O mundo vive um momento
de destruição antropológica e sociológica. Países como Japão e Estados
Unidos, que já encontram-se numa fase pós-industrial, esmagam as
sociedades subdesenvolvidas ou emergentes apontando-lhes uma longa
jornada até a modernidade, enquanto oferecem seus produtos como um
atalho para o desenvolvimento. Assim a cultura norte-americana com suas
redes mundiais de televisão, com sua produção cinematográfica e
literária está destruindo culturalmente outras nações. É essa a análise
que o sociólogo italiano Domenico de Masi fez da globalização e das
conseqüências da nova economia quando esteve em Curitiba participando do
Encontro Internacional de Empreendedores promovido pelo Sebrae.
Professor de Sociologia do Trabalho na Universidade La Sapienza e
presidente da Sociedade Italiana de Teletrabalho, de Masi cita como exemplo de passagem
direta para a sociedade pós-industrial um programa de alfabetização desenvolvido pela
Copel. Aponta como saída para as sociedades em desenvolvimento a produção de idéias,
defende que as empresas nacionais só serão grandes e competitivas quando tiverem
características brasileiras e prega a necessidade de se contrapor a globalização da
economia com a formação de uma sociedade baseada mais na solidariedade, no amor, na
emotividade e na alegria.
Autor de livros como o best-seller "Ócio Criativo", "A
Emoção e a Regra" e " Desenvolvimento sem Trabalho", o sociólogo vê no
Brasil uma das últimas reservas do mundo de alegria e uma oportunidade do país emergir
mundialmente por intermédio da produção artística.
Gazeta do Povo - Nos séculos XVIII e XIX dois modelos divergentes
basearam as ações da sociedade industrial, o Manifesto Comunista (de Marx e Engels) e a
encíclica Rerum Novarum (do Papa Leão XIII) que modelo social baseia a sociedade
pós-industrial ?
Domenico de Masi - A sociedade pós-industrial não tem um manifesto
único, pois sua natureza intrínseca é pós-moderna. É uma junção de raças, de
idéias e de estéticas. Podemos dizer que o verdadeiro manifesto da sociedade
pós-industrial é a arquitetura, a arquitetura de Niemayer, por exemplo. Na arquitetura
pode se ter um manifesto do mundo pós-moderno.
- Que fases uma sociedade deve passar para chegar à sociedade
pós-industrial ?
- Os Estados Unidos, o Japão e os países desenvolvidos dizem que os
países pré-industriais devem passar pela fase industrial. Assim esmagam essas
sociedades, forçando-os a passar por vários degraus. Eu creio que esses países devem
passar diretamente para a fase pós-industrial, sem perder tempo. Um exemplo de como essa
passagem pode ser feita é o programa de alfabetização de adultos da Copel (Companhia
Paranaense de Energia Elétrica) alfabetiza através da informática e assim as pessoas no
lugar de pré-alfabetizadas, são pós-alfabetizadas. Hoje a política internacional dos
países ricos divide o mundo em três categorias, os países avançados que produzem
sobretudo idéias, os industriais que produzem bens materiais, com muitas fábricas e
supermercados e por fim os países subdesenvolvidos de terceiro mundo, que não produzem
nada e devem comprar apenas os resíduos do terceiro mundo, dando em troca, a
mão-de-obra, a subordinação política e as bases militares. O único modo desses
países se erguerem é tornando-se produtores de idéias, mas a produção vem de dois
campos: o artístico e científico. O Brasil é forte no campo artístico e fraco no campo
industrial.
- No Brasil existem sociedades nos três modelos, pós-industrias,
industriais, rurais, é possível que essas sociedades convivam mutuamente ?
- Não é possível. O segundo e o terceiro modelos precisam ser
eliminados. O Brasil não tem uma agricultura pós-industrial, existe hoje uma agricultura
subdesenvolvida e uma pós-industrial feita com recursos da biotecnologia. Existe uma
indústria desenvolvida e outra pós-industrial feita com eletrônica e robótica, existem
serviços subdesenvolvidos como os dos garis, e os pós-industriais como aviação,
turismo, internet. Nos três setores, agricultura, indústria e serviços precisam passar
da fase pré-industrial para a pós-industrial.
- Como fazer a transição ?
- Os dois fatores principais da sociedade pós-industrial são tempo livre
e a criatividade. A criatividade artística e científica. Para passar de uma sociedade
industrial para uma pós-industrial é preciso cultivar o tempo livre e a criatividade. A
criatividade artística pode ser cultivada mesmo sem dinheiro, ao contrário da
científica. Agora os países do terceiro mundo podem conquistar os países do primeiro
mundo com a criatividade artística como está fazendo o Brasil. Um estudo de marketing
preconiza que, em 2003, a venda de música sul-americana vai superar a de rock em todo o
mundo .
