Parece não ter mais fim o
escândalo que envolve jogadores brasileiros e a máfia portuguesa que vem
fornecendo passaportes falsos para garantir a entrada de estrangeiros no
futebol europeu, na condição de "comunitários".
Ontem, foi a vez de o Vicenza - time da Segunda Divisão italiana - pedir
à Liga de Clubes Profissionais do país para desclassificar a dupla Jeda e Dedé da lista
de "comunitários". A polícia da cidade concluiu que a documentação dos
atletas, que no Brasil jogavam no Campinas, time do ex-atacante Careca, também é
irregular.
Jeda tem chances de permanecer na equipe, mas agora como estrangeiro. No
caso de Dedé, o provável é que ele retorne ao Brasil para defender novamente o
Campinas. Segundo o diretor Rinaldo Sagramola, "não é intenção do clube fazer
qualquer discriminação entre os dois brasileiros, mas como já possui quatro atletas da
Comunidade Européia e o limite é cinco, um deles tinha de sair".
Jeda e Dedé, de acordo com informações da Embaixada de Portugal na
Itália, estavam utilizando passaportes pertencentes a um lote roubado e, posteriormente,
falsificados. O mesmo aconteceu com Warley, Alberto e Jorginho, que atuavam na Udinese. Os
dois primeiros são empresariados pelo uruguaio Juan Figer - agente Fifa e que atua no
Brasil há mais de 30 anos - e foram os primeiros descobertos.
Ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Varsóvia, para disputar uma
partida contra o time local, pela Uefa, Warley e Alberto tiveram seus documentos retidos
pela polícia aduaneira sob suspeita de falsificação.
Dias depois, a direção da Udinese decidiu enviar à polícia de Udine a
papelada de todos os seus estrangeiros. Aí confirmou-se a suspeita e, também,
descobriu-se a mesma irregularidade no passaporte de Jorginho, ex-Palmeiras e que deve
retornar ao País para jogar no Vasco. O paraguaio Alejandro Da Silva foi flagrado na
mesma condição.
Enquanto as autoridades italianas se espantam com a ação da máfia
portuguesa e intensificam as investigações, no Brasil acontece o contrário. Em São
Paulo, a Polícia Federal informa que nada pode fazer porque o documento não foi usado em
território nacional.
Aqui, nenhuma atitude
No Consulado Italiano em São Paulo, nenhuma ação. O máximo de
envolvimento até agora é dar andamento ao pedido de visto temporário de trabalho feito
pelo lateral Alberto. "É o que nos cabe executar", disse o chanceler Tierpaolo
Savio. Para ele, os incidentes não devem interferir no relacionamento diplomático entre
os dois países, mas vai causar constrangimentos para os brasileiros na Itália.
"Eles vão ser vistos com outros olhos. Afinal, estavam usando documento falso",
afirmou.
Na mesma linha, o empresário Juan Figer garante não ter ligação com os
episódios, inclusive os que envolveram Warley e Alberto. Na hora de explicar a difícil
equação - ser contratado para cuidar da vida burocrática do atleta e não tratar da
feitura de seu passaporte estrangeiro -, Figer declara que não participou e não tem
conhecimento do processo. Recentemente, ele também não soube esclarecer a origem da
documentação do corintiano Edu, considerada falsa pelos ingleses e que impediu sua
transferência para o Arsenal. (Crislaine Neves, JT)