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Um banquete de Fellini para o Natal dos cinéfilos de fino trato

21/12/2002

Cena de ‘Os Palhaços’: Fellini sai em busca dos mistérios da arte circense

 

"Os Palhaços" entra em circuito comercial pela primeira vez e outros três clássicos voltam aos cinemas

LUIZ ZANIN ORICCHIO

  Fellini gostava de contar que tinha fugido com um circo quando garoto. Ninguém, nem mesmo o melhor biógrafo do cineasta, Tullio Kezich, se atreveu a desmentir. Ou a confirmar. Mas provavelmente é mentira e, no fundo, pouco importa. Sobra o fato de o circo ter se mantido, ao longo de toda a carreira desse cineasta maior, como uma fantasia recorrente. Uma verdadeira obsessão, como poderá conferir o espectador com Os Palhaços, que abre um miniciclo dedicado ao diretor italiano. Os três outros títulos programados - Satyricon, Amarcord e Roma - são também obras-primas, afirmação que chega a ser ociosa quando se fala de Federico Fellini.

   Em Os Palhaços (I Clowns, lançado em 1970) há primeiro isso, um documentário de si mesmo. Vemos uma criança, o próprio Federico, encantado com o circo que está sendo montado na frente da sua casa, em Rimini. Depois seguimos o espetáculo em si, com as feras, malabaristas, mulheres maravilhosas, e, claro, os palhaços. Uma relação ambígua para Fellini pois, como ele também diz, a primeira vez que viu um deles teve vontade de chorar e não de rir.

   Por isso, talvez, os palhaços de Fellini sejam tão comoventes.

   Provavelmente essas lembranças - vividas ou imaginadas - estejam na origem desse falso documentário. Fellini encena a si mesmo como o diretor de um programa de TV que sai em busca dos palhaços do passado. Depois de visitar o circo Orlando Orfei, ele e sua trupe viajam a Paris. No Café Curieux, no antigo Les Halles, o mercado municipal demolido no governo Giscard D'Estaing, entrevistam Tristam Rémy, especialista na história do circo, e falam com outros freqüentadores, todos homens e mulheres ligados ao métier.

   A viagem a Paris é fundamental porque Fellini precisa pesquisar sobre a antiga arte circense. Vai à casa do historiador Pierre Étaix para ver um filme sobre os famosos irmãos Fratellini. Mas o aparelho enguiça. A equipe chega finalmente à Cinemateca Francesa, onde está depositado o graal - um filme com as únicas imagens em movimento de Rhum, considerado o melhor palhaço de todos os tempos. Rhum foi um mito e perdeu-se pelo nome, bebendo até morrer. Uma funcionária mal-humorada atende o sr. Bellini (sic) e mostra o filmete. Ou melhor, o que restou dele, com o palhaço legendário mal aparecendo no fundo de uma cena de poucos segundos. Decepção total. Fellini sente-se perseguindo um fantasma, um resto de sonho, traços de fumaça.

   E é isso mesmo que havia lhe dito Rémy: para que fazer um documentário sobre uma arte em extinção (estamos em 1970), que não tem vez no mundo moderno e certamente não terá nenhum futuro? Pois bem, se Fellini começa com uma fantasia, a dele próprio, prossegue seguindo os traços que restam da velha arte de fazer rir. E, com essa busca, a apresenta de forma magnífica ao espectador.

   Não se trata de uma busca intelectual, ou apenas intelectual. É uma procura amorosa, cheia de cores e de sons. Fellini sabe que o imaginário circense não comporta tons pastel. Usa toda a paleta de sua imaginação visual para fazer o espectador penetrar no encanto desse mundo em via de desaparição. E o faz através da música sublime de Nino Rota.

   Nino tinha com Fellini uma parceria de vida. Adivinhava o que o diretor tinha em mente e na sua fértil imaginação e o traduzia numa paleta sonora também ela colorida como um arco-íris. Os temas circenses estão presentes em boa parte dos filmes em que Nino trabalhou com Fellini, como A Doce Vida e Oito e Meio. Com maior motivo, as famosas marchinhas de circo estão presentes em Os Palhaços. Fellini vai em busca desse sonho pessoal, penetra nas trevas, ou no desconhecido, mas leva seu Virgílio de sempre, Nino Rota.

