ROMA - No momento, o único candidato que poderia impedir o cavaliere
Silvio Berlusconi, vigésimo quinto homem mais rico do mundo, com uma fortuna pessoal
estimada em mais US$ 10 bilhões, de chefiar o governo italiano a partir do próximo ano,
é Francesco Rutelli, romano boa-pinta de 46 anos de idade, exemplar típico do europeu de
classe média, duas vezes casado com a mesma jornalista bonita e competente, Barbara
Palombelli. A primeira vez, só no civil, há quase 20 anos; a segunda, três anos atrás,
no religioso, na Capela do Palácio do Campidoglio, de onde há sete anos vem governando
Roma, cidade considerada tão ingovernável como a Itália.
A indicação unânime do nome de Rutelli fornecida pelas sondagens sobre as
tendências dos eleitores parece proibir a escolha de outro candidato para enfrentar
Berlusconi. No próximo mês de outubro, se quiserem evitar uma derrota humilhante e
manter-se no poder conquistado em 1996, os sete partidos da coalizão de centro-esquerda
deverão ignorar até mesmo a candidatura do atual primeiro-ministro, Giuliano Amato,
reconhecido como político e administrador experiente e de maior prestígio internacional.
Sem a competente administração que fez desde o dia em que tomou posse como o primeiro
prefeito eleito na história de Roma, Francesco Rutelli não teria a popularidade e o
prestígio que hoje desfruta. Não teria se afirmado como o prefeito que abriu e fechou em
tempo mais de 1700 canteiros de obras úteis e indispensáveis não só para este ano para
as comemorações do Jubileu.
Ex-radical - Mais provável é que Rutelli continuasse a ser lembrado apenas
como o jovem que nos anos 70 se fez notar como um dos mais ativos e ousados militantes do
Partido Radical. Aquele garoto magro, muito branco, que participava de greves de fome,
deitava-se à frente dos carros da polícia e se deixava prender para dar maior
repercussão às campanhas contra as usinas nucleares, pela retirada dos mísseis
americanos, a favor do divórcio e do aborto.
Com falsa modéstia, na entrevista que concedeu ao JORNAL DO BRASIL, Francesco
Rutelli repartiu o mérito de ter governado a caótica, indisciplinada, cética e
desinteressada capital italiana com os cidadãos romanos. "Efetivamente foram eles
(os cidadãos) que deram um governo a Roma. Nos últimos oito anos, a eleição direta dos
prefeitos foi a novidade positiva que se registrou na Itália. Foi um notável fator de
estabilidade."
À tentativa de fazer um balanço dos seus sete anos de administrador de uma cidade que
parecia irremediavelmente "desencantada", por culpa das ações e omissões dos
próprios romanos, Francesco Rutelli recorda que o mais difícil enfrentou nos primeiros
anos, quando procurou estabelecer algumas regras essenciais. "Por exemplo: antes de
ser eleito sindaco (prefeito), todos os estacionamentos para veículos em Roma eram
gratuitos e irregulares. Ainda não estamos no paraíso, mas já podemos dizer que criamos
60 mil vagas para o estacionamento de veículos. Todas pagas. No início, tivemos que
enfrentar uma guerrilha permanente. Tivemos que lutar para defender cada faixa azul que se
pintava para indicar e delimitar uma zona de estacionamento. Agora, estamos recebendo
pedidos para pintar aquelas faixas azuis até em muitos bairros residenciais. Eles
começam a sentir a necessidade de ordenar melhor as ruas em que trabalham ou
caminham."
Plano - Orgulho que o administrador Rutelli não esconde - ao contrário, gosta
de exibir - é pelo esforço feito para combater, pelo menos reduzindo-o, o caos
urbanístico que por muitos séculos foi uma característica de Roma. "Em sete anos,
autorizei 250 demolições de casas e edifícios construídos abusiva e ilegalmente",
diz o prefeito. "E agora nossa administração acabou o trabalho de preparação de
um novo plano regulador, prometido e esperado há mais de 40 anos. Plano que permitirá a
reconstrução da periferia e a montagem de uma rede ecológica, com a melhor
distribuição do verde." (Araújo Netto, AJB)
De
líder local a nacional
ROMA - Francesco Rutelli, colecionador de livros sobre Roma, jogador medíocre
de tênis, admirador de Chico Buarque, torcedor fanático do Lazio, pode ficar na
história da Itália não só como o primeiro prefeito eleito de Roma, mas como o primeiro
político com experiência de prefeito a governar seu país. "Eu sou um político,
mas um político que é mais um administrador. Governo uma cidade que tem um orçamento de
cerca US$ 6 bilhões e uma máquina organizativa complexa."
