Uma dezena de trabalhos
brasileiros será exposta na 15ª Feira internacional de móveis e decoração de Verona
Abitare il Tempo, em outubro.
Os italianos são os campeões do design, mas não ficam deitados nos
louros de sua competência. Buscam a interação com outras culturas.
O grupo brasileiro será encabeçado por dois dos mais importantes
designers brasileiros da atualidade, os irmãos Humberto e Fernando Campana, de São
Paulo. Ele reúne os alunos de ambos, que evoluíram de um curso livre de seis meses dado
na FAAP para um trabalho continuado de quase dois anos. Os objetos serão expostos numa
mostra chamada Design Beyond Italy, que reunirá designers de outros países. "A
reciclagem de formas é permanente na Itália, onde nada é descartado, nada é deixado de
lado", diz Humberto Campana. No Brasil, ao contrário, ainda há um longo caminho a
percorrer para que se aproxime o design de ponta, inovador, da produção seriada da
indústria.
Humberto, advogado de formação e artista plástico por vocação, e
Fernando, arquiteto, só agora estão prestes a lançar uma coleção de louças
sanitárias, projetada sob encomenda da Celite. Vão também colocar no mercado, pela
grife de roupas M. Officer, uma cadeira com estrutura de aço e assento moldado em
papelão e resina.
Algumas de suas peças, contudo, só chegam a lojas brasileiras se forem
importadas da Itália, ou dos EUA. É o caso, por exemplo, de um abajur feito com uma tela
antiderrapante usada para dar aderência a tapetes. O insumo, produzido em Curitiba, viaja
até a Itália e volta em forma de peça pronta, com assinatura italiana. É o caso
também da premiada mesa de centro inflável, patenteada e produzida nos EUA pelo Museu de
Arte Moderna de Nova York (MoMa). Há dois anos, os Campana e outros designers e
arquitetos expuseram em Nova York, na primeira mostra brasileira organizada pelo MoMa
desde a exposição de Oscar Niemeyer nos anos 50.
Aproximação
"Evoluímos e a indústria brasileira também está evoluindo",
diz Humberto, ao descrever o movimento de aproximação entre as duas pontas. "Nossa
primeira coleção de móveis, em 1989, era mais conceitual, desconfortável e ficamos
taxados de experimentalistas", reconhece. "Para criar as louças da Celite,
fomos à fábrica, discutimos as possibilidades técnicas e o objetivo da empresa no
mercado", informa. "Queremos produzir num universo maior e não só trabalhar no
plano escultórico e onírico", afirma.
A produção dos irmãos Campana está muito longe de ser o padrão na
indústria moveleira do País, mas faz parte de um movimento consistente. "Ainda
estamos absorvendo o que os países de ponta produzem, mas o hiato está diminuindo",
diz a professora Suzana Padovano. A evolução acontece com mais intensidade nos pólos de
Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, e São Bento do Sul, em Santa Catarina, que
respondem por mais de 80% das exportações brasileiras de móveis. Embora produzindo
majoritariamente por encomenda de importadores, várias empresas já tentam desenvolver
marca e design próprios.
A abertura da economia nesta década permitiu a atualização tecnológica
desses pólos, que fizeram investimentos na importação de máquinas italianas e alemãs
e também aplicaram recursos em design. Com o surgimento de novos materiais -- como o MDF,
que são placas de madeira aglomerada de alta resistência -, a utilização de madeiras
da Amazônia, certificadas pelo Ibama, madeiras renováveis (eucalipto e pinheiro) e uma
crescente integração entre centros de pesquisa e indústria, ocorre uma progressão
constante, que se expressa no rápido crescimento das exportações desde o ano passado. O
Promóvel, programa setorial impulsionado pela Abimóvel, estabelece como meta elevar as
exportações para US$ 2,5 bilhões, em 2004.
Identidade
"O mundo é comprador de design e o que é bom vende mesmo", diz
Eduardo Lima, da Abimóvel. "Nossas exportações se concentram em países da
América do Sul, África, América Central e a parte latina dos EUA porque o padrão do
móvel brasileiro ainda é uma cópia do design italiano de dez anos atrás",
explica. Fica difícil competir - seja com a agressividade e versatilidade italiana, seja
com a alta escala de Taiwan, que se especializou em produzir sob encomenda e, sem design
próprio, faz do preço e da qualidade o diferencial competitivo. A Itália vende US$ 16
bilhões por ano e Taiwan, quatro vezes mais que o Brasil.
Não há, neste terreno, tempo a perder. A rápida integração dos
mercados e a velocidade com que a informação corre o mundo encurtam distâncias.
"Há dez anos, a Austrália não era nada em design de mobiliário e hoje já é uma
força que conta", cita Fernando Campana. O mesmo aconteceu em Barcelona e Bilbao, na
Espanha. O design também se firma em países como Portugal e Coréia.
Os anos de mercado protegido e inflação alta travaram o design de
produtos no País. "Há pouco mais de cinco anos, muita indústria ainda confundia
design com brilho", diz Eduardo Lima. Na ponta da cadeia, o Brasil sempre teve uma
tradição criadora. Desde a revolução modernista dos anos 20 e 30 conduzida por, entre
outros, Gregori Warchavchik; os anos 40, com Joaquim Tenreiro; as décadas de 40 a 60,
Paulo Mendes Rocha, Lina Bo Bardi e Sérgio Rodrigues, e, a partir dos anos 70 e 80,
Maurício Azeredo e os irmãos Campana, muitos vêm escrevendo a história do design no
Brasil. Mesmo que nem sempre ele estivesse integrado à produção em série.
"Nossa formação multicultural está voltando a aflorar",
acredita Fernando Campana. "Não temos a tradição milenar européia, mas nossos 500
anos de história produziram uma leveza, ironia e falta de pudor que nos diferencia."
Agora, diz ele, com a estabilidade econômica, as pessoas podem voltar a
planejar e a desenvolver com mais tranqüilidade sua identidade cultural. "O
renascimento do cinema brasileiro é um bom exemplo disso", cita. Na mostra de
Verona, é um pedaço desse multiculturalismo que estará exposto. E ele tem boas chances
de avolumar-se e disseminar-se no Brasil. Dentro das casas, nas roupas e nos costumes de
camadas mais amplas da população. (E.M.O, AE)