
Rosângela Rennó e Beatriz
Milhazes são as artistas plásticas indicadas pelo curador Alfons Hug para representar o
país na 50ª Bienal de Veneza em 2003
FABIO CYPRIANO
FREE-LANCE PARA A FOLHA
Duas artistas plásticas entram em 2003 com a
certeza de que serão assunto durante o ano. Elas são Rosângela Rennó e Beatriz
Milhazes, escolhidas para representar o Brasil na 50ª Bienal de Veneza, que será
inaugurada no dia 14 de junho.
Segundo Alfons Hug, curador da seleção
brasileira por indicação da Fundação Bienal de São Paulo, a escolha ocorreu pois os
trabalhos dessas artistas "se encaixam no tema da bienal, "Sonhos e
Conflitos'".
Assim, a mineira Rennó, 40, com a sua
"Série Vermelha - Militares", que foi exposta por completo na inauguração do
Instituto Tomie Ohtake, em 2001, representa a parcela dos conflitos. Já as pinturas da
carioca Milhazes, 42, atualmente em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de
Janeiro, sinalizam os sonhos.
Como toda categorização, a redução pode se
tornar simplista. "Meu trabalho tem um lado de delírio, de algo surreal, e portanto
de sonho. Mas tem também o conflito de mundos diferentes, com as cores e os materiais que
utilizo", afirma Milhazes.
"A idéia de conflito está presente em
trabalhos anteriores, mas não consigo compartimentalizar. Porém a violência é um tema
presente na "Série Vermelha" e gostei da proposta do Hug", diz Rennó.
Pela segunda vez consecutiva, um curador
estrangeiro define a participação brasileira em Veneza. Em 2001, foi o italiano Germano
Celant, a convite da associação BrasilConnects, quem escolheu Vik Muniz e Ernesto Neto.
Agora, o alemão Hug, curador da 26ª Bienal de São Paulo, fez a escolha.
Para o presidente da Fundação Bienal de São
Paulo, Manoel Pires da Costa, isso não representa um problema: "O Hug tem nossa
confiança e conhece a arte brasileira, por isso a nacionalidade não é importante".
Outra coincidência é que, pela segunda vez, ambas as artistas pertencem à galeria
Fortes Vilaça, fruto, sem dúvida, do trabalho do marchand Marcantônio Vilaça, morto em
1999.
Rennó e Milhazes têm outro ponto em comum
com Muniz e Neto: possuem carreira internacional consolidada. Milhazes acaba de voltar de
Nova York, onde inaugurou, com "Coisa Linda", uma série de livros de artista do
MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, e prepara uma exposição para a galeria Max
Heztler, em Berlim. Já Rennó, que participou há dois anos da bienal sediada na capital
alemã, prepara uma mostra na galeria Lombard Freid, de Nova York, para 2003.
As duas possuem também inserção garantida
no Brasil. A mostra de Milhazes em cartaz no Rio, "Mares do Sul", está em
negociação para ser exposta, em 2003, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, enquanto
Rennó exibe atualmente um novo trabalho, os álbuns do projeto Biblioteca, no Museu de
Arte da Pampulha, em Belo Horizonte. No próximo ano, a artista mineira prepara o
lançamento de três livros, um deles sobre o projeto Biblioteca, e tem uma exposição
programada para julho, com a mesma série que será apresentada em Veneza.
As 15 imagens da "Série Vermelha",
de Rennó, ocuparão as primeiras duas salas do pavilhão brasileiro, em Veneza. A artista
pensa em realizar uma nova foto para a bienal italiana. "Como o pavilhão é
simétrico, acho que seria melhor um número par de obras", diz. Já Milhazes irá
expor oito telas, sendo que três serão preparadas para a mostra, nas outras duas salas
do pavilhão. Para o percurso da mostra, Hug selecionou trechos da "Divina
Comédia", de Dante Alighieri, que estarão escritos na parede.
