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Igreja cogita convocar Concílio Vaticano 3º

27/12/2002

 

 

  

40 ANOS DEPOIS

Apesar de reformas significativas da assembléia anterior, novo pontificado pode discutir temas-chave

PAULO DANIEL FARAH
DA REDAÇÃO

   Quarenta anos após a abertura do Concílio Vaticano 2º, crescem as vozes, dentro e fora da hierarquia católica, em prol da convocação de uma nova assembléia para discutir temas-chave que foram abordados parcialmente ou ignorados por aquela "revolução inconclusa" -como o descrevem autoridades religiosas.

   Embora, nas palavras do papa João Paulo 2º, o Concílio Vaticano 2º seja "uma bússola confiável para nos orientar no século 21" e apesar de suas reformas positivas, a igreja enfrenta crises: queda de vocações e da prática religiosa, questionamentos sobre o papel da mulher no catolicismo, relações estremecidas com a Igreja Ortodoxa, igrejas ocidentais que se esvaziam, dificuldade em transmitir a religião aos jovens (a despeito das Jornadas Mundiais da Juventude promovidas pelo papa e que reuniram milhões).

   O Vaticano ainda enfrenta críticas em relação a temas como a obrigatoriedade do celibato clerical, a interdição das ordenações femininas e a situação dos divorciados que se casam novamente.

   É verdade que mudanças importantes foram bem acolhidas, como a renúncia à pompa litúrgica, a adoção de línguas locais nas cerimônias (em vez do latim ou ao lado dele) e o diálogo com outras denominações cristãs e religiões não-cristãs (judaísmo, hinduísmo, islamismo etc), mas as ausências ou as reformas consideradas brandas demais precisariam de uma nova assembléia, segundo autoridades católicas e grupos reformistas e de direitos humanos como Nós Somos Igreja, Apelo por Ação, Igreja Futura, Igreja da Mulher e Dignidade, entre outros.

   Com os sinais do mal de Parkinson de João Paulo 2º, 82, cada vez mais evidentes e sua saúde em geral se agravando, intensificam-se os debates sobre os desafios do próximo papa e sobre um possível Concílio Vaticano 3º.

   No 40º aniversário do Concílio Vaticano 2º, autoridades católicas cogitam a possibilidade de uma nova convocação -algumas a defenderam abertamente. O cardeal Carlo Maria Martini, quando ainda estava à frente da Arquidiocese de Milão, disse que, se fosse papa, convocaria um novo concílio. Outros cardeais também analisariam a idéia.

   A decisão do papa João 23 de convocar, em 1962, um novo concílio para que ventilasse a Igreja Católica com "novos ares" e para sacudir "o pó imperial acumulado no trono de são Pedro" recordou a importância do instrumento conciliar.

Ecumenismo

   "Não há nada de decisivo a fazer na Igreja Católica enquanto ela não abandonar suas pretensões senhoriais e temporais. É preciso destruir isso tudo. E isso vai ser feito." As palavras de revolta de Yves Congar, um dos principais teólogos do século 20, remontam a 14 de outubro de 1962, três dias após a abertura do concílio presidido por João 23 -morto no decorrer daquela assembléia.

   Congar diz, na obra "Mon Journal du Concile" (meu diário do concílio, recém-publicada na França, após o embargo até o ano 2000 imposto pelo autor), comentando o discurso de Paulo 6º na reabertura do concílio em outubro de 1963, que "ninguém pode duvidar de que a evolução promovida por João 23 e pelo concílio seja irreversível".

   Segundo o sociólogo Joan Estruch i Gibert, diretor do Centro de Investigações em Sociologia da Religião na Universidade Autônoma de Barcelona, "por meio do Concílio Vaticano 2º, a Igreja Católica se incorpora à modernidade e faz as pazes com ela. Representa um passo adiante muito importante no campo ecumênico. A idéia inicial do concílio, para João 23, estava indissociavelmente ligada ao tema da unidade entre os cristãos. O Concílio Vaticano 2º não fracassou e ainda está presente, embora o Vaticano tenha dado passos importantes para congelá-lo em muitos aspectos relevantes". O sonho de uma reunificação cristã também deve integrar a pauta de um futuro concílio.

Divergências

   Os católicos têm opiniões divergentes quando são questionados se as determinações do Concílio Vaticano 2º foram amplamente implementadas e se há necessidade de uma nova assembléia.

   Na opinião do cardeal Roberto Tucci, "no que diz respeito aos direitos humanos e ao ecumenismo, o Concílio Vaticano 2º obteve grandes resultados, mas ainda há um longo caminho a percorrer, sobretudo no que está relacionado à valorização dos leigos e das mulheres dentro da comunidade eclesiástica".

