Retornar ao índice ItaliaOggi

Notizie d'Italia

 

Escola de gladiadores quer reviver passado romano

28/09/2000

 

 

Roma - A primeira lição na escola de gladiadores da Sociedade Histórica Romana enfatizou a disciplina. ``Você são escravos e é desta maneira que os tratarei'', vociferou Giuseppe Coluzzi, 32, contra os oitos adultos inquietos em curtas togas brancas.

   Coluzzi, que usa o nome ``Korakos'' na arena, lançou um olhar fixo e gélido contra eles. Usando a frase latina para ``Salve, professor'', ele disse: ``Vocês irão se dirigir a mim dizendo `Ave, magister' e nunca usarão suas espadas fora da arena ou sem a presença de um magister''.

   Alguns deles sufocaram um riso, mas a maioria dos cinco homens e três mulheres que se registraram na semana passada para aprender como lutar até a morte, ouviu as duas horas de história dos gladiadores e teoria do combate (dois pontos para um golpe no tórax) mergulhados em êxtase.

   ``Sempre fui um entusiasta da história romana, mas quero revivê-la mais intensamente'', explicou Giuseppe Pecorelli, 51, um funcionário de uma corporação multinacional alemã enquanto vergava ansiosamente a espada de madeira de adestramento. ``Uma coisa é ler histórias ou poesia romana. Quero entrar em contato com meu lado guerreiro''.

   A Sociedade Histórica Romana, que tem cerca de 100 membros, foi fundada em 1994 e está convenientemente situada na Via Appia Antica, a antiga Estrada Ápia, a estrada onde, segundo a lenda, S. Pedro teria visto uma aparição de Cristo e perguntado: ``Quo vadis, Domine?'' (``Para onde vais, senhor?'')

   A sociedade tem um Web site (digilander.iol.it/sergioiac/), uma sede e um pátio entulhado de elmos, escudos, lanças, redes, catapultas e outros acessórios marciais. Os membros dedicam a maior parte de seu tempo encenando ações e batalhas romanas para espetáculos históricos e feiras da cidade. Mas a sociedade, que há muito tempo esperava inaugurar uma escola de gladiadores, aproveitou uma carona no sucesso de verão de Hollywood, ``Gladiador'', estrelado por Russell Crowe, para começar a oferecer aulas este mês.

   E esses entusiastas da história romana, ao contrário de muitos classicistas na Itália e Estados Unidos, não se preocupam com ninharias e, portanto, não reclamam das liberdades que os roteiristas do ``Gladiador'' tomaram ao reescrever a história da Roma antiga.

   ``O filme foi excelente'', afirmou Korakos num tom de desafio. O treinador, cujo emprego diurno o faz imprimir cédulas da moeda Euro para o Banco da Itália, disse que tinha assistido ao ``Gladiador'' quatro vezes.

   Mas nem todos os novos alunos, que pagaram US$ 100 por um curso de dois meses, disseram que tinham sido atraídos à escola de gladiadores por causa do filme. Treinando para a divisão feminina ``Amazona'', Patricia Mincone, 29, que trabalha em um hospital, disse que nunca seria influenciada por Hollywood.

   ``Estava procurando por uma malhação que não fosse a rotina típica - tênis, aeróbica, as coisas que todo mundo faz'', disse ela. Uma mulher alta com braços e pernas musculosos, Mincone tinha o jeito de quem conseguiria facilmente golpear com um punhal, clava ou arpão qualquer um de seus colegas novatos.

   Mas a escola de gladiadores não aprova derramamento de sangue de verdade. A escola ensina aos alunos principalmente como coreografar um combate (quatro seqüências, seis golpes por seqüência), tanto para saborear a brutalidade simulada quanto para, no final, executar um combate de gladiadores do modo como era feito no Coliseu mais de 2.000 anos atrás.

   Ao contrário dos entusiastas da Guerra Civil Americana que representam rigorosamente a Batalha de Gettysburg ou Manassas, os italianos não são conhecidos por uma obsessão pelas vestimentas e por reviver guerras passadas. A história um tanto concisa das modernas vitórias em campo de batalha da Itália poderia ser um dos motivos.

   Outro é que os italianos já têm uma tradição secular de representações religiosas -representações teatrais de fundo histórico e procissões em que cidades inteiras se produzem para recriar passagens favoritas da Bíblia ou a vida de um santo. Toda Páscoa desde o século 17, a cidade de Sezze, na região central da Itália, encena seu Teatro da Paixão, uma representação da jornada torturante até à cruz na Sexta-feira da Paixão. Até 700 moradores participam, representando os diferentes papéis de Maria, Pôncio Pilatos e os malvados soldados romanos de peito desnudo que açoitam escravos hebreus acorrentados à medida que a procissão passa pelas ruas.

   Algumas vezes, contudo, mesmo os teatros religiosos históricos produzem a antiga brutalidade de alguns atores. Alguns anos atrás em Sezze, alguns jovens atores amadores se afastaram e inadvertidamente açoitaram membros da platéia. Eles foram banidos de futuras paradas até a última Páscoa, quando Sezze levou a sua procissão da Sexta- feira Santa para a procissão de S. Pedro em Roma para o Ano Santo.

   A escola de gladiadores parece agradar os italianos ávidos por redescobrir suas raízes pagãs. ``Somos os descendentes dos antigos romanos e, portanto, nós, entre todos os povos, devemos explorar nosso passado'', disse Lia Cinque, 44, uma dona-de-casa que é casada com Pecorelli. Suspirando, ela disse que seu filho de 24 anos também era um entusiasta da história, mas em um ato de rebelião filial, ele se associou a um grupo cujos membros se vestem como guerreiros de clãs escoceses.

   Cinque explicou que ela mesma não estava interessada no treinamento para gladiador e passou boa parte da aula enterrada em um romance histórico que se passa na antigüidade, ``Neropolis'' de Hubert Monteilhet.

   Um pouco como os entusiastas da história inglesa que culpam Shakespeare por difamar a reputação de Ricardo 3º, os membros de longa data da Sociedade Histórica Romana acham que Tácito e outros julgaram Nero de uma maneira errônea e grosseira.

   Sergio Iacomoni, 47, que assumiu o nome de Nero quando foi eleito presidente da sociedade, presidiu a aula em uma túnica de corpo inteiro adornada com ouro. Regiamente afável com os novos recrutas, ainda assim ele se ofendeu com a sugestão de que seu modelo de papel imperial era o de um louco sedento de sangue. ``Nero não estava nem perto de Roma quando os incêndios começaram'', disse rispidamente, referindo-se à lenda de que Nero estaria tocando harpa enquanto Roma ardia em chamas.

   Iacomoni comentou que muitos historiadores têm uma visão mais revisionista de Nero, mas talvez numa representação da megalomania de seu predecessor, ele acrescentou rapidamente: ``Naturalmente, fui o primeiro, mas agora existem outros que também defendem Nero''. (Alessandra Stanley, The New York Times. Tradução: UOL/Vera de Paula Assis)


Para saber mais sobre:

powered by FreeFind

Publicidade

Pesquise no Site ou Web

Google
Web ItaliaOggi

Notizie d'Italia | Gastronomia | Migrazioni | Cidadania | Home ItaliaOggi