Dizendo-se convencido de que a coalizão de centro-esquerda, a oito meses das próximas
eleições políticas nacionais, ainda tem condições de derrotar a aliança das
direitas, Rutelli explica melhor essa convicção: "Tanto Giuliano Amato como eu
temos todas as possibilidades de obter uma vitória expressiva para o centro-esquerda.
Ultimamente, as sondagens eleitorais vem indicando uma redução da vantagem atribuída à
candidatura de Berlusconi. O fato é que a oito meses das eleições, e essa é uma
lição das corridas de fundo que se aplica às disputas eleitorais, Berlusconi, que
partiu na frente e em ritmo muito acelerado, como se disputasse uma competição de
velocidade, pode chegar sem fôlego à meta final."
Impostos - No excessivo número de impostos e taxas que os italianos continuam a
pagar, Rutelli vê outra questão delicada, da máxima importância para uma recuperação
da centro-esquerda nas regiões industrializadas e ricas do Norte e do Nordeste. "A
pressão fiscal é importante, mas não é muito mais alta do que na França, Alemanha e
na Escandinávia. O ponto verdadeiramente dramático na Itália é que nós temos muitas
taxas a pagar - e não só como dimensão, mas como número. Cada pessoa que exerce uma
pequena atividade industrial na Itália, a cada dez dias deve preencher um formulário,
entrar em filas enormes para pagar mais uma taxa. Talvez nem seja o caso de chamar isso de
pressão fiscal, mas de um excesso de pressão burocrática."
Outra preocupação do candidato a candidato Francesco Rutelli é com a unidade da
coalizão de centro-esquerda: "A grande diferença entre nós e a direita é a de que
eles têm um patrão indiscutível, dono de tudo: Silvio Berlusconi. Enquanto na
centro-esquerda temos uma grande pluralidade. Nosso dever é o de chegar a uma síntese
eficaz, para evitar que essa pluralidade seja percebida como anarquia."
A presença de Umberto Bossi na coalizão de direita, líder da Liga Norte, partido
separatista e racista que há menos de um ano chamava Berlusconi de sócio da máfia, na
opinião de Rutelli, pode acabar servindo à centro-esquerda. "Nós não queremos
esquecer o que foi dito e até feito por Bossi. Não queremos esquecer que as
administrações da Liga em várias cidades italianas fizeram regulamentos para impedir a
admissão de professores meridionais, de italianos do Sul da Itália." (A.N.) |
O inimigo dos carros
ROMA - Autor de um plano regulador que começará a ser posto em prática com a
abertura de uma concorrência para quilômetros de transporte público, Rutelli não
conseguiu cumprir sua promessa solene de fechar o centro histórico de Roma ao tráfego de
automóveis, motos e caminhões. Mas tem uma explicação razoável: "Penso que essa
promessa não pôde ser mantida porque o centro histórico de Roma é o maior do mundo:
tem 1300 hectares. Mais do que um centro histórico, é uma cidade, onde vivem 150 mil
pessoas e onde trabalham um milhão de pessoas. Por isso é evidente que providências
como a da total proibição do tráfego de veículos a motor, só podem ser tomadas
gradualmente."
"Nós criamos muitas áreas abertas só para a circulação de pedestres",
lembra o prefeito. "Limitamos o tráfego, já fizemos circular uma boa frota de
ônibus elétricos, dentro de poucos dias mais cem desses ônibus elétricos estarão a
serviço da população que vive, trabalha ou simplesmente passeia pelo centro histórico
de Roma. Portanto, reafirmo que nosso objetivo estratégico é certamente um centro sem
automóveis - mas hoje sabemos também que é um objetivo que se realiza gradualmente,
quando tivermos uma rede melhor de metrô, maior circulação de bondes e uma conversão
do transporte para a eletricidade."
Seu trabalho de administrador foi premiado com a reeleição em 1997 (em que os 51% da
primeira eleição em 1993 se transformaram em 61%). Rutelli comemora: "Podemos dizer
que Roma hoje é uma cidade mais civilizada e menos escandalosa. Administrada com maior
honestidade. Onde a poluição foi drasticamente abatida. Com muito menos monóxido de
carbono. Agora, estamos enfrentando a batalha contra a poeira, as partículas que fazem
mal aos pulmões." (A.N.)