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Um prefeito conquista a Itália

17/09/2000

 

 

ROMA - No momento, o único candidato que poderia impedir o cavaliere Silvio Berlusconi, vigésimo quinto homem mais rico do mundo, com uma fortuna pessoal estimada em mais US$ 10 bilhões, de chefiar o governo italiano a partir do próximo ano, é Francesco Rutelli, romano boa-pinta de 46 anos de idade, exemplar típico do europeu de classe média, duas vezes casado com a mesma jornalista bonita e competente, Barbara Palombelli. A primeira vez, só no civil, há quase 20 anos; a segunda, três anos atrás, no religioso, na Capela do Palácio do Campidoglio, de onde há sete anos vem governando Roma, cidade considerada tão ingovernável como a Itália.

A indicação unânime do nome de Rutelli fornecida pelas sondagens sobre as tendências dos eleitores parece proibir a escolha de outro candidato para enfrentar Berlusconi. No próximo mês de outubro, se quiserem evitar uma derrota humilhante e manter-se no poder conquistado em 1996, os sete partidos da coalizão de centro-esquerda deverão ignorar até mesmo a candidatura do atual primeiro-ministro, Giuliano Amato, reconhecido como político e administrador experiente e de maior prestígio internacional.

Sem a competente administração que fez desde o dia em que tomou posse como o primeiro prefeito eleito na história de Roma, Francesco Rutelli não teria a popularidade e o prestígio que hoje desfruta. Não teria se afirmado como o prefeito que abriu e fechou em tempo mais de 1700 canteiros de obras úteis e indispensáveis não só para este ano para as comemorações do Jubileu.

Ex-radical - Mais provável é que Rutelli continuasse a ser lembrado apenas como o jovem que nos anos 70 se fez notar como um dos mais ativos e ousados militantes do Partido Radical. Aquele garoto magro, muito branco, que participava de greves de fome, deitava-se à frente dos carros da polícia e se deixava prender para dar maior repercussão às campanhas contra as usinas nucleares, pela retirada dos mísseis americanos, a favor do divórcio e do aborto.

Com falsa modéstia, na entrevista que concedeu ao JORNAL DO BRASIL, Francesco Rutelli repartiu o mérito de ter governado a caótica, indisciplinada, cética e desinteressada capital italiana com os cidadãos romanos. "Efetivamente foram eles (os cidadãos) que deram um governo a Roma. Nos últimos oito anos, a eleição direta dos prefeitos foi a novidade positiva que se registrou na Itália. Foi um notável fator de estabilidade."

À tentativa de fazer um balanço dos seus sete anos de administrador de uma cidade que parecia irremediavelmente "desencantada", por culpa das ações e omissões dos próprios romanos, Francesco Rutelli recorda que o mais difícil enfrentou nos primeiros anos, quando procurou estabelecer algumas regras essenciais. "Por exemplo: antes de ser eleito sindaco (prefeito), todos os estacionamentos para veículos em Roma eram gratuitos e irregulares. Ainda não estamos no paraíso, mas já podemos dizer que criamos 60 mil vagas para o estacionamento de veículos. Todas pagas. No início, tivemos que enfrentar uma guerrilha permanente. Tivemos que lutar para defender cada faixa azul que se pintava para indicar e delimitar uma zona de estacionamento. Agora, estamos recebendo pedidos para pintar aquelas faixas azuis até em muitos bairros residenciais. Eles começam a sentir a necessidade de ordenar melhor as ruas em que trabalham ou caminham."

Plano - Orgulho que o administrador Rutelli não esconde - ao contrário, gosta de exibir - é pelo esforço feito para combater, pelo menos reduzindo-o, o caos urbanístico que por muitos séculos foi uma característica de Roma. "Em sete anos, autorizei 250 demolições de casas e edifícios construídos abusiva e ilegalmente", diz o prefeito. "E agora nossa administração acabou o trabalho de preparação de um novo plano regulador, prometido e esperado há mais de 40 anos. Plano que permitirá a reconstrução da periferia e a montagem de uma rede ecológica, com a melhor distribuição do verde." (Araújo Netto, AJB)

De líder local a nacional

ROMA - Francesco Rutelli, colecionador de livros sobre Roma, jogador medíocre de tênis, admirador de Chico Buarque, torcedor fanático do Lazio, pode ficar na história da Itália não só como o primeiro prefeito eleito de Roma, mas como o primeiro político com experiência de prefeito a governar seu país. "Eu sou um político, mas um político que é mais um administrador. Governo uma cidade que tem um orçamento de cerca US$ 6 bilhões e uma máquina organizativa complexa."