A associação BrasilConnects, que em 2001
levou a Veneza não só Neto e Muniz, mas Carmem Miranda, santos negros barrocos, Tunga e
Miguel Rio Branco, irá novamente apoiar a representação brasileira. "Definiremos
os papéis no início de janeiro, mas a linha geral será dada pela Fundação
Bienal", diz Pires da Costa.
(© Folha de S. Paulo)
Mostras paralelas também podem exibir arte nacional
FREE-LANCE PARA A FOLHA
Definidas as artistas para a representação
brasileira em Veneza, as atenções agora voltam-se para quem mais será selecionado para
as mostras paralelas da bienal italiana. Na vez passada, Ernesto Neto, que já
representava o Brasil, foi o único selecionado, por Harald Szeeman.
Em 2003, a chance de mais brasileiros é
grande. O curador-geral, Francesco Bonami, definiu a 50ª Bienal de Veneza, cujo tema é
"Sonhos e Conflitos - A Ditadura do Espectador", como a "mostra das
mostras". Para tanto, selecionou uma equipe de assistentes com 11 curadores, vários
com intimidade com a arte brasileira.
O melhor exemplo é a francesa Catherine
David, responsável pela seção "Conflito", que desenvolve um projeto em SP,
baseado no prédio Copan, e foi convidada para curar a mostra "Panorama da Arte
Contemporânea", do Museu de Arte Moderna de São Paulo, em setembro de 2003. Quando
curadora da Documenta de Kassel, em 1997, David levou vários artistas brasileiros à
Alemanha.
Há ainda o argentino Carlos Basualdo, que
prepara a seção "A Estrutura da Sobrevivência". Como curador-assistente da
Documenta de Kassel deste ano, Basualdo foi o responsável pela indicação de Cildo
Meireles e Artur Barrio para a mostra alemã.
Finalmente, o alemão Hans Ulrich Obrist, que
cura a seção "Estação Utopia", é outro com bom trânsito no país.
Oportunidades não faltam.
(© Folha de S. Paulo)
| Milhazes e Rennó vão ser o
Brasil em Veneza |
Daniela Name
Beatriz Milhazes e Rosângela Rennó são as
artistas que vão representar o Brasil na 50 Bienal Internacional de Veneza, que acontece
em junho do ano que vem. Na última Bienal, em 2001, os artistas que apresentaram
trabalhos no pavilhão nacional foram Ernesto Neto e Vik Muniz.
Beatriz, que está com um panorama de sua carreira em cartaz no Centro
Cultural Banco do Brasil, é bastante conhecida na Europa e nos Estados Unidos e acaba de
abrir a coleção de livros de artista do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).
Ex-aluna do Parque Lage, ganhou visibilidade com a Geração 80, mas soube
trilhar um caminho próprio, longe das marcas ligadas ao período, e hoje é apontada como
uma das pintoras que melhor domina o uso da cor em todo o mundo.
Rosângela Rennó também vem trilhando um caminho de reconhecimento, com
exposições no Brasil e no exterior. Com uma grande retrospectiva marcada para o CCBB em
julho de 2003, logo depois da Bienal, a artista é conhecida pelo trabalho singular que
realiza com a fotografia. Rosângela é a fotógrafa que não fotografa, reinterpretando a
história das imagens a partir da recuperação de arquivos de penitenciárias e fábricas
ou álbuns de família.
Curador-geral é o italiano Francesco Bonami
As duas vão participar de uma Bienal cujo tema geral é Sonhos e
conflitos A ditadura do espectador. O curador-geral é o italiano Francesco
Bonami, que imaginou mostras paralelas sob a batuta de Carlos Basualdo, Igor Zabel,
Gabriel Orozco, Gilane Tawardos e Catherine David, entre outros.
CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL Rua Primeiro de Março 66, Centro 3808-2020.
Ter a dom, do meio-dia às 20h. Beatriz Milhazes, Mares do sul: Pinturas. Até
26 de janeiro.
(© Globo On Line)
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