A Divina Comédia, obra
máxima do grande poeta italiano Dante Alighieri, foi ilustrada por
Sandro Botticelli - mestre da arte renascentista. Originariamente eram
100 desenhos. Mas restam 92, realizados entre 1480 e 1510. Na opinião do
estudioso alemão Hein Schulze Altcappenberg, superam todas as outras
tentativas de transpor A Divina Comédia para a linguagem figurativa.
"Uma competição entre o poder da palavra e o da imagem", define.
Desaparecidos durante
séculos, os desenhos foram descobertos na França. Atualmente 85 deles
pertencem ao museu Kupferstichkabinett de Berlim e 7 ao Vaticano.
Praticamente desconhecidos do grande publico, até agora só alguns
estudiosos tiveram a oportunidade de vê-los em seu conjunto.
A mostra Sandro Botticelli - Pintor da Divina Comédia, que começou
na quarta-feira na galeria Scuderie Papali do Quirinal em Roma e vai até dezembro, os
reúne na Itália pela primeira vez depois de 500 anos. Faltam oito, que foram perdidos.
Dos 92, 90 ilustram os 100 cantos que compõem a obra. Um representa o Inferno e o outro
é a imagem de Lúcifer.
A Divina Comédia - poema alegórico que marca o início da
literatura italiana - foi escrita em 1300 por Dante Alighieri. É dividido em três
cânticos: Inferno, Purgatório e Paraíso, de 33 cantos cada um e mais um canto
introdutório. São 14.233 versos que descrevem a viagem imaginária de Dante - em crise
espiritual, ao além, em companhia do poeta Virgílio -, símbolo da razão, de Beatriz e
de São Bernardo. Representa o percurso da humanidade, que se purifica e se reconcilia com
Deus em direçao à felicidade eterna.
Impacto emotivo
Os desenhos de Botticelli são em seqüência, como num filme, e
ilustram apenas o que Dante vê em seu caminho. Centenas de figuras que não se repetem,
com posturas e expressões diferentes, de forte impacto emotivo.
A obra foi encomendada por Lorenzo Pierfrancesco de Médici - primo
em segundo grau de Lorenzo o Magnífico, amigo e mecenas de Botticelli, que por sua
encomenda realizou as obras mais conhecidas: Primavera, Nascimento de Vênus.
Realizados em folhas de pergaminho de 32,5 cm de altura por 47,5 cm
de largura, faziam parte de um único manuscrito. Debaixo de cada ilustração havia o
conto correspondente, escrito à mão por Niccolo Mangona Botticelli, que assina a obra no
canto 27 do Paraíso. O artista usou várias técnicas e instrumentos, até chumbo e
prata, além de várias tintas. Ao lado de tênues e imperceptíveis esboços, há
desenhos terminados, alguns parcialmente coloridos. É uma obra inacabada que os
historiadores ainda não sabem se foi deixada assim intencionalmente e por que.
O único desenho completo e todo colorido é O Inferno. Rico de
detalhes arquitetônicos e fantásticos, personagens em miniatura, síntese de toda a
obra. Segundo Dante, o inferno é um enorme buraco, formado por nove círculos, que vão
se tornando cada vez mais estreitos até chegar ao centro da Terra. Os últimos três
círculos são subdivididos. O sétimo, por exemplo, é feito de três minicírculos, um
deles é o rio de sangue vermelho. O 9º e último se divide em quatro zonas de gelo
eterno.
Para representar o inferno, Sandro Botticelli usou a imagem de um
grande funil, algo sem precedentes na história da pintura. A parte superior toma quase
toda a largura da folha, afinando para baixo. Cada círculo é rico de detalhes e tons
diferentes de luz. É como um grande e moderno "zoom" cinematográfico, que
termina com a imagem de Satanás no hemiciclo final.
Segundo Altcappenberg, mesmo correndo o risco de se afastar do
texto, Botticelli traduz a experiência do narrador com grande coerência e graças à sua
precisão consegue autonomia própria. "Quem conhece o texto, mesmo superficialmente,
pode ler o poema apenas acompanhando os desenhos", diz.
A mostra situa a obra de Botticelli no contexto do clima de
Florença em 1400 com seus protagonistas por meio de desenhos, retratos e documentos.
Lorenzo Médici e Girolamo Savonarola - frei dominicano que pregava contra a corrupção e
o poder do papa, morto queimado pela Inquisição. Artistas como Leonardo da Vinci,
Filippo Lippi, Ghirlandaio e Pollaiolo.
Estão expostas 200 obras entre ilustrações, quadros, preciosos
manuscritos, antigas edições de A Divina Comédia, cartas, medalhas e documentos
provenientes de museus, galerias e bibliotecas de vários países. Entre eles, A Divina
Comédia escrita e ilustrada por Giovanni Bocaccio no século 14.
Além dos desenhos, há outras obras de Botticelli. A célebre
Calúnia de Apele, a Descoberta do Cadáver de Olofene, a Natividade Mística e a
Crucificação Mística, Três Milagres de S. Zanobi, além de dois monumentais afrescos:
Santo Agostinho no Estúdio e Anunciação.
Segundo os historiadores, a grande influência de Savonarola - de
quem se tornou amigo e seguidor - refletiu-se no trabalho do artista. Drama, angústia,
composições místicas e temas éticos e religiosos tomaram o lugar da graça e da
suavidade que caracterizavam as pinturas anteriores. A Crucificaçao Mística é avaliada
como um manifesto da doutrina do frei.
A morte de Savonarola em 1498 é o ponto alto da crise que eliminou
os maiores protagonistas da vida cultural e política florentina dos últimos 30 anos.
Mundo no qual Botticelli se formou e para o qual produziu as obras maiores.
Quando morreu, velho e pobre, em 1510, sua arte era superada. Ele,
que chegou a ser um expoente da refinada cultura florentina, pintor oficial da corte dos
Médicis, amigo de filósofos e intelectuais da academia platônica, foi ultrapassado
pelas novidades: Leonardo, Michelangelo e Rafael.
A crise espiritual que Botticceli atravessou nos últimos anos de
sua vida é documentada. Mas naquele período, dizem os críticos, produziu algumas de
suas obras-primas. Entre elas, as ilustrações de A Divina Comédia.
Montada num dos melhores e mais eficientes espaços expositivos de
Roma, a mostra está dividida em dois andares. Conta com iluminação à base de fibra
ótica - em alguns casos mais baixa para criar com a penumbra uma atmosfera de intimidade
- e usa painéis de prata como base para os quadros. Antes de Roma, a mostra esteve em
Berlim e seguirá para a Royal Academy de Londres. (Assimina Vlahou, AE)