O espetáculo estreou há três anos
e transformou-se em sucesso de público e de crítica. Recebeu os prêmios mais
importantes da Itália - o Ubu e o da Crítica - pela "pesquisa conduzida no limite
entre a arte e a vida". O jornal Le Monde acentuou o interesse do diretor Delbono em
imprimir nesse espetáculo muitas referências artísticas, que vão de Fellini a Beckett.
"Mas para o texto, o diretor prefere mesmo os poemas de um verdadeiro clochard",
escreveu o jornalista do diário francês.
Clochard é um termo francês que significa "vagabundo",
popularizado a partir da peça mais famosa de Beckett, Esperando Godot. Os personagens
mendigos de Delbono se constróem em torno de poemas e de músicas. Os poemas mais
marcantes, lidos pelos clochards, são os deixados como herança na mala de Bernardo
Quarantta, um velho mendigo de Gênova.
Narrativa tradicional
"Desde o início, construímos nossos espetáculos sem seguir uma
lógica narrativa tradicional, mas colocando vários elementos: a música, a poesia, a
imagem, a cor, o ritmo etc.", explica o diretor. "Esta foi a pesquisa que nos
conduziu por vários anos na linguagem teatral."
Delbono é conhecido pela capacidade de colher uma energia explosiva
de atores não profissionais e jogados à margem da sociedade. "Dos diamantes, nada
pode nascer; mas da terra nascem as flores", diz-se no espetáculo, que guarda
semelhanças com o circo; bem entendido, um circo sem lona e sem truques.
Barboni também é um espetáculo musical. O sócio de Delbono na
companhia, Pepe Robledo, emite de seu teclado sons incidentais e músicas. Os atores - num
total de 12 - se utilizam do microfone, onde são lidas as poesias. Sobre o palco,
acontecem ainda danças, mini-récitas e números ingênuos tirados da rua. A atmosfera é
felliniana: cada um se expressa como sabe e pode, expondo, ao lado das condições
dolorosas da própria vida, a felicidade de ter algo a comunicar.
Bobó
Um dos destaques da companhia é o ator Bobó, de 61 anos. Ele é
surdo-mudo e sofre de microcefalia. Depois de passar 40 anos internado no manicômio de
Aversa, está atualmente sob os cuidados de Delbono e Robledo. Bobó não fala, emite
grunhidos no lugar de palavras. Mas estabelece com Pippo Delbono um intenso laço
dramático. Deixa-se conduzir pelo palco, guiado pela mão de Delbono; depois simula uma
brincadeira com uma bola inexistente e dança no tempo da música, mesmo sem ouvi-la. De
repente, transforma-se num Charlot renascido. Também é um dos clochards de Esperando
Godot, quando simula com gestos e movimentos adequados as falas da peça narradas por um
colega ao microfone.
"O importante é a idéia de um espetáculo como uma viagem, um
ritual que se constrói com um público", resume Delbono.
Pippo Delbono e o argentino Pepe Robledo (procedente do Livre Teatro
Livre, grupo que contestava a ditadura militar na Argentina nos anos 70) se conheceram em
1983, na Dinamarca, dentro do grupo Farfa, dirigido por uma das atrizes do Teatro de Odin.
Dois anos depois, montaram a peça Il Tempo degli Assassini. Viajaram com o espetáculo
pela Europa e América do Sul. Em 87, no Festival de Santarcangelo, na Itália, a peça
foi vista por Pina Bausch, que convidou Delbono a participar da criação do espetáculo
Ahnen.
Levam, ainda, a assinatura da companhia os espetáculos Morire di Musica,
Il Muro, Enrico V (criado com atores locais de cada cidade onde se apresentaram), La
Rabbia (dedicado aos 20 anos de morte de Pasolini, em 96), Itaca (reunindo 60 atores e
operários do Canteiro Naval de Pietra Ligure) e Guerra. Seu espetáculo mais recente é
Esodo, de que, além dos atores da companhia, participam extracomunitários, como são
chamadas as pessoas que não pertencem à Comunidade Européia. (Marici Salomão, AE)