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O trabalho não é um fim, é um meio

25/09/2000

 

 

O mundo vive um momento de destruição antropológica e sociológica. Países como Japão e Estados Unidos, que já encontram-se numa fase pós-industrial, esmagam as sociedades subdesenvolvidas ou emergentes apontando-lhes uma longa jornada até a modernidade, enquanto oferecem seus produtos como um atalho para o desenvolvimento. Assim a cultura norte-americana com suas redes mundiais de televisão, com sua produção cinematográfica e literária está destruindo culturalmente outras nações. É essa a análise que o sociólogo italiano Domenico de Masi fez da globalização e das conseqüências da nova economia quando esteve em Curitiba participando do Encontro Internacional de Empreendedores promovido pelo Sebrae.

   Professor de Sociologia do Trabalho na Universidade La Sapienza e presidente da Sociedade Italiana de Teletrabalho, de Masi cita como exemplo de passagem direta para a sociedade pós-industrial um programa de alfabetização desenvolvido pela Copel. Aponta como saída para as sociedades em desenvolvimento a produção de idéias, defende que as empresas nacionais só serão grandes e competitivas quando tiverem características brasileiras e prega a necessidade de se contrapor a globalização da economia com a formação de uma sociedade baseada mais na solidariedade, no amor, na emotividade e na alegria.

   Autor de livros como o best-seller "Ócio Criativo", "A Emoção e a Regra" e " Desenvolvimento sem Trabalho", o sociólogo vê no Brasil uma das últimas reservas do mundo de alegria e uma oportunidade do país emergir mundialmente por intermédio da produção artística.

   Gazeta do Povo - Nos séculos XVIII e XIX dois modelos divergentes basearam as ações da sociedade industrial, o Manifesto Comunista (de Marx e Engels) e a encíclica Rerum Novarum (do Papa Leão XIII) que modelo social baseia a sociedade pós-industrial ?

   Domenico de Masi - A sociedade pós-industrial não tem um manifesto único, pois sua natureza intrínseca é pós-moderna. É uma junção de raças, de idéias e de estéticas. Podemos dizer que o verdadeiro manifesto da sociedade pós-industrial é a arquitetura, a arquitetura de Niemayer, por exemplo. Na arquitetura pode se ter um manifesto do mundo pós-moderno.

   - Que fases uma sociedade deve passar para chegar à sociedade pós-industrial ?

   - Os Estados Unidos, o Japão e os países desenvolvidos dizem que os países pré-industriais devem passar pela fase industrial. Assim esmagam essas sociedades, forçando-os a passar por vários degraus. Eu creio que esses países devem passar diretamente para a fase pós-industrial, sem perder tempo. Um exemplo de como essa passagem pode ser feita é o programa de alfabetização de adultos da Copel (Companhia Paranaense de Energia Elétrica) alfabetiza através da informática e assim as pessoas no lugar de pré-alfabetizadas, são pós-alfabetizadas. Hoje a política internacional dos países ricos divide o mundo em três categorias, os países avançados que produzem sobretudo idéias, os industriais que produzem bens materiais, com muitas fábricas e supermercados e por fim os países subdesenvolvidos de terceiro mundo, que não produzem nada e devem comprar apenas os resíduos do terceiro mundo, dando em troca, a mão-de-obra, a subordinação política e as bases militares. O único modo desses países se erguerem é tornando-se produtores de idéias, mas a produção vem de dois campos: o artístico e científico. O Brasil é forte no campo artístico e fraco no campo industrial.

   - No Brasil existem sociedades nos três modelos, pós-industrias, industriais, rurais, é possível que essas sociedades convivam mutuamente ?

   - Não é possível. O segundo e o terceiro modelos precisam ser eliminados. O Brasil não tem uma agricultura pós-industrial, existe hoje uma agricultura subdesenvolvida e uma pós-industrial feita com recursos da biotecnologia. Existe uma indústria desenvolvida e outra pós-industrial feita com eletrônica e robótica, existem serviços subdesenvolvidos como os dos garis, e os pós-industriais como aviação, turismo, internet. Nos três setores, agricultura, indústria e serviços precisam passar da fase pré-industrial para a pós-industrial.

   - Como fazer a transição ?

   - Os dois fatores principais da sociedade pós-industrial são tempo livre e a criatividade. A criatividade artística e científica. Para passar de uma sociedade industrial para uma pós-industrial é preciso cultivar o tempo livre e a criatividade. A criatividade artística pode ser cultivada mesmo sem dinheiro, ao contrário da científica. Agora os países do terceiro mundo podem conquistar os países do primeiro mundo com a criatividade artística como está fazendo o Brasil. Um estudo de marketing preconiza que, em 2003, a venda de música sul-americana vai superar a de rock em todo o mundo .

