| Mais uma vez, com a proximidade das festas de fim de
ano, num momento em que o mundo precisa de paz entre os homens, independentemente de
raça, credo, língua e ideologia, o Memorial do Imigrante comemorou a data máxima da
cristandade, sem esquecer que a mensagem de amor ao próximo é um ideal em todas as
culturas. Mas como a cultura e a história de um momento (ou de momentos) pode ser
expressa para nossos visitantes?
A resposta é fácil: usando a mesma idéia que foi posta em prática no
pequeno vilarejo de Greccio (Itália), pelos idos de 1223.
Quantas pessoas já pararam para pensar por que montamos presépios na época
do Natal. É uma história muito bonita, que une a crença num mundo melhor, não no final
dos tempos, mas aqui e agora, com paz e amor entre todos os povos da humanidade.
A idéia foi de São Francisco de Assis, fundador da ordem dos Franciscanos,
cujos religiosos faziam voto de pobreza, desligandose dos prazeres mundanos e
materialistas. Consta que aquele santo resolveu encenar o nascimento de Jesus (daí a
palavra Natal raiz latina para nascimento), achando que isso aproximaria mais as
pessoas simples do lugar. Haveria personagens como os Reis Magos (ou Sábios), os pastores
e camponeses, acompanhados dos animais (afinal São Francisco é seu protetor) além, é
claro, da Sagrada Família. O sucesso da iniciativa espalhou a novidade por toda a Europa,
da boca de um ao ouvido de outro e, com o tempo, foi sendo adaptada em cada região e
cultura. No Brasil, a idéia chegou pelas mãos de um jesuíta, José de Anchieta, e foi
encenada pela primeira vez aos gentios (índios) e colonos portugueses em 1552.
Até a década de 1970, era comum as casas de famílias católicas ostentarem
um presépio, tanto mais chique e incrementado quanto mais abastada a família,
contrariando os princípios de São Francisco. Uma dessas famílias era descendente de um
famoso imigrante italiano Matarazzo. Seu filho, Ciccilo, que anos depois seria um
dos fundadores da Bienal de São Paulo, comprou um magnífico presépio do século XVIII
na Itália do pósguerra, mais precisamente em 1949. No dia de São Francisco (4 de
outubro) do ano seguinte, esse presépio quot;napolitano" foi exposto na Galeria
Prestes Maia. Suas 1.600 figuras e personagens, cada um diferente do outro, nos mostra
muito mais que a fé e a devoção religiosa. Ele representa todo um momento do cotidiano
daquela região italiana, um verdadeiro estudo dos costumes e relações sociais das mais
variadas classes e tipos.
Atualmente, esse presépio se encontra em exposição no Museu de Arte Sacra
de São Paulo, um órgão, como o Memorial, da Secretaria de Estado da Cultura. Devido ao
seu tamanho e à dificuldade para a montagem, que exige técnicos especializados, ele não
pode circular. A solução encontrada para expô-lo no Memorial do Imigrante foi
"transformálo" em uma exposição fotográfica. Se, por um lado, se perde
a tridimensionalidade e a sensação das peças ao vivo, por outro, pudemos condensar sua
beleza em 19 painéis, onde tivemos a vantagem adicional de observar detalhes que a
distância decorrente dos esforços de preservação e montagem dessa obraprima não
permitem. A ampliação de detalhes muda o nosso olhar, que passa a ser mais crítico e
apurado. Podemos reconhecer as expressões dos personagens, cada qual com suas
peculiaridades, contando um momento de suas histórias na "Napoli degli
ottocento", mesclado à história bíblica.
Além dos painéis, estiveram expostas algumas peças do acervo do Memorial,
alusivas às festas e brincadeiras de vários grupos imigrantes, assim como uma cenografia
especial, e histórias e lendas natalinas de diferentes nacionalidades. Lá estavam a
Befana, uma bruxinha que trás presentes para as crianças italianas; Santa Klaus, um
simpático PapaiNoel austríaco e muitos outros objetos. A decoração desses outros
painéis foi feita com a reprodução de cartões postais de Boas Festas, de vários
países e épocas.
Embora o dia 5 de janeiro seja a data em que se deve desmontar os presépios
(Dia de Reis, quando as crianças na Espanha recebem os presentes de Natal), no dia 6 de
janeiro realizamos com o apoio do Circolo Toscano e da Ass. Giovani Cuori a Festa da
Befana, com a distribuição de doces e guloseimas para as crianças presentes.
Serviço: exposição de 11 de dezembro de 2001 a 6 de janeiro de 2002
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