'Viagem na Itália' é um
dos clássicos fundadores do cinema moderno
LUIZ
CARLOS MERTEN
Você já ouviu falar e talvez até conheça a trilogia da
solidão e da incomunicabilidade de Michelangelo Antonioni, formada por três filmes no
começo dos anos 1960: A Aventura, A Noite e O Eclipse. Houve outra trilogia da solidão,
anterior e também no cinema italiano. Foi realizada por Roberto Rossellini nos anos 1950.
Os três filmes são interpretados por Ingrid Bergman e pertencem ao período da carreira
da grande estrela durante o qual ela esteve casada com o mestre do neo-realismo:
Stromboli, Terra de Deus, Europa 51 e Viagem na Itália, lançado nos cinemas como Romance
na Itália.
Esses filmes cobrem um período de
cinco anos na obra de Rossellini, tendo sido feitos entre 1948 e 53. Ele fez mais três
filmes com a Bergman: o episódio de Nós, as Mulheres, o oratório Joana d'Arc na
Fogueira, de Paul Claudel e Arthur Honeger, que concebeu como ópera lírica, e O Medo.
Na época, até pelo escândalo que
cercou a união afetiva e artística da dupla - Ingrid era casada, abandonou o marido para
viver com Roberto e foi estigmatizada por Hollywood -, esses filmes foram considerados
retrocessos na carreira de ambos. O culto à associação de Bergman e Rossellini começou
na França, onde os críticos (e futuros diretores) da nouvelle vague veneravam acima de
todas as coisas Viagem na Itália. Jean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer e
Jacques Rivette viam todos nesse clássico uma das pedras fundadoras da catedral do cinema
moderno.
Há, em Viagem na Itália - lançado
em DVD pela Versátil de acordo com o título original, numa edição cheia de extras -, o
que eles chamavam de desdramatização do roteiro, que nunca foi o mais importante para
Rossellini.
Ele preferia criar o filme na
estrada, com os atores. Um 'work in progress', feito de improvisação e, paradoxalmente,
reflexão. Ingrid Bergman chama-se Karin em Stromboli, Irene em Europa 51 e Katherine em
Viagem na Itália.
Katherine é estrangeira. Viaja com
o marido, George Sanders. O deslocamento exterior tem seu contraponto no movimento
interior dos personagens.
Katherine termina por estabelecer
uma nova relação com o cenário no qual é forçada a inserir-se e que ocorre ser
Nápoles e seus entornos. Numa viagem a Pompéia, a cidade destruída pela erupção do
Vesúvio, há quase 2 mil anos, ela fecha um ciclo e, diante dos restos daquele casal
sufocado pela lava - e unido, de mãos dadas, pela eternidade -, ela toma consciência dos
entraves ditados por anos de incompreensão, egoísmo e solidão, que impediam o seu pleno
desenvolvimento humano.
A tragédia da solidão de Antonioni
é mais ontológica. Tem raízes profundas na crise existencial e na consciência do
próprio desespero que consome os personagens de A Aventura, A Noite e O Eclipse, por mais
que o autor insira essas figuras num contexto social. A solidão, nos filmes de
Rossellini, é existencial, por certo, mas os vínculos sociais são mais fortes. Há
sempre um subtexto, que é a discussão sobre o tecido social que só aparentemente
consegue integrar os homens.
É o grande tema do cinema de
Rossellini, um católico de esquerda que usou o cinema como um microscópio para observar
as pessoas, analisando o homem como indivíduo e ser social. Um dos artífices do
movimento chamado de neo-realismo, evolui de uma trilogia fascista, antes da guerra (Nave
Bianca, Un Piloto Ritorna e Uomo della Croce) para outra antifascista, após a guerra
(Roma, Cidade Aberta, Paisà e Alemanha, Ano Zero). Veio depois a trilogia da solidão e,
mais tarde, ainda, o trabalho revolucionário na televisão. Os caminhos do cinema moderno
são muitos. Boa parte deles passa pela obra rosselliniana.
(© O Estado de S. Paulo)