Roma - A primeira lição na escola de
gladiadores da Sociedade Histórica Romana enfatizou a disciplina. ``Você são escravos e
é desta maneira que os tratarei'', vociferou Giuseppe Coluzzi, 32, contra os oitos
adultos inquietos em curtas togas brancas.
Coluzzi, que usa o nome ``Korakos'' na arena, lançou um olhar fixo e
gélido contra eles. Usando a frase latina para ``Salve, professor'', ele disse: ``Vocês
irão se dirigir a mim dizendo `Ave, magister' e nunca usarão suas espadas fora da arena
ou sem a presença de um magister''.
Alguns deles sufocaram um riso, mas a maioria dos cinco homens e três
mulheres que se registraram na semana passada para aprender como lutar até a morte, ouviu
as duas horas de história dos gladiadores e teoria do combate (dois pontos para um golpe
no tórax) mergulhados em êxtase.
``Sempre fui um entusiasta da história romana, mas quero revivê-la mais
intensamente'', explicou Giuseppe Pecorelli, 51, um funcionário de uma corporação
multinacional alemã enquanto vergava ansiosamente a espada de madeira de adestramento.
``Uma coisa é ler histórias ou poesia romana. Quero entrar em contato com meu lado
guerreiro''.
A Sociedade Histórica Romana, que tem cerca de 100 membros, foi fundada
em 1994 e está convenientemente situada na Via Appia Antica, a antiga Estrada Ápia, a
estrada onde, segundo a lenda, S. Pedro teria visto uma aparição de Cristo e perguntado:
``Quo vadis, Domine?'' (``Para onde vais, senhor?'')
A sociedade tem um Web site (digilander.iol.it/sergioiac/), uma sede e um
pátio entulhado de elmos, escudos, lanças, redes, catapultas e outros acessórios
marciais. Os membros dedicam a maior parte de seu tempo encenando ações e batalhas
romanas para espetáculos históricos e feiras da cidade. Mas a sociedade, que há muito
tempo esperava inaugurar uma escola de gladiadores, aproveitou uma carona no sucesso de
verão de Hollywood, ``Gladiador'', estrelado por Russell Crowe, para começar a oferecer
aulas este mês.
E esses entusiastas da história romana, ao contrário de muitos
classicistas na Itália e Estados Unidos, não se preocupam com ninharias e, portanto,
não reclamam das liberdades que os roteiristas do ``Gladiador'' tomaram ao reescrever a
história da Roma antiga.
``O filme foi excelente'', afirmou Korakos num tom de desafio. O
treinador, cujo emprego diurno o faz imprimir cédulas da moeda Euro para o Banco da
Itália, disse que tinha assistido ao ``Gladiador'' quatro vezes.
Mas nem todos os novos alunos, que pagaram US$ 100 por um curso de dois
meses, disseram que tinham sido atraídos à escola de gladiadores por causa do filme.
Treinando para a divisão feminina ``Amazona'', Patricia Mincone, 29, que trabalha em um
hospital, disse que nunca seria influenciada por Hollywood.
``Estava procurando por uma malhação que não fosse a rotina típica -
tênis, aeróbica, as coisas que todo mundo faz'', disse ela. Uma mulher alta com braços
e pernas musculosos, Mincone tinha o jeito de quem conseguiria facilmente golpear com um
punhal, clava ou arpão qualquer um de seus colegas novatos.
Mas a escola de gladiadores não aprova derramamento de sangue de verdade.
A escola ensina aos alunos principalmente como coreografar um combate (quatro
seqüências, seis golpes por seqüência), tanto para saborear a brutalidade simulada
quanto para, no final, executar um combate de gladiadores do modo como era feito no
Coliseu mais de 2.000 anos atrás.
Ao contrário dos entusiastas da Guerra Civil Americana que representam
rigorosamente a Batalha de Gettysburg ou Manassas, os italianos não são conhecidos por
uma obsessão pelas vestimentas e por reviver guerras passadas. A história um tanto
concisa das modernas vitórias em campo de batalha da Itália poderia ser um dos motivos.
Outro é que os italianos já têm uma tradição secular de
representações religiosas -representações teatrais de fundo histórico e procissões
em que cidades inteiras se produzem para recriar passagens favoritas da Bíblia ou a vida
de um santo. Toda Páscoa desde o século 17, a cidade de Sezze, na região central da
Itália, encena seu Teatro da Paixão, uma representação da jornada torturante até à
cruz na Sexta-feira da Paixão. Até 700 moradores participam, representando os diferentes
papéis de Maria, Pôncio Pilatos e os malvados soldados romanos de peito desnudo que
açoitam escravos hebreus acorrentados à medida que a procissão passa pelas ruas.
Algumas vezes, contudo, mesmo os teatros religiosos históricos produzem a
antiga brutalidade de alguns atores. Alguns anos atrás em Sezze, alguns jovens atores
amadores se afastaram e inadvertidamente açoitaram membros da platéia. Eles foram
banidos de futuras paradas até a última Páscoa, quando Sezze levou a sua procissão da
Sexta- feira Santa para a procissão de S. Pedro em Roma para o Ano Santo.
A escola de gladiadores parece agradar os italianos ávidos por
redescobrir suas raízes pagãs. ``Somos os descendentes dos antigos romanos e, portanto,
nós, entre todos os povos, devemos explorar nosso passado'', disse Lia Cinque, 44, uma
dona-de-casa que é casada com Pecorelli. Suspirando, ela disse que seu filho de 24 anos
também era um entusiasta da história, mas em um ato de rebelião filial, ele se associou
a um grupo cujos membros se vestem como guerreiros de clãs escoceses.
Cinque explicou que ela mesma não estava interessada no treinamento para
gladiador e passou boa parte da aula enterrada em um romance histórico que se passa na
antigüidade, ``Neropolis'' de Hubert Monteilhet.
Um pouco como os entusiastas da história inglesa que culpam Shakespeare
por difamar a reputação de Ricardo 3º, os membros de longa data da Sociedade Histórica
Romana acham que Tácito e outros julgaram Nero de uma maneira errônea e grosseira.
Sergio Iacomoni, 47, que assumiu o nome de Nero quando foi eleito
presidente da sociedade, presidiu a aula em uma túnica de corpo inteiro adornada com
ouro. Regiamente afável com os novos recrutas, ainda assim ele se ofendeu com a sugestão
de que seu modelo de papel imperial era o de um louco sedento de sangue. ``Nero não
estava nem perto de Roma quando os incêndios começaram'', disse rispidamente,
referindo-se à lenda de que Nero estaria tocando harpa enquanto Roma ardia em chamas.
Iacomoni comentou que muitos historiadores têm uma visão mais
revisionista de Nero, mas talvez numa representação da megalomania de seu predecessor,
ele acrescentou rapidamente: ``Naturalmente, fui o primeiro, mas agora existem outros que
também defendem Nero''. (Alessandra Stanley, The New York Times. Tradução: UOL/Vera de
Paula Assis)