O restaurador italiano Andrea Papi volta ao
país para coordenar curso que forma profissionais, enquanto recupera peças do
patrimônio nacional
Cláudia Amorim
Repórter do JB
Graças ao ofício desse italiano, cacos podem
voltar a ser vasos preciosos, desde que colados com adesivo poliéster UHU extra gel,
limpos com bisturi, reconstituídos nas lacunas com gesso odontológico, nivelados com
estuque e tendo passado por mais cinco etapas de trabalho minucioso, como foi o caso de um
exemplar de faiança, do século 15, restaurado em um dos cursos coordenados por ele no
Brasil. Andrea Papi, diretor do Instituto de Arte e Restauro do Palazzo Spinelli, de
Florença, um dos mais importantes do mundo (responsável por restaurações no Oriente
Médio), está de volta ao país para dar a partida no quarto curso de sua lista
brasileira, que incluiu etapas na capital baiana e nas cidades mineiras de Belo Horizonte,
Ouro Preto, Mariana e Pitangui. Desta vez - depois de madeira, cerâmicas (inclusive
arqueológicas) e pedras - as aulas mostram como restaurar pinturas.
A cada curso, que normalmente
dura seis meses e contabiliza 600 horas/aula, o ensino é feito através da recuperação
de patrimônios. Com isso, o Brasil já viu mobiliário, estátuas e cerâmicas, entre
outras peças do acervo nacional, serem salvas da degradação graças à iniciativa, uma
parceria entre o governo italiano e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional. Os beneficiados agora serão dez quadros, entre eles dois da Igreja de Nossa
Senhora do Carmo da Antiga Sé e um do Convento de Santo Antônio. O programa, que formou
até agora cem profissionais brasileiros para a área de conservação e restauro, é
bancado pelo Ministero del Lavoro e della Previdenza Sociale, o Ministério do Trabalho
italiano, o que explica a preferência dada a alunos que tenham ascendência italiana.
- O projeto nasceu com cunho
econômico e social, visando o benefício de descendentes de imigrantes italianos. Mas,
com a adesão do Instituto Italiano Latino-Americano, o projeto passou a ter, sobretudo,
caráter cultural: uma cooperação técnico-cultural entre Brasil e Itália - explica
Franco Vicenzotti, diretor do Istituto Italiano di Cultura do Rio de Janeiro e adido
cultural da Itália para os Estados do Rio e Espírito Santo.
Vicenzotti pondera que custo
do programa, que inclui o material e as técnicas que têm recuperado as peças
brasileiras, além dos gastos com as equipes de professores trazidos da Itália, é alto.
Mas diz que, mesmo assim, o projeto deve durar mais dois anos. Depois do curso atual, que
acontece na Universidade Gama Filho até julho, a próxima parada de Andrea Papi será,
provavelmente, Salvador, para coordenar aulas de restauração de tecidos.
- Eles têm um acervo
fantástico. É o vestuário brasileiro, com roupas de escravos, senhores e também peças
como vestidos da princesa Isabel - exalta Papi.
O italiano aproveita a
temporada no Brasil para conhecer as Missões, no Sul.
- Estou maravilhado com o
trabalho que está sendo feito no Rio Grande do Sul, com a conservação de São Miguel -
elogia Papi, em entrevista por telefone ao JB.
Mas, como não é segredo para
ninguém, nem tudo são flores no mundo do patrimônio brasileiro. O italiano se preocupa
com as dificuldades que a conservação e a restauração enfrentam no país, agravados,
como aponta, por fatores como o tamanho do território nacional, o calor e a umidade. Mas,
ironicamente, a ausência de restauro pode, em muitos casos, ter feito bem ao patrimônio
nacional.
- Falta no Brasil um centro de
formação de restauro, atividade que, com o turismo e a criação de empregos, é
importante para a economia. Mas um dos maiores problemas que enfrentamos na área é a
restauração malfeita. Muitas peças se perdem, vítimas de processos irreversíveis -
lamenta Papi.
(© JB Online)