Retornar ao índice ItaliaOggi

Notizie d'Italia

 

Design: nova geração de profissionais na feira de Verona

25/09/2000

 

 

 Uma dezena de trabalhos brasileiros será exposta na 15ª Feira internacional de móveis e decoração de Verona Abitare il Tempo, em outubro.

   Os italianos são os campeões do design, mas não ficam deitados nos louros de sua competência. Buscam a interação com outras culturas.

   O grupo brasileiro será encabeçado por dois dos mais importantes designers brasileiros da atualidade, os irmãos Humberto e Fernando Campana, de São Paulo. Ele reúne os alunos de ambos, que evoluíram de um curso livre de seis meses dado na FAAP para um trabalho continuado de quase dois anos. Os objetos serão expostos numa mostra chamada Design Beyond Italy, que reunirá designers de outros países. "A reciclagem de formas é permanente na Itália, onde nada é descartado, nada é deixado de lado", diz Humberto Campana. No Brasil, ao contrário, ainda há um longo caminho a percorrer para que se aproxime o design de ponta, inovador, da produção seriada da indústria.

   Humberto, advogado de formação e artista plástico por vocação, e Fernando, arquiteto, só agora estão prestes a lançar uma coleção de louças sanitárias, projetada sob encomenda da Celite. Vão também colocar no mercado, pela grife de roupas M. Officer, uma cadeira com estrutura de aço e assento moldado em papelão e resina.

   Algumas de suas peças, contudo, só chegam a lojas brasileiras se forem importadas da Itália, ou dos EUA. É o caso, por exemplo, de um abajur feito com uma tela antiderrapante usada para dar aderência a tapetes. O insumo, produzido em Curitiba, viaja até a Itália e volta em forma de peça pronta, com assinatura italiana. É o caso também da premiada mesa de centro inflável, patenteada e produzida nos EUA pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa). Há dois anos, os Campana e outros designers e arquitetos expuseram em Nova York, na primeira mostra brasileira organizada pelo MoMa desde a exposição de Oscar Niemeyer nos anos 50. 

Aproximação

   "Evoluímos e a indústria brasileira também está evoluindo", diz Humberto, ao descrever o movimento de aproximação entre as duas pontas. "Nossa primeira coleção de móveis, em 1989, era mais conceitual, desconfortável e ficamos taxados de experimentalistas", reconhece. "Para criar as louças da Celite, fomos à fábrica, discutimos as possibilidades técnicas e o objetivo da empresa no mercado", informa. "Queremos produzir num universo maior e não só trabalhar no plano escultórico e onírico", afirma.

   A produção dos irmãos Campana está muito longe de ser o padrão na indústria moveleira do País, mas faz parte de um movimento consistente. "Ainda estamos absorvendo o que os países de ponta produzem, mas o hiato está diminuindo", diz a professora Suzana Padovano. A evolução acontece com mais intensidade nos pólos de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, e São Bento do Sul, em Santa Catarina, que respondem por mais de 80% das exportações brasileiras de móveis. Embora produzindo majoritariamente por encomenda de importadores, várias empresas já tentam desenvolver marca e design próprios.

   A abertura da economia nesta década permitiu a atualização tecnológica desses pólos, que fizeram investimentos na importação de máquinas italianas e alemãs e também aplicaram recursos em design. Com o surgimento de novos materiais -- como o MDF, que são placas de madeira aglomerada de alta resistência -, a utilização de madeiras da Amazônia, certificadas pelo Ibama, madeiras renováveis (eucalipto e pinheiro) e uma crescente integração entre centros de pesquisa e indústria, ocorre uma progressão constante, que se expressa no rápido crescimento das exportações desde o ano passado. O Promóvel, programa setorial impulsionado pela Abimóvel, estabelece como meta elevar as exportações para US$ 2,5 bilhões, em 2004.

Identidade

   "O mundo é comprador de design e o que é bom vende mesmo", diz Eduardo Lima, da Abimóvel. "Nossas exportações se concentram em países da América do Sul, África, América Central e a parte latina dos EUA porque o padrão do móvel brasileiro ainda é uma cópia do design italiano de dez anos atrás", explica. Fica difícil competir - seja com a agressividade e versatilidade italiana, seja com a alta escala de Taiwan, que se especializou em produzir sob encomenda e, sem design próprio, faz do preço e da qualidade o diferencial competitivo. A Itália vende US$ 16 bilhões por ano e Taiwan, quatro vezes mais que o Brasil.

   Não há, neste terreno, tempo a perder. A rápida integração dos mercados e a velocidade com que a informação corre o mundo encurtam distâncias. "Há dez anos, a Austrália não era nada em design de mobiliário e hoje já é uma força que conta", cita Fernando Campana. O mesmo aconteceu em Barcelona e Bilbao, na Espanha. O design também se firma em países como Portugal e Coréia.

   Os anos de mercado protegido e inflação alta travaram o design de produtos no País. "Há pouco mais de cinco anos, muita indústria ainda confundia design com brilho", diz Eduardo Lima. Na ponta da cadeia, o Brasil sempre teve uma tradição criadora. Desde a revolução modernista dos anos 20 e 30 conduzida por, entre outros, Gregori Warchavchik; os anos 40, com Joaquim Tenreiro; as décadas de 40 a 60, Paulo Mendes Rocha, Lina Bo Bardi e Sérgio Rodrigues, e, a partir dos anos 70 e 80, Maurício Azeredo e os irmãos Campana, muitos vêm escrevendo a história do design no Brasil. Mesmo que nem sempre ele estivesse integrado à produção em série.

   "Nossa formação multicultural está voltando a aflorar", acredita Fernando Campana. "Não temos a tradição milenar européia, mas nossos 500 anos de história produziram uma leveza, ironia e falta de pudor que nos diferencia."

   Agora, diz ele, com a estabilidade econômica, as pessoas podem voltar a planejar e a desenvolver com mais tranqüilidade sua identidade cultural. "O renascimento do cinema brasileiro é um bom exemplo disso", cita. Na mostra de Verona, é um pedaço desse multiculturalismo que estará exposto. E ele tem boas chances de avolumar-se e disseminar-se no Brasil. Dentro das casas, nas roupas e nos costumes de camadas mais amplas da população. (E.M.O, AE)


Para saber mais sobre:

powered by FreeFind

Publicidade

Pesquise no Site ou Web

Google
Web ItaliaOggi

Notizie d'Italia | Gastronomia | Migrazioni | Cidadania | Home ItaliaOggi