ROMA - O apelo de João Paulo II ao governador do estado americano
de Virgínia, James Gilmor, invocando clemência para Derek Rocco Barnabei, condenado a
morrer na noite de hoje no presídio de Greensville por ter sido julgado assassino de sua
namorada, Sarah Wisnosky, pode ser considerado a última esperança de sucesso da grande
campanha iniciada na Itália há mais de dois meses por movimentos populares, partidos e
líderes políticos de todas as tendências, e até pelo presidente da República, Carlo
Azeglio Ciampi, contra a pena de morte nos EUA.
Ontem, pela terceira vez nos últimos dois meses, no discurso pronunciado em varias
línguas durante sua audiência semanal, o papa deu ainda maior força ao apelo em favor
de Barnabei, americano de 33 anos de origem italiana, que continua a se proclamar vítima
de um complô urdido e executado por policiais da Virgínia, que com o Texas e a Flórida
se distingue como um dos estados mais inflexíveis na aplicação e execução de
sentenças de morte. Desta vez, João Paulo II preferiu não usar os canais diplomáticos
para transmitir seu apelo. Não se limitou a pedir clemência para Barnabei. Pela primeira
vez em seu pontificado, quis rejeitar e condenar a pena de morte como método e
instrumento da justiça dos homens.
Meios - "No espírito de clemência que é próprio do Ano Jubilar, uno
mais uma vez minha voz àquela de quantos pedem que não se tire a vida do jovem Derek
Rocco Barnabei. Desejo além disso que se chegue a renunciar ao recurso da pena capital,
uma vez que o Estado dispõe hoje de outros meios para reprimir eficientemente o crime,
sem negar definitivamente ao réu a possibilidade de se redimir", disse o pontífice.
Sem perda de tempo, minutos após o apelo do papa transmitido em mais de 20 línguas
pela Radio Vaticano para o mundo inteiro, o ministro do Exterior, Lamberto Dini, voltou a
dizer que o governo italiano apóia incondicionalmente o pedido de clemência de João
Paulo II. Citando uma frase do escritor americano Ernest Hemingway ("A morte de um
homem me diminui"), Dini sugeriu pressões de toda a comunidade internacional para
salvar Barnabei da morte: "Acho que se a comunidade internacional se mobiliza diante
dos genocídios, deve fazer o mesmo por um homem só. Todos devemos ser sensíveis diante
da morte de um só individuo; devemos insistir até o último minuto, enquanto a mão do
carrasco não tiver eliminado a última esperança".
União - Esta não foi a primeira nem será a última vez que os italianos põem
de lado divergências, antipatias e tantos antagonismos que os dividem e se unem contra a
pena de morte. Especialmente quando ela é autorizada e praticada em nome da Justiça
americana. "Não se mata dessa maneira nem mesmo um assassino" - concluiu assim,
com inusitada veemência, o breve e agressivo editorial do diretor do telejornal da
RAI-Uno, o de maior audiência no país.
Nas últimas semanas perdeu-se a conta das delegações de parlamentares, de
personalidades da cultura, do teatro e dos esportes que foram aos EUA para transmitir
apelos ao governador da Virgínia ou para visitar Barnabei no corredor da morte. (Araújo
Netto, AJB)