- Quais os custos sociais dessa transição?
- Qualquer custo social dessa transição é inferior aos custos do
subdesenvolvimento.
- Quais mudanças antropológicas essa transformação pode causar?
- Vivemos nesse momento não uma transformação antropológica, mas uma
destruição antropológica. A cultura brasileira, assim como a italiana é destruída
pela cultura americana. O cinema, os livros são só os americanos. Um palestrante
americano tem espaço mundial e vai dizer a mesma coisa em qualquer lugar: a importância
da competitividade, do mercado e da destruição. Portanto precisamos contrapor essa
globalização da economia, com uma globalização dos sentimentos, da emotividade, com a
formação de uma sociedade baseada mais na solidariedade, no amor, na alegria e o Brasil
é uma das últimas reservas do mundo de alegria.
- Uma pesquisa realizada recentemente pelo Ibope mostra que o emprego é
hoje a maior preocupação do brasileiro. O Brasil, assim como o Paraná, tem usado como
estratégia para geração de empregos a atração de novos investimentos e os incentivos
à iniciativa privada. Essa é uma saída para geração de empregos na sociedade
pós-industrial ?
- Os empresários quando fazem investimentos têm uma vantagem financeira
muito maior do que a quantia gasta. Quase sempre para investir o privado se faz receber
dinheiro do Estado. A situação que temos então é a seguinte: o Estado vende barato
suas melhores indústrias ou escolas ou transporte ao setor privado, que quando o pega
alguma coisa do Estado manda embora uma parte das pessoas. Depois os empresários pedem ao
governo incentivos econômicos, com os quais empregam um pouco de mão-de-obra, mas
compram sobretudo maquinário e computadores. Por isso, esse tipo de circuito econômico,
a curto prazo, parece criar ocupações, porém são por tempo determinado - o que eles
chamam de flexibilidade. Na realidade também vivemos numa situação que o desemprego
aumenta em todo mundo por causa da tecnologia que substitui a mão de obra e pela
globalização. O único modo para resolver o desemprego é redistribuir o trabalho, os
países que têm baixa cota de desocupação têm todos alta cota de part time, que é o
modo mais fácil de redistribuição. Na Holanda há 35% de trabalhadores em part time, na
Inglaterra são 27%, nos EUA são 24%, na Suécia 32%. É necessário também redistribuir
a riqueza e o poder. Existem riquíssimos e paupérrimos, existem pessoas que trabalham 12
horas por dia cujos filhos estão desocupados.
- Qual a proposta para implementar essas mudanças ?
- Uma mistura orgânica entre capitalismo e comunismo, porque o
capitalismo sabe produzir e não sabe distribuir e o comunismo sabe distribuir e não sabe
produzir.
- O Brasil tem debatido a redução da jornada de trabalho como
alternativa para geração de novos postos de trabalhos. No entanto, parte dos mesmos
empresários que aplaudem suas teorias resistem a essas mudanças...
- Os industriais não são coerentes, porque é fácil aceitar as
premissas e difícil realizá-las. A tecnologia permite produzir mais bens e mais
serviços com menos trabalho. Assim podemos com o mesmo trabalho produzir mais ou com a
mesma produção trabalharmos menos. Acredito que temos uma produção exuberante e que
seria melhor aumentar a qualidade de vida e o repouso.
- A tecnologia e a internet estão à nosso serviço ou nos escravizando ?
- Para alguns é escravidão para outros é diversão. Depende da
formação. Se a pessoa aprendeu a aproveitar o tempo livre, a internet será sua escrava.
Se for habituada a dar prioridade para o trabalho, será escravizada.
- Então depende também da educação ?
- Tem que se mudar completamente toda a educação. Atualmente, ensina-se
que o trabalho é um fim, pois infelizmente os professores pertencem à mesma ideologia do
trabalho. Para o professor o ócio parece um vício, então eles ensinam os jovens a
trabalhar sempre. O trabalho não é um fim, é um meio.
- Quando o ócio pode virar ópio ?
- Quando a forma de ócio for decidida por uma minoria . Por exemplo CNN e
Hollywood impõem uma forma de ócio para todos. O Brasil tem sorte porque tem uma grande
rede de televisão que faz telenovelas, mas na Itália as telenovelas são americanas e
brasileiras então somos duplamente colonizados. (Gazeta do Povo)