Marco Tullio Giordana tem um carinho especial por São Paulo. E isso não
se deve só ao fato de que Os Cem Passos ganhou o prêmio do público na Mostra
Internacional de Cinema do ano passado. Ele tem um tio querido - o Zio Alberto -, que mora
'sull Giardini", nos Jardins, na Alameda Itu. O repórter diz que vai colocar a
informação no texto. Giordana agradece, do outro lado da linha, em Roma: "Zio
Alberto vai adorar." A família é muito importante para Giordana. É muito
importante para os italianos em geral, ele corrige. "O conceito de família é mais
forte no nosso inconsciente do que o de sociedade", explica. E a família está no
centro de Os Cem Passos, seu belo filme.
Giordana já havia feito Pasolini - Um Delito Italiano, partindo do
assassinato do polêmico diretor para fazer um amplo quadro sobre arte e política na
Itália dos anos 1960 e 70, quando Pier-Paolo Pasolini passou como um furacão, agitando
um debate cultural que até hoje repercute na vida italiana. Em Os Cem Passos o diretor
baseia-se de novo numa história real. E de novo faz outro amplo quadro sobre a vida
política e institucional de seu país. "Fiz este filme para acabar com a idéia de
que todos os sicilianos são mafiosos", diz Giordana. Peppino Impastato, o
protagonista de Os Cem Passos, foi um jovem que lutou contra a corrupção e a dominação
da Máfia. Teve de brigar em casa, por causa disso. O pai tinha ligações, até
familiares, com a Máfia. Esse filme político é também aquilo que o autor define como
um "romanzo familiare".
Um romance familiar: jovem idealista enfrenta o próprio pai em sua luta
contra os poderosos. Paga com a vida por isso. Pasolini também foi morto por suas
idéias. Será que é preciso estar disposto ao sacrifício para lutar por uma sociedade
mais justa e igualitária, por um mundo mais humano? "Não creio que Pier-Paolo e
Peppino tenham se oferecido em sacrifício, como cordeiros de Deus. Acreditavam no que
faziam e o faziam para afirmar a vida. A perda dessas pessoas extraordinárias é uma
tragédia, mas também nos cria um problema de consciência: não podemos permitir, se
somos seres pensantes, que suas mortes tenham sido vãs."
Até por esse compromisso de ser fiel à história real, Giordana diz que
não inventou nada na sua narrativa sobre Peppino. "Seria muito cruel usar alguém
que morreu por uma idéia para tecer uma ficção que não servisse a outro propósito que
não à reafirmação dessa idéia", diz o diretor. Filmes como os dele e também o
projeto coletivo contra a globalização - Um Mundo Diferente É Possível - indicam que o
cinema político voltou a ser forte na Itália como nos anos 1960 e 70, na época de
Francesco Rosi, Giuliano Montaldo, Damiano Damiani e outros diretores? "O cinema
italiano nunca esteve tão amordaçado como hoje", diz Giordana. Ele até acha que
teve sorte de ter feito Os Cem Passos há dois anos. "Não estou muito seguro de que
conseguiria financiamento, se fosse fazer o filme agora."
Denuncia o monopólio que ameaça não só o cinema, mas o próprio Estado
italiano. "O presidente do Conselho de Ministros (Silvio Berlusconi) domina a
máquina do Estado, o que inclui a TV estatal, e possui a maior rede privada de
comunicação do país. Tamanha concentração de poder é o oposto do que deve ser uma
democracia." Por isso mesmo, acha que hoje a direita não precisa mais de fuzis para
exercer sua dominação. "Eles já possuem o domínio da informação." Pretende
continuar fazendo filmes com o pé na realidade.
"Fiz Os Cem Passos pensando nos jovens. Participei de debates com eles por
toda a Itália; foi uma experiência gratificante ver a sede de informação que eles
têm." Conta que escolheu o ator que faz Peppino - Luigi Lo Cascio, um estreante
vindo do teatro - por seus olhos. "Expressam esperança, revolta; pode-se ler tudo
neles." O repórter lembra Nicholas Ray: "O cinema é a melodia do olhar."
Certo, diz Giordana. O assunto volta ao romanzo familiare. Agora, o repórter cita Rocco e
Seus Irmãos, o clássico de Luchino Visconti. "É um dos meus filmes preferidos, um
capolavoro (uma obra-prima)", define Giordana. Acaba de fazer, para TV, o seu Rocco:
A Melhor Juventude, título pasoliniano, conta a história de uma família, desde os anos
1960 até a atualidade.