Os maiores nomes da investigação criminal do mundo estarão em São
Paulo nesta semana para participar do 1º Congresso Mundial do Ministério Público,
organizado pela Associação Paulista do Ministério Público.
O congresso pretende fazer uma radiografia da criminalidade contemporânea e aprovar a
Carta de São Paulo, por meio da qual os participantes irão se comprometer a lutar por
acordos internacionais e mudanças na legislação de seus países de modo a fortalecer o
combate à criminalidade.
Os principais temas são o combate ao crime organizado, o avanço das máfias no mundo, o
tráfico internacional de drogas e a lavagem de dinheiro.
Também será discutido um projeto para o Ministério Público do futuro. O congresso
ainda pretende debater as legislações de combate à criminalidade e de controle da
corrupção.
"Traremos promotores de vários países, que tiveram sucesso no combate à
criminalidade, para trocar experiências e permitir que possamos oferecer subsídios para
a melhoria da legislação brasileira", diz José Juarez Mustafá, 52, presidente da
Associação Paulista do Ministério Público.
Palestrantes
De acordo com os organizadores do evento, todos os palestrantes já confirmaram presença. As datas e horários dos painéis ainda podem sofrer mudanças.
O mais famoso dos palestrantes é o juiz espanhol Baltasar Garzón, que pediu a
extradição do ex-ditador chileno Augusto Pinochet à Justiça britânica em 1998.
O pedido de extradição não foi aceito, mas abriu um importante precedente no direito
internacional. Ele falará sobre a jurisdição internacional sobre a violação dos
direitos humanos em governos ditatoriais, tese que desenvolveu para fazer o pedido.
Outro nome mundial é Giancarlo Caselli, que foi promotor de Palermo e procurador-chefe
antimáfia da Itália. O grupo chefiado por ele prendeu grande parte da cúpula da máfia
da Sicília.
Caselli foi um dos responsáveis pelo julgamento do ex-premiê italiano Giulio Andreotti,
acusado de envolvimento com a máfia, que acabou inocentado por falta de provas, após um
processo que durou quatro anos.
Em janeiro de 1997, a polícia italiana divulgou a existência de um plano da máfia da
Sicília para matar Caselli. Seus antecessores, Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, foram
assassinados após agirem contra a organização.
Do governo norte-americano, virão Donnie Marshall, principal homem do DEA (Drug
Enforcement Administration, a agência norte-americana antidrogas), e Thomas J. Pickard,
vice-diretor do FBI (Federal Bureau of Investigation, a polícia federal norte-americana).
O diretor do FBI não vem ao Brasil porque ele não pode sair do país quando o
administrador do DEA está ausente.
Apesar de pouco conhecido no Brasil, o suíço Mark Pieth é um dos maiores especialistas
em legislação de combate à corrupção. Ele costuma ser contratado pelos governos que
pretendem mudar as leis para combater o desvio de dinheiro público e apresenta projetos
para inibir a corrupção. É a primeira vez que vem ao Brasil.
A lista de procuradores-gerais que participarão do evento, como palestrantes ou como
ouvintes, é interminável. Merece destaque a fala de Vucasin Jokanovic, procurador-geral
da Iugoslávia, que nasceu em Kosovo e teve sua casa bombardeada durante a guerra.
Um forte esquema de segurança foi montado para receber os palestrantes. Cerca de 150
policiais brasileiros serão mobilizados.
Inscrições
Somente membros do Ministério Público podem participar do congresso. A taxa de
inscrição custa R$ 289, mas restam poucas vagas, segundo os organizadores.
A abertura está prevista para as 19h de quarta-feira, no auditório do Hotel
Transamérica, em São Paulo, que tem capacidade para 1.200 pessoas.
O presidente Fernando Henrique Cardoso foi convidado, mas não confirmou sua presença. O
encerramento será no sábado. (Roberto Cosso, AF)
"No Brasil, o crime compensa", diz promotor
A idéia de realizar no Brasil o 1º Congresso Mundial do Ministério Público surgiu
da cabeça de uma única pessoa, o promotor de Justiça Edilson Mougenot Bonfim, 37, que
é o presidente do congresso. Ele ficou famoso ao ser responsável pelo processo do
motoboy Francisco de Assis Pereira, o "maníaco do parque".
Bonfim apresentou a idéia a José Juarez Mustafá, presidente da Associação Paulista do
Ministério Público, e recebeu carta branca.
Em entrevista à Folha, ele conta como organizou o congresso, critica a legislação
brasileira de combate à corrupção e propõe o uso do detector de mentiras nos processos
criminais. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.
Folha - De onde surgiu a idéia de organizar esse congresso?
Edilson Bonfim - De uma palavra em desuso: ideal.
Folha - O sr. trará ao Brasil alguns dos maiores nomes de combate ao crime. Como
o sr. conseguiu isso?
Bonfim - Pedi carta branca à Associação Paulista do Ministério Público,
obtive apoio do Ministério das Relações Exteriores, viajei por mais de 20 países e
estabeleci contato pessoal com as maiores autoridades do Ministério Público e da
polícia mundiais.
Folha - O congresso vê a questão sob a perspectiva do governo?