   Para Giovanni Felice Mapelli, responsável pelo Centro de Estudos Teológicos de Milão, o atual papa não parece aprovar a realização de tal concílio, mas o que se espera é que a nova liderança reconheça a necessidade de discutir temas pertinentes.

   "Com João Paulo 2º, a igreja voltou à atmosfera pré-conciliar. O Concílio Vaticano 2º sancionou a separação entre a igreja e o Estado, mas o papa tenta dizer ao governo o que ele deve fazer. As mulheres continuam a ter um papel marginal, e não há aquela colegialidade que nós todos esperávamos. Por exemplo, quando escolheram o sucessor do cardeal Martini em Milão, ninguém pensou em consultar os fiéis", afirma.

   Segundo Mapelli, o Concílio Vaticano 3º provavelmente virá com o próximo papa, "mas as mudanças internas da igreja têm seu ritmo próprio, por vezes considerado lento demais", o que dificulta uma definição precisa.

   Alguns religiosos consideram a convocação de um novo concílio desnecessária porque o Concílio Vaticano 1º (1868-69) proclamou a infalibilidade do papa em questões pertinentes à fé e, portanto, seria supérfluo consultar os bispos sobre temas vitais para a igreja. De qualquer forma, o Concílio Vaticano 3º teria papel semelhante ao de outros concílios, como o de Éfeso, que sancionaram ou rejeitaram temas polêmicos da época. Para aprovar alguns temas, porém, como a ordenação feminina, seria necessário rejeitar outros concílios.

"Fora de questão"

   Para o arcebispo francês Gérard Defois, autor de "Le Second Souffle de Vatican II" (o segundo alento do Concílio Vaticano 2º), "uma boa parte do conteúdo do Vaticano 2º, provavelmente 90% dele, ainda não foi integrada à vida da Igreja Católica. Por isso está fora de questão sonhar com um Vaticano 3º. Primeiro, é preciso executar o que falta e retomar a participação católica na vida litúrgica". Ainda segundo ele, "o problema dos cristãos é assumir sua responsabilidade perante Deus. Quanto a questões médicas e genéticas novas, não estou certo de que o concílio possa abordar isso".

   Para Luigi De Paoli, coordenador do movimento católico Somos Igreja (fundado em 1996 e presente em mais de 15 países) na Itália (Noi Siamo Chiesa), "o concílio não foi implementado pela hierarquia eclesiástica. Com a eleição de João Paulo 2º, o desenvolvimento do concílio foi bloqueado, assim como a participação dos leigos, embora isso se opusesse ao espírito conciliar".
O papel dos leigos na transmissão da mensagem de Cristo e na solução de impasses dentro da igreja deve ser um dos principais temas de um futuro concílio.

   Outro assunto pouco abordado pelo Concílio Vaticano 2º são as questões relativas à vida humana e à sexualidade em geral. Em 1968, Paulo 6º proclamou a encíclica Humanae vitae. Em pleno ano de liberação sexual, o papa prolongou e reafirmou a posição tradicional da igreja. A idéia principal era a "paternidade responsável", ou seja, a imoralidade de lançar uso de métodos contraceptivos artificiais. Os métodos deveriam ser exclusivamente naturais, mas um casal não deveria ter mais filhos do que sua capacidade de educá-los dignamente permitisse.

   Como se nota, são vários os temas a serem abordados numa futura assembléia, e o único consenso entre leigos, teólogos e religiosos é que ainda há muito o que fazer, embora os meios suscitem discordâncias. No século 19, foi organizado o Concílio Vaticano 1º. No século 20, o Concílio Vaticano 2º. A proposta que ganha força é que, no século 21, sob os auspícios do próximo papa, se realize o Concílio Vaticano 3º.

(© Folha de S. Paulo)

Igreja analisa legado da assembléia revolucionária
 

DA REDAÇÃO

   No dia 11 de outubro de 1962, iniciava-se na basílica de São Pedro uma reunião extraordinária de bispos do mundo inteiro. O discurso inaugural do papa João 23 (1958-1963) no Concílio Vaticano 2º, com a participação de cerca de 2.500 padres conciliares, sinalizava a revolução que essa assembléia provocaria a partir de 1962, até o final de 1965: "No exercício diário de nosso ministério pastoral -e para nosso pesar- às vezes temos de escutar aqueles que, tomados pelo ardor, apresentam um julgamento ou discernimento limitado.

   Para esses, o mundo não passa de traição e ruína. Alegam que esta era é muito pior do que as anteriores e prosseguem a arenga como se não tivessem aprendido nada da história... Temos de discordar desses profetas do Juízo Final que estão sempre prevendo uma calamidade, como se o fim do mundo fosse iminente."

