Considerado um dos maiores nomes da arte
brasileira dos últimos 40 anos, o artista inaugura amanhã em Salvador a exposição `O
País Inventado', dando inicio a um ciclo de mostras itinerantes; em seguida será a vez
de curitibanos, cariocas e paulistanos conhecerem melhor sua eclética produção
É difícil falar sobre a
arte brasileira dos últimos 40 anos sem mencionar Antonio Dias. E, no
entanto, foram raras as oportunidades de ver seu trabalho de perto nesse
período. Um ciclo itinerante de exposições, que terá início amanhã com a
inauguração da mostra O País Inventado no Museu de Arte Moderna (MAM) de
Salvador, promete suprir essa lacuna e apresentar ao público de algumas
das principais capitais do País trabalhos emblemáticos desse artista ao
mesmo tempo eclético e rigoroso.
A exposição baiana reunirá 28 obras realizadas entre 1968 e 1996,
traçando uma espécie de panorama amplo de sua produção. Durante a turnê, idealizada
por Mercedes Viegas e integralmente patrocinada pela Petrobrás, outras obras serão
acrescentadas já que em Curitiba, São Paulo e no Rio de Janeiro os espaços a serem
ocupados vão ser progressivamente maiores. O catálogo da exposição também deverá
engordar com o tempo, ganhando a forma de um livro, que será lançado com a inauguração
da mostra no MAM paulistano, em 8 de fevereiro. Um livro e um CD-ROM sobre a obra de Dias
também vão ser lançados na ocasião.
O artista nem gosta de se referir a essas exposições como
retrospectivas. "É uma panorâmica, uma antologia num arco determinado", diz
ele. "Essas iniciativas ocorreram à minha revelia e eu mesmo estou me surpreendendo
com o resultado", conta Dias, encantado com a possiblidade de rever obras que muitas
vezes ficaram encaixotadas durante 20 anos.
Por falta de espaço em Salvador, as obras do início da carreira do
artista ficaram de fora nessa primeira edição. Fortemente marcadas pela figura (e pelo
universo dos quadrinhos que tanto o atraia) e por um discurso de protesto, esses trabalhos
- que levaram o crítico Mário Pedrosa a dar-lhe a simpática alcunha de "pop
sertanejo" - se alimentavam da cultura popular, mas com características bastante
distintas daquelas do pop americano ou europeu que, nas palavras de Paulo Herkenhoff,
"celebravam o consumo e a comunicação de massas".
Reflexão política
"Aquela figuração que eu fazia refletia muito o clima da época, do
início do golpe militar; mas com a saída do Brasil isso ficou fora de contexto",
lembra o artista. Como em vários momentos de sua carreira, Dias dá uma grande guinada em
seu trabalho quando sai do Brasil em 1966, instalando-se em Paris, depois de ter ganho uma
bolsa de estudos. Ele ressalta, no entanto, que se a dimensão de protesto diminuiu, a
dimensão política continuou fortemente presente em seu trabalho - e em sua vida. Esse
aspecto predomina em trabalhos como Cabeças, uma irônica instalação sobre a
democracia, ou em KasaKosovoKasa, um comentário recente sobre a explosiva situação nos
Bálcãs.
Após as manifestações parisienses de maio de 68, o jovem nascido em
1944 em Campina Grande, na Paraíba, é novamente obrigado a mudar de endereço, pois as
autoridades francesas se recusam a renovar o seu visto. Após perambular algum tempo pela
Itália, instala-se definitamente em Milão, onde mantém um ateliê. Ele também tem
residências no Rio e em Colônia (Alemanha).
Diversidade
Da mesma forma que não se incomoda em mudar de casa (fato que explica
parcialmente a dificuldade de ver sua obra no País), Dias parece movido por uma eterna
necessidade de explorar novos caminhos em sua produção. Extremamente irrequieto, ele
pinta, faz instalação, cria objetos; explora a sedução das cores, adota o rigor das
formas geométricas, brinca com a associação entre o texto e a imagem... Nem o próprio
artista se arrisca a buscar uma formulação que sintetize seus 40 anos de carreira.
"Não me interessa na minha relação com o trabalho repetir uma experiência que já
tive", afirma o artista, em entrevista por telefone, que desde segunda-feira está em
Salvador montando pessoalmente sua exposição.
Essa diversidade não quer dizer que não haja questões ou elementos que
permeiem toda a sua produção. O corpo, simbolizado por elementos como a pele e os
órgãos sexuais, é bastante presente. Aliás, a epiderme é um elemento central de sua
obra, quer de forma explicitamente figurada, quer de maneira simbólica, como algo que ao
mesmo tempo protege e esconde, seduz e repele.
O artista parece gostar de brincar com forças opostas. Como bem sintetiza
Elisa Byinton no texto do catálogo, ele mantém uma relação ao mesmo tempo conceitual e
sensual com a matéria. O apelo sensorial parece predominar nos trabalhos com papel
artesanal que começou a fazer em 1977 quando foi ao Nepal. Dias buscava material para
suas gravuras e descobriu encantado um mundo novo, passando a mesclar a própria fibra com
colorações vegetais ou usando pigmentos estranhos como o chá para pintar (consumido aos
quilos, num aparente desperdício que inicialmente espantou os pobres habitantes locais,
mas acabou tendo um resultado extremamente belo). O mesmo ocorre com as pinturas mais
recentes em que explora cores explosivas como o vermelho e o dourado, mas decorrem apenas
de desejo de explorar o contraste entre materiais orgânicos como o grafite e a malaquita.
Em 1974, Ronaldo Brito já usava a idéia de armadilha para falar de sua
obra, em texto reproduzido no catálogo da mostra. Como ressalta o próprio Dias, por
trás dessa aparência sedutora há um esquema muito rígido, característico de toda a
sua produção. "É uma espécie de disfarçe, de atrativo, de engano", diz ele.
"É como se eu estivesse dizendo: começa a ver por aí que eu quero que você chegue
ali", explica. Ou como resume Elisa Byinton, "ao nos aproximarmos da obra de
Antonio Dias, mesmo os significados que, à primeira vista, podiam parecer evidentes
começam a fragmentar-se, a multiplicar-se em novas imagens, novas possibilidades, a
acumular extratos de significação." (Maria Hirszman, AE)