos pela Fiat, mas de todos os trabalhadores do país, as soluções propostas por Berlusconi parecem anedotas de mau gosto. A primeira foi de os metalúrgicos demitidos se transformarem em enfermeiros, que estão em falta em todos os hospitais do país. A segunda é de que os operários obrigados a viver com salários reduzidos se virem, tentando se arranjar com “empregos não oficiais”, isto é, “bicos” feitos quase clandestinamente, contra a legislação italiana.

(© Globo On Line)

 

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