A China alimentou hoje a
fogueira de desentendimentos com o Vaticano a respeito dos mártires
chineses, afirmando que a Santa Sé deveria se "arrepender" dos crimes
cometidos contra o povo chinês.
"O Vaticano deveria se arrepender dos crimes cometidos contra o povo
chinês por missionários ao invés de permitir que certas pessoas da Santa Sé adulterem
a história e enganem o mundo sob o disfarce do termo canonização", afirmaram por
meio de um comunicado dois grupos cristãos associados ao governo comunista.
Segundo os grupos, as 120 pessoas que devem ser canonizadas pelo papa João
Paulo 2º no próximo domingo (1) eram culpadas de "graves crimes contra o povo
chinês".
O pronunciamento se seguiu a comentários duros feitos por um jornal e pela
chancelaria chinesa, para quem aqueles que seriam canonizados mereciam morrer.
Segundo o Diário do Povo, as igrejas oficiais eram necessárias para evitar
que se repetisse a amarga experiência da dominação estrangeira.
O comentário faz parte da guerra de palavras com o Vaticano devido ao
anúncio da canonização de 120 mártires chineses no dia 1º de outubro, quando a China
comemora a subida dos comunistas ao poder.
Segundo o Vaticano, a escolha da data obedeceu a motivos puramente
religiosos. No domingo (1), celebra-se o dia de Santa Teresa de Lisieux, padroeira das
missões.
Ontem, Sun Yuxi, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China,
afirmou que a maior parte das pessoas que seriam canonizadas eram agentes do imperialismo
ocidental. (Reuters)
Papa canonizará 120 religiosos da China, apesar dos protestos
O papa João Paulo 2 canonizará domingo 120 religiosos,
entre eles missionários europeus e cidadãos chineses, vítimas das perseguições
anti-religiosas na China entre 1648 e 1930, o que provocou fortes protestos por parte do
Governo de Pequim.
Vaticano e China se acusam mutuamente de uma interpretação equivocada da
história, ao referir-se à canonização, que se celebrará no mesmo dia em que se
comemora o 51° aniversário da proclamação do regime comunista por Mao-Tse-Tung.
Para as autoridades chinesas, trata-se de uma "afronta" por parte
do Vaticano e de uma espécie de resposta à consagração em janeiro de numerosos bispos
da igreja "patriótica", a igreja oficial chinesa, que tem sido um dos pomos da
discórdia entre as duas partes.
"Não há nenhuma vontade de parte da Santa Sé de atribuir um
significado político ou diplomático às canonizações nem à data escolhida",
afirmou o Vaticano, acrescentando que nesse dia se comemora "Santa Teresa de Lisieux,
padroeira dos missionários".
A chamada igreja patriótica conta com cerca de 4 milhões de fiéis. A
igreja clandestina ou do "silêncio", perseguida por sua fidelidade ao papa, é
formada por cerca de 10 milhões de membros.
Na cerimônia de canonização, que se realizará na Praça de São Pedro,
estarão presentes aproximadamente 3.500 católicos chineses provenientes da Europa,
Estados Unidos, Taiwán, e inclusive a China continental, segundo o capelão dos chineses
em Roma, Giovanni Qiu. (France Presse)