Giuseppe Garibaldi, o "herói de dois mundos",
contou a seu amigo Alexandre Dumas suas peripécias guerreiras nas fileiras gaúchas da
Revolução Farroupilha (1835-1845). E o resultado foi "Memórias de Garibaldi",
que a editora L&PM acaba de relançar.
A edição pode ser considerada um lançamento, já que em junho de 98 o livro saiu em
edição limitada e só no mercado gaúcho. Na esteira da biografia de Garibaldi, Dumas
(1802-1870) descreve a geografia do Rio Grande do Sul e as características das pessoas.
A partir de conversas entre os dois,
no final de 1860, em Paris, o autor mostra ao leitor as passagens mais
intimistas de vivência gaúcha de Garibaldi. Como quando conheceu a
catarinense Anita Maria Ribeiro, que se tornaria Anita Garibaldi
(1821-1849).
"(...) Oh, bela moça do continente americano! Enobreceste-me e fui
feliz por pertencer-te, do modo que se fez possível, em pensamento. Estavas prometida e
devias pertencer a um outro, ao passo que o destino reservava-me esta outra flor do
Brasil, essa que hoje choro e chorarei durante toda a minha vida, doce mãe dos meus
filhos! Essa, eu a conheci não na vitória, mas na adversidade e no naufrágio. Bem mais
que a minha juventude, que a minha aparência ou que os meus méritos, foram as minhas
dores que a uniram a mim, pela vida. Anita! Querida Anita!"
Antes de Anita, o herói se apaixonara por Manoela, prometida a um filho de
Bento Gonçalves (1788-1847), líder da Revolução Farroupilha e presidente da República
Rio-Grandense. ''As mulheres do Rio Grande são geralmente lindíssimas'', comentou, pela
pena de Dumas.
Garibaldi (1807-1882) nasceu em Nice, cidade que pertencia ao reino da
Sardenha. Em 1832, participou de movimentos pela reunificação italiana. Foi preso e
fugiu para a América do Sul.
Sua participação na Revolução Farroupilha ocorreu entre 1837 e 1841.
Depois, voltou à Itália e se consagrou como "herói de dois mundos" na
unificação do país.
A introdução do livro, em que é relatada a situação política da Itália
na época, é o ponto mais cansativo. Ao entrar na vida de Garibaldi, o texto flui.
Dizendo-se soldado da causa republicana, Garibaldi exagera em algumas
descrições do RS.
"Assim, chegamos a Piratini, a sede do governo do Rio Grande. A capital,
de fato, era Porto Alegre, mas, estando esta sob controle imperial, a República
transferira-se para Piratini, sem dúvida uma das mais belas povoações do mundo, com as
suas duas regiões, a das planícies e a das montanhas".
Em seguida, há algumas imprecisões: "A região das planícies é
absolutamente tropical. A banana, a cana-de-açúcar e a laranja são as suas culturas
(...)". "A região das montanhas tem o clima agradável, como o meu clima de
Nice. Nela, colhem-se o pêssego, a pêra, a ameixa, todas as frutas da Europa. Lá
crescem aqueles magníficos bosques, dos quais nenhuma literatura jamais dará a exata
descrição."
Piratini (340 km de Porto Alegre), na verdade, não poderia ser um paraíso
tropical. Mais adiante, Garibaldi descreve o chimarrão dizendo que ele é tomado com um
''canudo de vidro ou de pau'' (a bomba é de metal ou prata).
Na volta ao velho mundo o herói leva sua definição do gaúcho: "um
centauro". (Léo Gerchmann, AF)
Serviço
Livro:
Memórias de Garibaldi
Autor: Alexandre Dumas
Tradução: Antonio Caruccio-Caporale
Editora: L&PM
Quanto: R$ 12 (355 págs.)