Bonfim - De jeito nenhum. Não é um congresso chapa branca. Os promotores de
Justiça e os procuradores da República são órgãos do Estado, mas não do governo.
Folha - Por que a corrupção foi inserida no programa?
Bonfim - O Brasil é um dos países mais corruptos do mundo. O brasileiro não tem
razão alguma para ser honesto. Ele não vê o criminoso de colarinho branco ser
encarcerado, vê uma legislação fraca, que privilegia o megadelinquente. O crime só
não compensa quando existe uma punição adequada. No Brasil, para alguns tipos de crime,
o crime compensa.
Folha - O sr. considera inadequada a atual legislação brasileira?
Bonfim - É preciso reaver o dinheiro surrupiado dos cofres públicos, mas também
é necessário colocar os criminosos de colarinho branco na cadeia. A prisão tem um
caráter claramente intimidativo e retributivo. É preciso mostrar ao criminoso de
colarinho branco que o crime não compensa. Hoje, eles não têm medo da cadeia porque a
legislação é muito tímida. Sabem que o risco do cárcere é insignificante.
Folha - No congresso, o sr. vai defender mudanças legislativas?
Bonfim - Defendo o uso do detector de mentiras. É a última defesa de que um
inocente pode se valer. Suponhamos um flagrante forjado. Pessoas colocam drogas no carro
de um inocente e o entorpecente é encontrado pela polícia após uma denúncia anônima.
O inocente será preso em flagrante. Esse homem vai bradar por sua inocência, mas poderá
ser denunciado e condenado. Ninguém teria visto a colocação da droga, mas teriam visto
a sua apreensão. O último recurso dele seria pedir o uso do detector de mentiras para
impedir uma condenação injusta. Hoje, é proibido.
| Veja quem são os convidados 1
de setembro, quinta-feira
Painel 1, às 9h30
Donnie Marshall (EUA), administrador do DEA
Jorge Madrazo Cuéllar (México), procurador-geral da República
Walter Maierovitch (Brasil), diretor do Instituto Giovanni Falcone
Yves Charpenel (Franca), procurador de Justiça e diretor de Assuntos Criminais e
Clemência
Painel 2, às 14h30
Thomas J. Pickard (EUA), vice-diretor do FBI
Geraldo Brindeiro (Brasil), procurador-geral da República
Luis Moreno Ocampo (Argentina), presidente da Transparência Internacional para América
Latina e Caribe e ex-procurador de Justiça
Painel 3, às 16h45
Jean François Burgelin (França), procurador-geral junto à Corte de Cassação
José Narciso da Cunha Rodrigues (Portugal), procurador-geral
Francisco Resek (Brasil), juiz da Corte Internacional de Justiça (órgão da ONU em Haia,
Holanda)
22 de setembro, sexta-feira
Painel 1, sala 1, às 9h30
Alexandre Benmacklouf (França), procurador-geral junto à Corte de Apelação
Antonio Vercher Nogueira (Espanha), promotor do Tribunal Supremo Espanhol
Javier Alberto Zaragoza Aguado (Espanha), procurador da Procuradoria Especial contra a
Droga
Painel 2, sala 1, às 11h15
Peter Morré (Alemanha), procurador federal junto à Corte Suprema
Nigel Sweeney (Inglaterra), advogado
Javier Elechiguerra Naranjo (Venezuela), procurador-geral
Lord Williams of Mostyn (Inglaterra), procurador-geral
Painel 1, sala 2, às 9h30
Félix Fischer (Brasil), ministro do Superior Tribunal de Justiça
Enrique Bacigalupo (Espanha), professor de direito penal e ministro do Tribunal Supremo
Espanhol
Gaetän Di Marino (França), diretor do Departamento de Direito Penal e de Criminologia
Comparada da Universidade Aix-en-Provence
Painel 2, sala 2, às 11h15
Roderick Munday (Inglaterra), professor de direito e processo penal em Cambridge
(Peterhouse)
Jacques Borricand (França), diretor do Instituto de Ciências Penais
Enzo Zappallá, professor de Direito e Processo Penal
Jean Pradel (França), professor de direito penal e presidente da Associação Francesa de
Direito Penal
Caren Lee Harp (EUA), advogada sênior do Instituto Americano de Pesquisa para Promotores
Mesa redonda, às 15h
23 de setembro, sábado
Painel 1, às 9h30
Mark Pieth (Suíça), professor de direito penal da Universidade de Basiléia e presidente
do grupo de trabalho contra corrupção e suborno da OCDE (Organização das Nações de
Cooperação e Desenvolvimento Econômico)
Carlos Jimenez Villarejo (Espanha), promotor-chefe da Promotoria Anticorrupção
Damásio E. de Jesus (Brasil), professor de direito penal
Hélène Magliano (França), procuradora-geral de Dijon
Giancarlo Caselli (Itália), ex-procurador e atual diretor do Departamento Penitenciário
Painel 2, às 14h30
Blanca Nélida Colán Maguiño (Peru), procuradora-geral
Vucasin Jokanovic (Iugoslávia), procurador-geral
Baltasar Garzón (Espanha), juiz de instrução da Audiência Nacional da Espanha
Carl Alexander (EUA), diretor do gabinete de treinamento e desenvolvimento de promotoria |