Dizendo-se convencido de que a coalizão de centro-esquerda, a oito meses das próximas eleições políticas nacionais, ainda tem condições de derrotar a aliança das direitas, Rutelli explica melhor essa convicção: "Tanto Giuliano Amato como eu temos todas as possibilidades de obter uma vitória expressiva para o centro-esquerda. Ultimamente, as sondagens eleitorais vem indicando uma redução da vantagem atribuída à candidatura de Berlusconi. O fato é que a oito meses das eleições, e essa é uma lição das corridas de fundo que se aplica às disputas eleitorais, Berlusconi, que partiu na frente e em ritmo muito acelerado, como se disputasse uma competição de velocidade, pode chegar sem fôlego à meta final."

Impostos - No excessivo número de impostos e taxas que os italianos continuam a pagar, Rutelli vê outra questão delicada, da máxima importância para uma recuperação da centro-esquerda nas regiões industrializadas e ricas do Norte e do Nordeste. "A pressão fiscal é importante, mas não é muito mais alta do que na França, Alemanha e na Escandinávia. O ponto verdadeiramente dramático na Itália é que nós temos muitas taxas a pagar - e não só como dimensão, mas como número. Cada pessoa que exerce uma pequena atividade industrial na Itália, a cada dez dias deve preencher um formulário, entrar em filas enormes para pagar mais uma taxa. Talvez nem seja o caso de chamar isso de pressão fiscal, mas de um excesso de pressão burocrática."

Outra preocupação do candidato a candidato Francesco Rutelli é com a unidade da coalizão de centro-esquerda: "A grande diferença entre nós e a direita é a de que eles têm um patrão indiscutível, dono de tudo: Silvio Berlusconi. Enquanto na centro-esquerda temos uma grande pluralidade. Nosso dever é o de chegar a uma síntese eficaz, para evitar que essa pluralidade seja percebida como anarquia."

A presença de Umberto Bossi na coalizão de direita, líder da Liga Norte, partido separatista e racista que há menos de um ano chamava Berlusconi de sócio da máfia, na opinião de Rutelli, pode acabar servindo à centro-esquerda. "Nós não queremos esquecer o que foi dito e até feito por Bossi. Não queremos esquecer que as administrações da Liga em várias cidades italianas fizeram regulamentos para impedir a admissão de professores meridionais, de italianos do Sul da Itália." (A.N.)

O inimigo dos carros

ROMA - Autor de um plano regulador que começará a ser posto em prática com a abertura de uma concorrência para quilômetros de transporte público, Rutelli não conseguiu cumprir sua promessa solene de fechar o centro histórico de Roma ao tráfego de automóveis, motos e caminhões. Mas tem uma explicação razoável: "Penso que essa promessa não pôde ser mantida porque o centro histórico de Roma é o maior do mundo: tem 1300 hectares. Mais do que um centro histórico, é uma cidade, onde vivem 150 mil pessoas e onde trabalham um milhão de pessoas. Por isso é evidente que providências como a da total proibição do tráfego de veículos a motor, só podem ser tomadas gradualmente."

"Nós criamos muitas áreas abertas só para a circulação de pedestres", lembra o prefeito. "Limitamos o tráfego, já fizemos circular uma boa frota de ônibus elétricos, dentro de poucos dias mais cem desses ônibus elétricos estarão a serviço da população que vive, trabalha ou simplesmente passeia pelo centro histórico de Roma. Portanto, reafirmo que nosso objetivo estratégico é certamente um centro sem automóveis - mas hoje sabemos também que é um objetivo que se realiza gradualmente, quando tivermos uma rede melhor de metrô, maior circulação de bondes e uma conversão do transporte para a eletricidade."

Seu trabalho de administrador foi premiado com a reeleição em 1997 (em que os 51% da primeira eleição em 1993 se transformaram em 61%). Rutelli comemora: "Podemos dizer que Roma hoje é uma cidade mais civilizada e menos escandalosa. Administrada com maior honestidade. Onde a poluição foi drasticamente abatida. Com muito menos monóxido de carbono. Agora, estamos enfrentando a batalha contra a poeira, as partículas que fazem mal aos pulmões." (A.N.)


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