Em plena quarta-feira, a
um dia da estréia de Esta
noite se improvisa, de Luigi Pirandello (1867-1936), no Centro Cultural Banco do
Brasil (CCBB), peça que dirige e na qual atua, o diretor Antonio Abujamra voltou aos 19
anos. Foi ao passado lembrar onde encontrou pela primeira vez Pirandello, o dramaturgo
siciliano que revirou o fazer teatral na primeira metade do século pondo o próprio
teatro no centro do debate e do palco. Ainda vivendo em Porto Alegre, Abujamra estreou em
sua primeira montagem profissional como o conselheiro na peça A verdade de cada um.
Desde então, 50 anos se passaram, Abujamra rodou um bocado, viajou meio mundo, tornou-se
discípulo de Bertolt Brecht e concluiu que montar Pirandello não é para qualquer um.
Tanto pensa assim que Abujamra fez questão de colocar no prólogo
de Essa noite se improvisa - que marca também os 10 anos da companhia F.
Privilegiados, fundada por ele - algo mais ou menos como "essa peça está fadada ao
fracasso", deslanchando, em seguida, nomes de vários artistas e diretores que teriam
errado e acertado a mão nas montagens. Terá razão?
Para o diretor Antonio Guedes, da Companhia do Pequeno Gesto, que
atualmente encena Henrique IV, de Pirandello, no Teatro Gláucio Gill, em
Copacabana, não há fracasso à vista. "Ele é um autor difícil, sim. Há quem ache
suas tramas complicadas, mas não considero o meu espetáculo, por exemplo, um
fracasso", reage Guedes. "Estamos tendo uma boa bilheteria. É preciso levar em
conta que não há atores globais no elenco, o que certamente ajudaria a formar fila na
porta", argumenta. Na pesquisa que fez, o diretor constatou que ocorreram raras
montagens de Henrique IV no Brasil. A primeira, em 1946, com Sérgio Cardoso, e
mais tarde, uma versão dirigida por Ziembinski. "O fato é quem vai assistir à
Companhia Pequeno Gesto sabe que não vai encontrar nada facilmente digerível",
sacramenta.
Digestão fácil, é claro, imaginando no lugar do estômago o
cérebro, decididamente não é o que se deve esperar da obra de Pirandello. Mas Renata
Sorrah, que foi feliz com Encontrarse (Trovarsi, em italiano), na qual foi
dirigida por Ulisses Cruz, em 1989/90, enxerga outra questão no debate. "Não vejo
dificuldade para a platéia entender o que se passa. As pessoas precisam é aprender a
pensar. O texto do Pirandello revolucionou o pensamento sobre o teatro. Ele era quase um
filósofo. Mais do que nunca, é um ótimo exercício de raciocínio num momento em que
todo mundo se fecha no sexo virtual, no seu site, na tela do computador", sustenta.
Atualmente em cartaz com Mais perto, no Teatro Villa-Lobos, Renata acha Abujamra,
que também atuou em Encontrarse, um exagerado. Mas deseja a ele muito sucesso.
Outro que tem Pirandello em alta conta é Ítalo Rossi. Na década
de 50 fez vários textos do dramaturgo italiano na televisão, como Assim é se lhe
parece e Seis personagens à procura de um autor. No teatro fez pela primeira
vez O prazer da honestidade, que lhe rendeu convite para trabalhar no Teatro
Brasileiro de Comédia (TBC). "Era a nossa Comédie Française. Pirandello me deu
muita sorte. E tive o apoio do José Renato", diz.
José Renato, um dos fundadores do Teatro de Arena de São Paulo é
outro que não associa fracasso a montagens de Pirandello. "Hoje nem todos querem
montar um texto que apele ao raciocínio. Ele tem um lirismo e uma maneira de encarar o
ser humano toda especial. O problema é que as pessoas gostam mesmo é de encarar
TV", depõe o diretor. Essa noite se improvisa se passa em dois atos. No
primeiro, o diretor, Dr. Hinkfuss, vivido por Abujamra, leva os atores a improvisar.
Indignados e exaustos no fim do primeiro ato, os atores mandam o diretor embora. O segundo
ato é dos atores. "Pirandello mexe com o teatro dentro do teatro. Isso embaralha o
público. No primeiro ato, ele questiona o diretor que, como o espectador, quer
linearidade numa montagem. No segundo, essa linearidade aparece porque não há
diretor", analisa o diretor João Fonseca, dos F. Privilegiados, que trabalhou por
dez anos com Abujamra e experimenta os primeiros passos sem o mestre, que resolveu se
desligar do grupo.
Luigi Pirandello ganhou o Nobel de Literatura em 1934. Há quem
considere que ele levou para os textos aspectos como a ilusão e o isolamento e
situações de extrema complexidade como forma de sobreviver à insanidade da mulher, que
surtou logo após o nascimento do terceiro filho. Foram 17 anos convivendo com a loucura,
até o internação da mulher, em 1919, logo após começar a escrever para teatro.
(Monica Riani, AJB)