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A tragédia da solidão, por Roberto Rossellini

27/12/2002

George Sanders e Ingrid Bergman: casal em crise à sombra do vulcão

 

 'Viagem na Itália' é um dos clássicos fundadores do cinema moderno

LUIZ CARLOS MERTEN

  Você já ouviu falar e talvez até conheça a trilogia da solidão e da incomunicabilidade de Michelangelo Antonioni, formada por três filmes no começo dos anos 1960: A Aventura, A Noite e O Eclipse. Houve outra trilogia da solidão, anterior e também no cinema italiano. Foi realizada por Roberto Rossellini nos anos 1950. Os três filmes são interpretados por Ingrid Bergman e pertencem ao período da carreira da grande estrela durante o qual ela esteve casada com o mestre do neo-realismo: Stromboli, Terra de Deus, Europa 51 e Viagem na Itália, lançado nos cinemas como Romance na Itália.

   Esses filmes cobrem um período de cinco anos na obra de Rossellini, tendo sido feitos entre 1948 e 53. Ele fez mais três filmes com a Bergman: o episódio de Nós, as Mulheres, o oratório Joana d'Arc na Fogueira, de Paul Claudel e Arthur Honeger, que concebeu como ópera lírica, e O Medo.

   Na época, até pelo escândalo que cercou a união afetiva e artística da dupla - Ingrid era casada, abandonou o marido para viver com Roberto e foi estigmatizada por Hollywood -, esses filmes foram considerados retrocessos na carreira de ambos. O culto à associação de Bergman e Rossellini começou na França, onde os críticos (e futuros diretores) da nouvelle vague veneravam acima de todas as coisas Viagem na Itália. Jean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer e Jacques Rivette viam todos nesse clássico uma das pedras fundadoras da catedral do cinema moderno.

   Há, em Viagem na Itália - lançado em DVD pela Versátil de acordo com o título original, numa edição cheia de extras -, o que eles chamavam de desdramatização do roteiro, que nunca foi o mais importante para Rossellini.

   Ele preferia criar o filme na estrada, com os atores. Um 'work in progress', feito de improvisação e, paradoxalmente, reflexão. Ingrid Bergman chama-se Karin em Stromboli, Irene em Europa 51 e Katherine em Viagem na Itália.

   Katherine é estrangeira. Viaja com o marido, George Sanders. O deslocamento exterior tem seu contraponto no movimento interior dos personagens.

   Katherine termina por estabelecer uma nova relação com o cenário no qual é forçada a inserir-se e que ocorre ser Nápoles e seus entornos. Numa viagem a Pompéia, a cidade destruída pela erupção do Vesúvio, há quase 2 mil anos, ela fecha um ciclo e, diante dos restos daquele casal sufocado pela lava - e unido, de mãos dadas, pela eternidade -, ela toma consciência dos entraves ditados por anos de incompreensão, egoísmo e solidão, que impediam o seu pleno desenvolvimento humano.

   A tragédia da solidão de Antonioni é mais ontológica. Tem raízes profundas na crise existencial e na consciência do próprio desespero que consome os personagens de A Aventura, A Noite e O Eclipse, por mais que o autor insira essas figuras num contexto social. A solidão, nos filmes de Rossellini, é existencial, por certo, mas os vínculos sociais são mais fortes. Há sempre um subtexto, que é a discussão sobre o tecido social que só aparentemente consegue integrar os homens.

   É o grande tema do cinema de Rossellini, um católico de esquerda que usou o cinema como um microscópio para observar as pessoas, analisando o homem como indivíduo e ser social. Um dos artífices do movimento chamado de neo-realismo, evolui de uma trilogia fascista, antes da guerra (Nave Bianca, Un Piloto Ritorna e Uomo della Croce) para outra antifascista, após a guerra (Roma, Cidade Aberta, Paisà e Alemanha, Ano Zero). Veio depois a trilogia da solidão e, mais tarde, ainda, o trabalho revolucionário na televisão. Os caminhos do cinema moderno são muitos. Boa parte deles passa pela obra rosselliniana.

(© O Estado de S. Paulo)

 

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