   Qual o grau de realidade com o qual eles trabalham? Se o circo não tem futuro, também não tem passado, pois o espetáculo se esgota no momento em que acontece. O circo mora no domínio da memória, e pertence então, de direito, ao território central da obra de Fellini. Há o tempo que passou, que fica apenas na lembrança dos que o viveram e o sentimento que dele se guarda. O resto é nada, é sombra e fumaça.

   No entanto, é desse nada, da sombra e da fumaça que Fellini constrói um mundo. Seu estudo dos palhaços é minucioso e avança por dicotomias. Há o palhaço branco e o Augusto. Um é sério e dominador; o outro, anárquico.

   Essas dicotomias se estendem pela vida. Hitler era um palhaço branco, Mussolini, um Augusto. O universo humano é todo feito de oposições. Patrões e empregados, tristes e alegres, razão e loucura, rebeldes e conformistas.

   Tudo vai fazendo sentido à medida que a pesquisa avança. Shakespeare dizia que o mundo era teatro e os homens, atores. Para Fellini, o mundo é um picadeiro e no centro dele estão os palhaços. Atuam para a platéia, mas, sobretudo, atuam para si mesmos. Até que um dia se cansam e saem de cena.

   Como aquele velho palhaço que aparece no final e pergunta a Fellini: Dottore, posso andare a casa? Posso ir para casa? De cortar o coração, porque diz respeito a todos e a cada um de nós.

(© O Estado de S. Paulo)

Lixo da civilização vira luxo com o grande autor
 

'Satyricon', 'Roma' e 'Amarcord' são viagens grandiosas no imaginário do diretor

LUIZ CARLOS MERTEN

  Se você é cinéfilo pode entrar em estado de graça. Está se iniciando a festa do cinema que vai transformar este final de ano, na cidade, numa sucessão ininterrupta de emoções, até o réveillon. Começa hoje com Tosca, o magnífico filme-ópera de Benoît Jacquot, e uma penca de Fellinis (a estréia de Os Palhaços, a reapresentação, em cópias novas, na sessão Marlboro do Unibanco Arteplex, de Fellini Satyricon, Fellini Roma e Amarcord). Prossegue na quarta, dia de Natal, com as reestréias, também em cópias novas, de O Grande Ditador, de Charles Chaplin, e Queimada, de Gillo Pontecorvo. E culmina, na próxima sexta-feira, dia 27, com o monumental O Senhor dos Anéis - As Duas Torres, que Peter Jackson adaptou do livro cult de John Ronald Reuel Tolkien. Haja coração.

   Quatro filmes de Federico Fellini numa só semana. E, depois, em janeiro, muito possivelmente no dia 17, a reestréia de mais um clássico felliniano, que a Pandora vai recolocar nas telas na cópia nova de uma versão restaurada -A Estrada da Vida (La Strada). Difícil escolher, entre tantas obras-primas do mestre, qual a melhor. Fellini sempre foi um mentiroso genial, que forjou para si mesmo uma biografia fictícia tão convincente que todo mundo, incluindo ele próprio, terminou por acreditar nela. O circo sempre foi importante em sua obra e Fellini gostava de dizer que, quando menino, havia fugido, pondo-se na estrada atrás de um circo que havia passado por Rimini, a cidade na qual nasceu. Sua mãe, a mulher, Giulietta Masina, todas diziam que era mentira, mas Fellini reconstitui a cena na abertura de Os Palhaços, que fez para a TV. É um falso documentário, mas o que é falso e o que é verdadeiro no cinema e no cinema de Fellini, em particular?

   Quando o grande Federico fez Oito e Meio, no começo dos anos 1960, não foram poucos os críticos que tentaram desautorizar o filme e o autor, dizendo que era absurdo, como fazia Fellini, usar o cinema para debruçar-se sobre as próprias lembranças, desenvolvendo uma obra tão autobiográfica. Na verdade, não havia absurdo nenhum e Fellini provou que ser pessoal, viajando em torno ao próprio umbigo, não o impedia de ser universal. Ele foi à Roma dos Césares em Satyricon, sua adaptação de Petrônio, passou pela capital italiana que conheceu tanto, antes, durante e depois da guerra, em Roma, e ainda foi a Rimini para reconstituir suas fantasias de garoto em Amarcord.

