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Curitiba: Itália participa da Bienal Internacional de Fotografia

25/09/2000

 

 

 Da Itália, chega a mostra Neo-Realismo na Fotografia Italiana, que reúne os trabalhos de alguns dos mais conceituados e conhecidos fotógrafos do País, como Mario de Biasi, Mario Giacomelli, Pietro Donzelli, Franco Pinna e Fulvio Roiter.

   A cidade de Curitiba prepara-se para mais um festival da fotografia: a partir do dia 5, os espaços culturais serão tomados por exposições nacionais e internacionais, workshops, debates e uma feira de livros e equipamentos fotográficos, na 3ª edição da Bienal Internacional de Fotografia.

   Neste ano, as imagens vão girar em torno de dois temas principais: A Violência do Caos ou o Caos da Violência e Fé. "São temas superabrangentes", comenta Orlando Azevedo, curador do evento. "Quando falo em violência, estou entendendo desde os conceitos líricos e filosóficos até crime, mesmo, e a fé, entrando como contraponto, diálogo e soma."

   Ao todo vão ser 18 exposições - nove nacionais e nove internacionais, com representantes do Equador, França, Portugal e Itália. "Acredito que estamos nos habituando a viver com a violência, seja no abuso de poder, seja na exclusão dos seres humanos pelo quadro econômico-social, seja na nossa indiferença frente aos crimes", continua o curador. "Por isso, achei importante lidar com essas questões por meio dos trabalhos fotográficos."

   A fotografia já é tradição na cidade, que, desde 1991, realiza encontros fotográficos. Eles deram origem, em 1996, à Bienal e, em 1998, por ocasião da 2ª edição do evento, à criação do Museu da Fotografia da Cidade de Curitiba, que já possui em seu acervo mais de 3 mil obras fotográficas. Este ano, um grande corte orçamentário provocou o adiamento do encontro, de agosto para outubro, e reduziu em muito as exposições e os eventos paralelos que o acompanham. "Pensamos até em desistir, mas, depois, refletindo melhor, chegamos à conclusão de que seria mais digno o adiamento e a realização da Bienal do que interromper a continuidade do ciclo", diz Azevedo.

   É a primeira vez que a Bienal estabelece um conceito assim tão específico. Nos outros anos, a ênfase era em mostrar um panorama da produção fotográfica no mundo, com exposições como a Mostra Brasil. Neste ano, até pela necessidade da reorganização, os temas estabelecidos pelo curador falam mais alto.

   Dentre as exposições nacionais, destaca-se a mostra Violência, que reúne 30 imagens reveladoras de uma sociedade caótica e violenta através dos trabalhos dos fotógrafos paulistas Marlene Bergamo e Roberto Linsker.

   Como contraponto, os fotógrafos Adriana Zebrauskas, Marcelo Greco, Christian Cravo, José Bassit, Ricardo Malta , Gleice Mere, Sebastião Salgado, Ed Viggiani e Evandro Teixeira, integram a coletiva Fé, - 40 trabalhos cujo mote são pessoas que buscam na religiosidade a superação das dificuldades do seu cotidiano. "O tema da fé está intimamente ligado ao da violência", diz Orlando Azevedo. "Não podemos esquecer da chegada do homem branco ao novo continente, onde, com força e violência, ele impôs sua religião."

   Ao estabelecer este diálogo entre os dois temas, a intenção do curador foi também caracterizar o ato de pedir e agradecer por graças conseguidas como uma forma de superar condições impostas pela luta contra a desigualdade: "O privilégio e a impunidade de poucos são as formas mais vis de agressão ao próximo", diz.

   Entre as exposições individuais imperdíveis, estão a mostra do fotógrafo paraense Luiz Braga, Desenhos do Olhar; a do paulista Kenji Ota, que retoma os antigos processos de impressão, muitos lembrando imagens rupestres; e a de Haruo Ohara, um dos pioneiros da imigração japonesa no Paraná. Ohara chegou ao Brasil em 1927 e foi trabalhar nas lavouras de café de Londrina. Apaixonado por fotografia, nos anos 50, participou ativamente do Fotoclube de Londrina. Ele morreu, em agosto do ano passado, aos 89 anos.

   Um exemplo da fotografia contemporânea está na exposição Linguagem da Imagem, que reúne trabalhos de fotógrafos e artistas plásticos que usam a fotografia para experiências de linguagem, como Odires Mlászho, Arnaldo Pappalardo, Alex Flemming, Vick Muniz, Iatã Cannabrava, Rosângela Rennó, entre outros.

   Dentre os países estrangeiros participantes, mais uma vez, é Portugal que aparece com mais força. Destaque para a exposição Suave Violência, Ocultação do Caos, com imagens de Domingos Alvão sobre o período salazarista. A mostra pertence ao acervo do Centro Português de Fotografia, localizado no Porto e dirigido por Tereza Siza; ainda de Portugal, chegam os trabalhos de Manuel José Magalhães, na exposição Mar, com 22 fotografias, cada uma delas constituindo um único original aquarelado; Navio Escola de Sagres é a exposição da fotógrafa italiana Giorgia Fiorio, um ensaio sobre o cotidiano dos marinheiros a bordo do Sagres, o navio-escola da marinha portuguesa.  Durante três meses - de maio a julho de 1999 - Giorgia acompanhou o dia-a-dia dos marujos.

   Completando a participação lusitana, Rui Prata, diretor dos Encontros da Imagem de Braga, selecionou 248 imagens colhidas pelos mais diversos fotógrafos - muitos deles anônimos - que contam sete décadas da história de Portugal. O Estado do Tempo é uma painel dos fatos e histórias, dos valores e dos ânimos do povo português.

   Da Itália, chega a mostra Neo-Realismo na Fotografia Italiana, que reúne os trabalhos de alguns dos mais conceituados e conhecidos fotógrafos do País, como Mario de Biasi, Mario Giacomelli, Pietro Donzelli, Franco Pinna e Fulvio Roiter. O conceito de neo-realismo surge no cinema italiano, nos primeiros anos pós-guerra. Cineastas como Vitorio De Sicca e Roberto Rosselini tentam acompanhar o renascer de um país brutalizado pela guerra. A fotografia documentou o movimento e também registrou o renascer italiano.

   Do Equador, chama a atenção o trabalho da fotógrafa e socióloga Lúcia Chiriboga, que procura mostrar as condições de culturas constantemente submetidas à espoliação.

Para refletir sobre e costurar os temas que dirigem o encontro, no dia 9 de outubro será realizado um debate sobre o universo da fotografia autoral, com a participação do curador da Bienal, Orlando Azevedo, de Rui Prata, dos Encontros da Imagem de Braga (Portugal), Fábio Magalhães, presidente da Fundação Memorial da América Latina e Tereza Siza, diretora do Centro Português de Fotografia. (SIMONETTA PERSICHETTI, AE)


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