   - Quais os custos sociais dessa transição?

   - Qualquer custo social dessa transição é inferior aos custos do subdesenvolvimento.

   - Quais mudanças antropológicas essa transformação pode causar?

   - Vivemos nesse momento não uma transformação antropológica, mas uma destruição antropológica. A cultura brasileira, assim como a italiana é destruída pela cultura americana. O cinema, os livros são só os americanos. Um palestrante americano tem espaço mundial e vai dizer a mesma coisa em qualquer lugar: a importância da competitividade, do mercado e da destruição. Portanto precisamos contrapor essa globalização da economia, com uma globalização dos sentimentos, da emotividade, com a formação de uma sociedade baseada mais na solidariedade, no amor, na alegria e o Brasil é uma das últimas reservas do mundo de alegria.

   - Uma pesquisa realizada recentemente pelo Ibope mostra que o emprego é hoje a maior preocupação do brasileiro. O Brasil, assim como o Paraná, tem usado como estratégia para geração de empregos a atração de novos investimentos e os incentivos à iniciativa privada. Essa é uma saída para geração de empregos na sociedade pós-industrial ?

   - Os empresários quando fazem investimentos têm uma vantagem financeira muito maior do que a quantia gasta. Quase sempre para investir o privado se faz receber dinheiro do Estado. A situação que temos então é a seguinte: o Estado vende barato suas melhores indústrias ou escolas ou transporte ao setor privado, que quando o pega alguma coisa do Estado manda embora uma parte das pessoas. Depois os empresários pedem ao governo incentivos econômicos, com os quais empregam um pouco de mão-de-obra, mas compram sobretudo maquinário e computadores. Por isso, esse tipo de circuito econômico, a curto prazo, parece criar ocupações, porém são por tempo determinado - o que eles chamam de flexibilidade. Na realidade também vivemos numa situação que o desemprego aumenta em todo mundo por causa da tecnologia que substitui a mão de obra e pela globalização. O único modo para resolver o desemprego é redistribuir o trabalho, os países que têm baixa cota de desocupação têm todos alta cota de part time, que é o modo mais fácil de redistribuição. Na Holanda há 35% de trabalhadores em part time, na Inglaterra são 27%, nos EUA são 24%, na Suécia 32%. É necessário também redistribuir a riqueza e o poder. Existem riquíssimos e paupérrimos, existem pessoas que trabalham 12 horas por dia cujos filhos estão desocupados.

   - Qual a proposta para implementar essas mudanças ?

   - Uma mistura orgânica entre capitalismo e comunismo, porque o capitalismo sabe produzir e não sabe distribuir e o comunismo sabe distribuir e não sabe produzir.

   - O Brasil tem debatido a redução da jornada de trabalho como alternativa para geração de novos postos de trabalhos. No entanto, parte dos mesmos empresários que aplaudem suas teorias resistem a essas mudanças...

   - Os industriais não são coerentes, porque é fácil aceitar as premissas e difícil realizá-las. A tecnologia permite produzir mais bens e mais serviços com menos trabalho. Assim podemos com o mesmo trabalho produzir mais ou com a mesma produção trabalharmos menos. Acredito que temos uma produção exuberante e que seria melhor aumentar a qualidade de vida e o repouso.

   - A tecnologia e a internet estão à nosso serviço ou nos escravizando ?

   - Para alguns é escravidão para outros é diversão. Depende da formação. Se a pessoa aprendeu a aproveitar o tempo livre, a internet será sua escrava. Se for habituada a dar prioridade para o trabalho, será escravizada.

   - Então depende também da educação ?

   - Tem que se mudar completamente toda a educação. Atualmente, ensina-se que o trabalho é um fim, pois infelizmente os professores pertencem à mesma ideologia do trabalho. Para o professor o ócio parece um vício, então eles ensinam os jovens a trabalhar sempre. O trabalho não é um fim, é um meio.

   - Quando o ócio pode virar ópio ?

   - Quando a forma de ócio for decidida por uma minoria . Por exemplo CNN e Hollywood impõem uma forma de ócio para todos. O Brasil tem sorte porque tem uma grande rede de televisão que faz telenovelas, mas na Itália as telenovelas são americanas e brasileiras então somos duplamente colonizados. (Gazeta do Povo)


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