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Roma vê  ilustrações de "A Divina Comédia"

24/09/2000

Dante Alighieri

 

A Divina Comédia, obra máxima do grande poeta italiano Dante Alighieri, foi ilustrada por Sandro Botticelli - mestre da arte renascentista. Originariamente eram 100 desenhos. Mas restam 92, realizados entre 1480 e 1510. Na opinião do estudioso alemão Hein Schulze Altcappenberg, superam todas as outras tentativas de transpor A Divina Comédia para a linguagem figurativa. "Uma competição entre o poder da palavra e o da imagem", define.

Desaparecidos durante séculos, os desenhos foram descobertos na França. Atualmente 85 deles pertencem ao museu Kupferstichkabinett de Berlim e 7 ao Vaticano. Praticamente desconhecidos do grande publico, até agora só alguns estudiosos tiveram a oportunidade de vê-los em seu conjunto.

    A mostra Sandro Botticelli - Pintor da Divina Comédia, que começou na quarta-feira na galeria Scuderie Papali do Quirinal em Roma e vai até dezembro, os reúne na Itália pela primeira vez depois de 500 anos. Faltam oito, que foram perdidos. Dos 92, 90 ilustram os 100 cantos que compõem a obra. Um representa o Inferno e o outro é a imagem de Lúcifer.

    A Divina Comédia - poema alegórico que marca o início da literatura italiana - foi escrita em 1300 por Dante Alighieri. É dividido em três cânticos: Inferno, Purgatório e Paraíso, de 33 cantos cada um e mais um canto introdutório. São 14.233 versos que descrevem a viagem imaginária de Dante - em crise espiritual, ao além, em companhia do poeta Virgílio -, símbolo da razão, de Beatriz e de São Bernardo. Representa o percurso da humanidade, que se purifica e se reconcilia com Deus em direçao à felicidade eterna.

Impacto emotivo

    Os desenhos de Botticelli são em seqüência, como num filme, e ilustram apenas o que Dante vê em seu caminho. Centenas de figuras que não se repetem, com posturas e expressões diferentes, de forte impacto emotivo.

    A obra foi encomendada por Lorenzo Pierfrancesco de Médici - primo em segundo grau de Lorenzo o Magnífico, amigo e mecenas de Botticelli, que por sua encomenda realizou as obras mais conhecidas: Primavera, Nascimento de Vênus.

    Realizados em folhas de pergaminho de 32,5 cm de altura por 47,5 cm de largura, faziam parte de um único manuscrito. Debaixo de cada ilustração havia o conto correspondente, escrito à mão por Niccolo Mangona Botticelli, que assina a obra no canto 27 do Paraíso. O artista usou várias técnicas e instrumentos, até chumbo e prata, além de várias tintas. Ao lado de tênues e imperceptíveis esboços, há desenhos terminados, alguns parcialmente coloridos. É uma obra inacabada que os historiadores ainda não sabem se foi deixada assim intencionalmente e por que.

    O único desenho completo e todo colorido é O Inferno. Rico de detalhes arquitetônicos e fantásticos, personagens em miniatura, síntese de toda a obra. Segundo Dante, o inferno é um enorme buraco, formado por nove círculos, que vão se tornando cada vez mais estreitos até chegar ao centro da Terra. Os últimos três círculos são subdivididos. O sétimo, por exemplo, é feito de três minicírculos, um deles é o rio de sangue vermelho. O 9º e último se divide em quatro zonas de gelo eterno.

    Para representar o inferno, Sandro Botticelli usou a imagem de um grande funil, algo sem precedentes na história da pintura. A parte superior toma quase toda a largura da folha, afinando para baixo. Cada círculo é rico de detalhes e tons diferentes de luz. É como um grande e moderno "zoom" cinematográfico, que termina com a imagem de Satanás no hemiciclo final.

    Segundo Altcappenberg, mesmo correndo o risco de se afastar do texto, Botticelli traduz a experiência do narrador com grande coerência e graças à sua precisão consegue autonomia própria. "Quem conhece o texto, mesmo superficialmente, pode ler o poema apenas acompanhando os desenhos", diz.

    A mostra situa a obra de Botticelli no contexto do clima de Florença em 1400 com seus protagonistas por meio de desenhos, retratos e documentos. Lorenzo Médici e Girolamo Savonarola - frei dominicano que pregava contra a corrupção e o poder do papa, morto queimado pela Inquisição. Artistas como Leonardo da Vinci, Filippo Lippi, Ghirlandaio e Pollaiolo.

   Estão expostas 200 obras entre ilustrações, quadros, preciosos manuscritos, antigas edições de A Divina Comédia, cartas, medalhas e documentos provenientes de museus, galerias e bibliotecas de vários países. Entre eles, A Divina Comédia escrita e ilustrada por Giovanni Bocaccio no século 14.

    Além dos desenhos, há outras obras de Botticelli. A célebre Calúnia de Apele, a Descoberta do Cadáver de Olofene, a Natividade Mística e a Crucificação Mística, Três Milagres de S. Zanobi, além de dois monumentais afrescos: Santo Agostinho no Estúdio e Anunciação.

    Segundo os historiadores, a grande influência de Savonarola - de quem se tornou amigo e seguidor - refletiu-se no trabalho do artista. Drama, angústia, composições místicas e temas éticos e religiosos tomaram o lugar da graça e da suavidade que caracterizavam as pinturas anteriores. A Crucificaçao Mística é avaliada como um manifesto da doutrina do frei.

    A morte de Savonarola em 1498 é o ponto alto da crise que eliminou os maiores protagonistas da vida cultural e política florentina dos últimos 30 anos. Mundo no qual Botticelli se formou e para o qual produziu as obras maiores.

    Quando morreu, velho e pobre, em 1510, sua arte era superada. Ele, que chegou a ser um expoente da refinada cultura florentina, pintor oficial da corte dos Médicis, amigo de filósofos e intelectuais da academia platônica, foi ultrapassado pelas novidades: Leonardo, Michelangelo e Rafael.

    A crise espiritual que Botticceli atravessou nos últimos anos de sua vida é documentada. Mas naquele período, dizem os críticos, produziu algumas de suas obras-primas. Entre elas, as ilustrações de A Divina Comédia.

    Montada num dos melhores e mais eficientes espaços expositivos de Roma, a mostra está dividida em dois andares. Conta com iluminação à base de fibra ótica - em alguns casos mais baixa para criar com a penumbra uma atmosfera de intimidade - e usa painéis de prata como base para os quadros. Antes de Roma, a mostra esteve em Berlim e seguirá para a Royal Academy de Londres. (Assimina Vlahou, AE)


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