   Na verdade, não foi a lugar nenhum, pois na sua última fase Fellini ficou tão solipsista que não se dignava a sair do célebre estúdio n.º 5, de Cinecittà, no qual reconstruía o mundo segundo seus desejos e fantasias.

   Satyricon de Fellini, Roma de Fellini, Casanova de Fellini. Poucos, talvez nenhum outro diretor, tenha incorporado tanto o próprio nome à criação cinematográfica. Era sempre ele, Fellini, único e múltiplo, como só os maiores criadores conseguem ser. Quando fez A Doce Vida, em 1959, escandalizando a Igreja com a imagem daquele Cristo que sobrevoava Roma, carregado por um helicóptero, Fellini já falava de uma 'Babilônia 2000' ou de um Satyricon revisitado e modernizado. Fez, exatamente dez anos mais tarde, o seu Satyricon, mas o filme baseado em Petrônio, contando as aventuras de dois rapazes (Encolpius e Asciltus) que disputam o mesmo efebo (Giton), foi praticamente demolido pelos críticos, que o trataram como 'stravaganza' para baixo.

   A viagem de Fellini à decadência do império romano exibe um visual suntuoso, com influências assumidas de Botticelli e Brueghel. Fellini pode ter filmado o lixo da civilização, mas seu filme é um luxo. A censura do regime militar, sempre atenta à moral e aos bons costumes, mutilou Satyricon a ponto de tornar certas cenas incompreensíveis e o filme ainda mais descontínuo do que realmente é. Continuou mutilando Roma de Fellini, quase nada nas cenas de bordéis, com aquelas prostitutas imensas, mas podando inteira a célebre seqüência do desfile de modas eclesiásticas, que você poderá ver na íntegra, agora. E há Amarcord, a infância de Fellini sob o fascismo. O episódio do 'zio matto' (o tio louco que grita: "Quero uma mulher') e a passagem do transatlântico Rex, dentro da noite, são momentos maiores da arte do diretor. De Fellini, apenas? Não, do cinema.

(© O Estado de S. Paulo)

'Os palhaços': Palhaços na vida

  
Federico Fellini

Jefferson Lessa

   OS PALHAÇOS. Mesmo correndo o risco de ser politicamente incorreto, cafona, ranzinza — qualquer coisa não-muito-boa — preciso dizer: circo não é para qualquer um. Pelo menos não para mim, pois não sou exatamente o fã número um de picadeiros e das atrações que eles abrigam. Então, fui ver “Os palhaços” (“I clowns”), de Federico Fellini, apostando apenas na grife do diretor. O tema, muito cá entre nós, não empolgava quase nada.

   A marca do diretor dá o ar de sua graça na seqüência inicial. Um garoto acorda no meio da noite e vê, diante da janela de seu quarto pequeno e banal de casa provinciana, o início da montagem de um circo. Majestosa, impressionante, assustadora, a imensa tenda se ergue sob o luar. De dentro da lona, homens gritam para incentivar o trabalho. O fascínio do circo está resumido ali, numa cena que, como muitas dirigidas pelo mestre, elevam o cotidiano a uma dimensão mítica.

   O garoto escapa de casa e entra no circo como se aportasse num outro planeta. Melhor: o garoto chega a um outro planeta, ponto.

   A partir daí, mesmo quem não gosta muito de circo não tem como não se render (e entender) o fascínio milenar dos homens pelas arenas. É (mais) um feito e tanto de Fellini.

   Rodado em 1970 para a TV italiana, o documentário flagra (flagra?) Anita Ekberg tentando comprar um tigre como quem escolhe um cachorrinho para bicho de estimação. Conta com depoimentos de vários palhaços de grandes circos europeus. E termina por, mais uma vez, deixar no coração do espectador o sentimento de que a vida é um grande picadeiro. Um espetáculo circense infinito, se preferirem. Com alguns momentos de felicidade, como a vida.

   Por falar em felicidade, atenção à última parte de “Os palhaços”, que se alonga na encenação do funeral de um clown . Fictício, claro. Mas triste e comovente como se fosse real. Enfim, somos todos palhaços na vida.

(© O Globo On Line)

 

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