Veneza
se transforma num canteiro de obras para se consolidar como centro cultural europeu - e
facilitar a vida dos turistas
Veneza já foi o centro de um pujante império comercial. Do século
XI até a descoberta da América, em 1492, a cidade à beira do Mar Adriático possuía a
maior frota mercante do mundo. Ali ficava o elo entre o que se produzia no Oriente e a
economia européia. O esplendor e a riqueza se refletiam na arquitetura inigualável da
cidade recortada de canais. Orgulhosa de seu passado, e dependente dele, Veneza iniciou
uma reforma radical que a transformará num imenso canteiro de obras pelos próximos anos.
Com 275 mil habitantes, a cidade recebeu 13 milhões de visitantes em 2001.
Evidentemente, o conforto dos turistas, responsáveis por uma receita de US$ 900 milhões
por ano, ocupa um lugar privilegiado nas preocupações do prefeito Paolo Costa, de
centro-esquerda. Apelidado de Doge, título que se concedia nos tempos de glória ao
principal mandatário de Veneza, Costa traça planos ambiciosos. Para as obras de
ampliação do Aeroporto Marco Polo, contratou o arquiteto canadense naturalizado
americano Frank Gehry. Autor do projeto do famoso Museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha,
Gehry vai erguer uma nova ala do aeroporto.
Mas sua obra ficará no
continente, longe do centro histórico de Veneza. A responsabilidade pelo empreendimento
mais ousado no coração da cidade ficará com Santiago Calatrava, o espanhol que
idealizou o charmoso Puerto Madero, em Buenos Aires. Calatrava desenhou uma ponte que
dará acesso à parte antiga de Veneza para quem chega de carro, trem ou em um dos 2 mil
ônibus turísticos que ali aportam todos os dias. Será a quarta ponte erguida sobre o
Grande Canal, a maior entre as 200 vias aquáticas que recortam a cidade.
Às margens do Grande Canal se
concentram muitos dos principais monumentos venezianos - entre eles, o Teatro La Fenice
(AFênix), que, fazendo jus ao nome, está na fase final da reconstrução, depois do
incêndio que o transformou em cinzas, em 1996. Em menos de um ano, a casa de espetáculos
do século XVIII voltará a abrigar concertos e óperas, movimentando a vida artística da
cidade.
Grande parte do esforço
de remodelação está voltada para reforçar a vocação de Veneza como centro cultural.
Em setembro, o Museu de Arte Moderna foi reaberto ao público, depois de oito anos de
obras. A restauração da fachada do Palácio dos Doges já está concluída. OTeatro
Malibran e a Casa Goldoni, com sua fabulosa biblioteca, também já podem ser visitados,
completamente reformados.
Outra biblioteca, na entrada do
Grande Canal, está sendo projetada pelo arquiteto Vittorio Gregotti, por encomenda da
prefeitura. Para lá irão os 65 mil livros da Universidade Ca'Foscari. A febre
modernizante também abarca o Instituto Universitário de Arquitetura, que ganhará uma
nova sede, no canal que liga a cidade à ilha de Giudecca. O plano é juntar esses dois
famosos centros de ensino, com um total de 30 mil alunos, para formar a Universidade
Internacional de Veneza, dedicada exclusivamente às artes visuais.
O
turismo sustenta Veneza, mas esse negócio é insuficiente para torná-
la
uma cidade de importância no cenário econômico europeu. "Veneza não
poderá nunca ser competitiva no plano industrial", diz o prefeito Costa.
"Mas a produção e a exportação do saber são uma chance que não deve ser
desperdiçada." O destino do desativado pólo petroquímico do município,
em Porto Marghera, prova o raciocínio. Reformada, a velha instalação
abriga em seus prédios de aço e granito 20 empresas que trabalham com
tecnologias desenvolvidas em Veneza.
De controle de poluição a técnicas de proteção e recuperação de
mármores, de despoluição da água ao controle de enchentes, a cidade
vende o que aprendeu a fazer ao longo dos séculos. E também aplica esse
conhecimento. Enquanto um controvertido projeto de comportas que
isolariam a laguna de Veneza do mar não sai do papel, a prefeitura toma
medidas para minorar o efeito das enchentes que a cada inverno ameaçam o
patrimônio arquitetônico. Em dezenas de pontos, a altura das margens dos
canais será elevada.
Para essa economia dinâmica que
Veneza planeja, o acalentado projeto de um metrô submarino terá de se tornar realidade.
Imaginado há dez anos, o metrô foi apresentado neste ano como uma oportunidade de
negócio para os investidores europeus. A cidade precisará de cerca de US$ 200 milhões
para construí-lo. De olho em seu futuro, Veneza adotará, em 2003, um novo emblema. Quem
quiser usar o nome da cidade ou qualquer imagem dela para promover ou batizar produtos
terá de usar a marca. E pagar. Veneza planeja tornar-se, de novo, um poderoso império
comercial.
(© Época Online)