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Teatro dos oprimidos italiano chega ao Brasil

19/09/2000

Pipo Delbono

 

Talvez nenhum outro grupo no mundo siga tão à risca o velho ditado de que a arte imita a vida quanto a companhia italiana Pippo Delbono (com 15 anos de existência). No caso da companhia, o gasto ditado poderia até mudar de verbo: a arte é a vida. No premiado espetáculo Barboni, criado em 1997, e que chega ao Brasil para duas únicas apresentações no Sesc-Anchieta, intérpretes e personagens são uma coisa só. Foram descolados (ou deslocados) da dura vida das ruas, dos manicômios e hospitais para ganhar o palco, onde a maioria "apenas" mostra-se verdadeiramente como é. 

"Em Barboni, conto o início de um período de luta e de dor da minha própria vida", explica o diretor do grupo, Pippo Delbono, que se comunicou com a reportagem do Estado por e-mail. "Este é o início da viagem do espetáculo, através do mundo do teatro, da música, do circo, do cabaré. O público é conduzido por esses momentos diversos."

   O espetáculo estreou há três anos e transformou-se em sucesso de público e de crítica. Recebeu os prêmios mais importantes da Itália - o Ubu e o da Crítica - pela "pesquisa conduzida no limite entre a arte e a vida". O jornal Le Monde acentuou o interesse do diretor Delbono em imprimir nesse espetáculo muitas referências artísticas, que vão de Fellini a Beckett. "Mas para o texto, o diretor prefere mesmo os poemas de um verdadeiro clochard", escreveu o jornalista do diário francês.

    Clochard é um termo francês que significa "vagabundo", popularizado a partir da peça mais famosa de Beckett, Esperando Godot. Os personagens mendigos de Delbono se constróem em torno de poemas e de músicas. Os poemas mais marcantes, lidos pelos clochards, são os deixados como herança na mala de Bernardo Quarantta, um velho mendigo de Gênova.

Narrativa tradicional


   "Desde o início, construímos nossos espetáculos sem seguir uma lógica narrativa tradicional, mas colocando vários elementos: a música, a poesia, a imagem, a cor, o ritmo etc.", explica o diretor. "Esta foi a pesquisa que nos conduziu por vários anos na linguagem teatral."

    Delbono é conhecido pela capacidade de colher uma energia explosiva de atores não profissionais e jogados à margem da sociedade. "Dos diamantes, nada pode nascer; mas da terra nascem as flores", diz-se no espetáculo, que guarda semelhanças com o circo; bem entendido, um circo sem lona e sem truques.

    Barboni também é um espetáculo musical. O sócio de Delbono na companhia, Pepe Robledo, emite de seu teclado sons incidentais e músicas. Os atores - num total de 12 - se utilizam do microfone, onde são lidas as poesias. Sobre o palco, acontecem ainda danças, mini-récitas e números ingênuos tirados da rua. A atmosfera é felliniana: cada um se expressa como sabe e pode, expondo, ao lado das condições dolorosas da própria vida, a felicidade de ter algo a comunicar.

Bobó


    Um dos destaques da companhia é o ator Bobó, de 61 anos. Ele é surdo-mudo e sofre de microcefalia. Depois de passar 40 anos internado no manicômio de Aversa, está atualmente sob os cuidados de Delbono e Robledo. Bobó não fala, emite grunhidos no lugar de palavras. Mas estabelece com Pippo Delbono um intenso laço dramático. Deixa-se conduzir pelo palco, guiado pela mão de Delbono; depois simula uma brincadeira com uma bola inexistente e dança no tempo da música, mesmo sem ouvi-la. De repente, transforma-se num Charlot renascido. Também é um dos clochards de Esperando Godot, quando simula com gestos e movimentos adequados as falas da peça narradas por um colega ao microfone.

   "O importante é a idéia de um espetáculo como uma viagem, um ritual que se constrói com um público", resume Delbono.

   Pippo Delbono e o argentino Pepe Robledo (procedente do Livre Teatro Livre, grupo que contestava a ditadura militar na Argentina nos anos 70) se conheceram em 1983, na Dinamarca, dentro do grupo Farfa, dirigido por uma das atrizes do Teatro de Odin. Dois anos depois, montaram a peça Il Tempo degli Assassini. Viajaram com o espetáculo pela Europa e América do Sul. Em 87, no Festival de Santarcangelo, na Itália, a peça foi vista por Pina Bausch, que convidou Delbono a participar da criação do espetáculo Ahnen.

   Levam, ainda, a assinatura da companhia os espetáculos Morire di Musica, Il Muro, Enrico V (criado com atores locais de cada cidade onde se apresentaram), La Rabbia (dedicado aos 20 anos de morte de Pasolini, em 96), Itaca (reunindo 60 atores e operários do Canteiro Naval de Pietra Ligure) e Guerra. Seu espetáculo mais recente é Esodo, de que, além dos atores da companhia, participam extracomunitários, como são chamadas as pessoas que não pertencem à Comunidade Européia. (Marici Salomão, AE)

Serviço
Barboni. Concepção e direção Pippo Delbono. Com a Cia. Pippo Delbono. Terça e quarta, às 21 horas. R$ 20,00. Duração: 60 minutos. Teatro Sesc Anchieta. Rua Doutor Vila Nova, 245, tel. 256-2281


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