   Quando foi eleito papa, em 1958, aos 76 anos, a maioria dos clérigos acreditava que Angelo Giuseppe Roncalli (nome de batismo de João 23) seria uma figura de transição, sem imaginar que ele instigaria um movimento reformista sem precedentes na igreja, em pelo menos quatro séculos, e que se tornaria um dos líderes mais populares de toda a história da Igreja Católica.

Outras línguas

   Aquele concílio ecumênico, cujo efeito ainda não se absorveu por completo, aprovou a utilização de outras línguas além do latim na liturgia católica e permitiu que o celebrante da missa ficasse de frente para os fiéis, além de abrir caminho para uma reconciliação com outras religiões.

   O Concílio Vaticano 2º (1962-1965) foi convocado em um mundo dividido, dominado pela Guerra Fria, pela descolonização e por uma crise de valores, e a maior parte dos padres conciliares compartilhava essas preocupações. Destacaram-se, entre outros, os cardeais Augustin Bea, Leo Jozef Suenens, Joseph Frings e Giovanni Batista Montini (papa Paulo 6º), os teólogos Karl Rahner, Yves Congar e Marie-Dominique Chenu, os bispos Vicente Enrique y Tarancón e Narcís Jubany e o monge beneditino Adalbert Franquesa, especialista em questões litúrgicas.

   Alguns bispos e cardeais, como Alfredo Ottaviani (conhecido pela chamada "intervenção Ottaviani", contra a nova ordenação da missa), opuseram-se ao processo de renovação.
Ao preço de um cisma (o dos tradicionalistas de Marcel Lefebvre), a igreja soube romper com uma concepção fixista de sua tradição e restaurou parcialmente a noção de "povo de Deus", encoberta por um poder piramidal e dogmático em demasia.

   Hostil ao "aggiornamento" -a adaptação da igreja à modernidade-, Lefebvre criticou a "neomodernidade" de Roma, "em ruptura com a tradição da igreja" e fundou um seminário tradicionalista na Suíça.

   "Temos a convicção de que o rito novo da missa expressa uma nova fé, uma fé que não é a nossa, uma fé que não é a católica", disse Lefebvre. A missa não foi o único motivo dessa ruptura. A liberdade religiosa defendida pelo Concílio Vaticano 2º foi considerada por Lefebvre uma forma de colocar no mesmo plano a verdade e o erro. A aproximação ecumênica e inter-religiosa, para ele, só poderia ser feita negando sua própria fé. Lefebvre ordenou padres, apesar da proibição de Roma, e consagrou quatro bispos em 1988, o que lhe valeu uma excomunhão.

   Atualmente, essa comunidade religiosa é formada por aproximadamente 250 padres e por cerca de 100 mil fieis.

O papa da concórdia

   Mesmo antes do Concílio Vaticano 2º, o "papa bom" ("il papa buono") -como Roncalli viria a ser chamado- já buscava a reconciliação dentro e fora da igreja. Por exemplo, utilizava o turco em boa parte da missa em Istambul quando era delegado apostólico para a Turquia (onde ajudou a salvar judeus da morte) e a Grécia. À época, foi "denunciado" ao Vaticano e se defendeu com o argumento de que "o Evangelho não admite monopólios nacionais e não está fossilizado".

   Esse processo de modernização, a ênfase na justiça social e na inserção da igreja no mundo moderno e as atitudes inesperadas de conciliação que adotou lhe valeram um registro especial num "arquivo Roncalli" no Vaticano. Logo após sua eleição como papa, pediu para ver esse arquivo.

   João 23 incentivou a atuação dos leigos, enfrentou a burocracia estéril do Vaticano e permitiu a visão de uma nova ordem de relações, inspirando não apenas católicos mas também ateus como Nikita Kruchov, que disse ao "Pravda" que João 23 prestava "um tributo à razão em seu desejo pela paz" ao intervir na crise dos mísseis de Cuba 40 anos atrás. "Não se trata de temer o julgamento de Deus, no qual, como ateu, não acredito, mas de acolher com alegria o apelo para negociar", disse.

   Atualmente, parece natural que o papado deve ter um alcance internacional, devido à diversidade geográfica dos católicos e às frequentes viagens de João Paulo 2º. Mas, antes de João 23 geralmente os papas se confinavam no Vaticano ou em torno dele.
O papa João 23 morreu em 3 de junho de 1963, e o Concílio Vaticano 2º ainda exerce grande influência nas estruturas da Igreja Católica 40 anos após sua abertura e motiva debates acirrados sobre a revolução que causou.(PDF)

(© Folha de S. Paulo)

 

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