Da
Itália, chega a mostra Neo-Realismo na Fotografia Italiana, que reúne os
trabalhos de alguns dos mais conceituados e conhecidos fotógrafos do
País, como Mario de Biasi, Mario Giacomelli, Pietro Donzelli, Franco
Pinna e Fulvio Roiter.
A cidade de Curitiba prepara-se para mais um festival da fotografia: a
partir do dia 5, os espaços culturais serão tomados por exposições nacionais e
internacionais, workshops, debates e uma feira de livros e equipamentos fotográficos, na
3ª edição da Bienal Internacional de Fotografia.
Neste ano, as imagens vão girar em torno de dois temas principais: A
Violência do Caos ou o Caos da Violência e Fé. "São temas superabrangentes",
comenta Orlando Azevedo, curador do evento. "Quando falo em violência, estou
entendendo desde os conceitos líricos e filosóficos até crime, mesmo, e a fé, entrando
como contraponto, diálogo e soma."
Ao todo vão ser 18 exposições - nove nacionais e nove internacionais,
com representantes do Equador, França, Portugal e Itália. "Acredito que estamos nos
habituando a viver com a violência, seja no abuso de poder, seja na exclusão dos seres
humanos pelo quadro econômico-social, seja na nossa indiferença frente aos crimes",
continua o curador. "Por isso, achei importante lidar com essas questões por meio
dos trabalhos fotográficos."
A fotografia já é tradição na cidade, que, desde 1991, realiza
encontros fotográficos. Eles deram origem, em 1996, à Bienal e, em 1998, por ocasião da
2ª edição do evento, à criação do Museu da Fotografia da Cidade de Curitiba, que já
possui em seu acervo mais de 3 mil obras fotográficas. Este ano, um grande corte
orçamentário provocou o adiamento do encontro, de agosto para outubro, e reduziu em
muito as exposições e os eventos paralelos que o acompanham. "Pensamos até em
desistir, mas, depois, refletindo melhor, chegamos à conclusão de que seria mais digno o
adiamento e a realização da Bienal do que interromper a continuidade do ciclo", diz
Azevedo.
É a primeira vez que a Bienal estabelece um conceito assim tão
específico. Nos outros anos, a ênfase era em mostrar um panorama da produção
fotográfica no mundo, com exposições como a Mostra Brasil. Neste ano, até pela
necessidade da reorganização, os temas estabelecidos pelo curador falam mais alto.
Dentre as exposições nacionais, destaca-se a mostra Violência, que
reúne 30 imagens reveladoras de uma sociedade caótica e violenta através dos trabalhos
dos fotógrafos paulistas Marlene Bergamo e Roberto Linsker.
Como contraponto, os fotógrafos Adriana Zebrauskas, Marcelo Greco,
Christian Cravo, José Bassit, Ricardo Malta , Gleice Mere, Sebastião Salgado, Ed
Viggiani e Evandro Teixeira, integram a coletiva Fé, - 40 trabalhos cujo mote são
pessoas que buscam na religiosidade a superação das dificuldades do seu cotidiano.
"O tema da fé está intimamente ligado ao da violência", diz Orlando Azevedo.
"Não podemos esquecer da chegada do homem branco ao novo continente, onde, com
força e violência, ele impôs sua religião."
Ao estabelecer este diálogo entre os dois temas, a intenção do curador
foi também caracterizar o ato de pedir e agradecer por graças conseguidas como uma forma
de superar condições impostas pela luta contra a desigualdade: "O privilégio e a
impunidade de poucos são as formas mais vis de agressão ao próximo", diz.
Entre as exposições individuais imperdíveis, estão a mostra do
fotógrafo paraense Luiz Braga, Desenhos do Olhar; a do paulista Kenji Ota, que retoma os
antigos processos de impressão, muitos lembrando imagens rupestres; e a de Haruo Ohara,
um dos pioneiros da imigração japonesa no Paraná. Ohara chegou ao Brasil em 1927 e foi
trabalhar nas lavouras de café de Londrina. Apaixonado por fotografia, nos anos 50,
participou ativamente do Fotoclube de Londrina. Ele morreu, em agosto do ano passado, aos
89 anos.
Um exemplo da fotografia contemporânea está na exposição Linguagem da
Imagem, que reúne trabalhos de fotógrafos e artistas plásticos que usam a fotografia
para experiências de linguagem, como Odires Mlászho, Arnaldo Pappalardo, Alex Flemming,
Vick Muniz, Iatã Cannabrava, Rosângela Rennó, entre outros.
Dentre os países estrangeiros participantes, mais uma vez, é Portugal
que aparece com mais força. Destaque para a exposição Suave Violência, Ocultação do
Caos, com imagens de Domingos Alvão sobre o período salazarista. A mostra pertence ao
acervo do Centro Português de Fotografia, localizado no Porto e dirigido por Tereza Siza;
ainda de Portugal, chegam os trabalhos de Manuel José Magalhães, na exposição Mar, com
22 fotografias, cada uma delas constituindo um único original aquarelado; Navio Escola de
Sagres é a exposição da fotógrafa italiana Giorgia Fiorio, um ensaio sobre o cotidiano
dos marinheiros a bordo do Sagres, o navio-escola da marinha portuguesa. Durante
três meses - de maio a julho de 1999 - Giorgia acompanhou o dia-a-dia dos marujos.
Completando a participação lusitana, Rui Prata, diretor dos Encontros da
Imagem de Braga, selecionou 248 imagens colhidas pelos mais diversos fotógrafos - muitos
deles anônimos - que contam sete décadas da história de Portugal. O Estado do Tempo é
uma painel dos fatos e histórias, dos valores e dos ânimos do povo português.
Da Itália, chega a mostra Neo-Realismo na Fotografia Italiana, que reúne
os trabalhos de alguns dos mais conceituados e conhecidos fotógrafos do País, como Mario
de Biasi, Mario Giacomelli, Pietro Donzelli, Franco Pinna e Fulvio Roiter. O conceito de
neo-realismo surge no cinema italiano, nos primeiros anos pós-guerra. Cineastas como
Vitorio De Sicca e Roberto Rosselini tentam acompanhar o renascer de um país brutalizado
pela guerra. A fotografia documentou o movimento e também registrou o renascer italiano.
Do Equador, chama a atenção o trabalho da fotógrafa e socióloga Lúcia
Chiriboga, que procura mostrar as condições de culturas constantemente submetidas à
espoliação.
Para refletir sobre e costurar os temas que dirigem o encontro, no dia 9 de outubro
será realizado um debate sobre o universo da fotografia autoral, com a participação do
curador da Bienal, Orlando Azevedo, de Rui Prata, dos Encontros da Imagem de Braga
(Portugal), Fábio Magalhães, presidente da Fundação Memorial da América Latina e
Tereza Siza, diretora do Centro Português de Fotografia. (SIMONETTA PERSICHETTI, AE)