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Um Dante além da `Divina Comédia'  

28/09/2000

Dante Alighieri

 

Dante Alighieri é daqueles intelectuais que, como Camões, Shakespeare, Goethe e Fernando Pessoa, são unanimidades, exaltados tanto pela crítica especializada quanto pelo leitor comum. Contudo, o excesso de louvaminhas, ao contrário de bem, faz-lhes mal, porque sacraliza certas verdades e axiomas pelos séculos afora, lugares-comuns repetidos à exaustão, em detrimento de uma possível leitura original, reveladora, indagativa, que deveria se constituir naquele prazer intransferível de penetrar-lhes a obra.

Citadíssimos - quando menos porque conferem status acadêmico ao emissor -, são pouco lidos; ou, pior, são reduzidos a alguns chavões que fazem bela impressão numa roda de samba ou em mesa de bar: por exemplo, quem ainda agüenta as glosas ao "to be or not to be" de Shakespeare? Ou às camonianas "armas e barões assinalados"? À "alma vendida" do Fausto? E quanto ao "o mito é o nada que é tudo" de Fernando Pessoa? Se as repetições são inegável sinal do prestígio desses autores, elas também se colocam como barreira à sua porta, numa espécie de efeito perverso da celebridade, como redutoras de juízos de valor que se queriam mais isentos.

   Veja-se o caso de Dante: quantos o conhecem para além da Divina Comédia? E, nela, quantos terão ultrapassado a citação dos versos famosos que iniciam os cantos do Inferno - "A meio caminho desta vida/ achei-me a errar por uma selva escura/ quando a via veraz deixei perdida" - e que fizeram as delícias de místicos e de psicanalistas? Quem sabe da vida do poeta fora das referências a Beatriz? O que significa hoje, mesmo para a comunidade universitária, um texto como o De vulgari eloquentia, que se ergue para a sua época mais ou menos como a Lingüística, de Saussure, para a modernidade?

   As possíveis respostas a estas perguntas podem dar a medida de que nem sempre se fala daquilo que realmente se conhece - constatação lastimável em se tratando dos autores referidos, os quais, como todo artista de primeiro plano, mantêm com a História uma relação centrípeta de síntese do passado, do presente e do futuro.

   O preâmbulo é para dizer que está ao alcance dos interessados, no que tange à produção dantesca, a oportunidade de preencher essas lacunas de formação: o livro que aqui se comenta é uma reedição, melhor apresentada graficamente, de estudo editado pela Brasiliense, em 1986, na pequena coleção "Encanto Radical". Embora seja trabalho de quase 15 anos atrás, retomado sem retoques internos, ele traz pelo menos duas das marcas que fizeram de Hilário Franco Júnior o excelente medievalista hoje nacionalmente conhecido: a arquitetura do conjunto e a precisão da linguagem. No primeiro caso, é pela maneira de se estruturar idéias, informações e pontos-de-vista que mesmo um livro de pequeno formato como esse pode ser de indiscutível utilidade; no segundo, quando a sobriedade de expressão significa atenção rigorosa ao objeto em exame, o resultado é um retrato que agrada pela amplitude sugerida em cada pormenor. E nesse quadro não falta certo entusiasmo juvenil, adorável de surpreender porque ausente da sisudez de estilo que tem distinguido os ensaios mais recentes do historiador.

   O Dante aqui focalizado é polissêmico: nos capítulos "o florentino", "o exilado", "o enciclopédico", "o esotérico", "o amante" e "o místico", examinam-se as várias facetas de uma inteligência brilhante, que, tendo vivido apenas 56 anos (1265-1321), pôde refletir sobre questões universais em quase todas as áreas do saber, as quais, transcendendo os limites da Itália e do medievo, colocam-se como perplexidades para o homem de sempre. O interessante no método adotado por Hilário é que circunstâncias biográficas - elas dariam margem a um filme de aventura, e com final nada feliz! - vão-se erguendo da análise das obras, num imbricamento dos mais férteis, porque mostra com nitidez a relação de espelhamento entre a ficção e a realidade.

   Se Beatriz eternizou-se por, na Divina Comédia, ter conduzido Dante através do Paraíso, foi na Vita Nuova que o poeta, em tom confessionalmente apaixonado, desnudou para a posteridade sua alma em conflito, amargando o amor mirífico por uma dama inacessível, que não o quis e que morreu tão jovem; como entender o drama do Dante exilado de sua inesquecível Florença (desde outubro de 1301 até o fim da vida), sem a leitura do Convívio e da Monarchia, onde se traçam os meandros da belicosa política entre guelfos e gibelinos, tendo como pano de fundo a acirrada disputa pelo poder de papas e imperadores? E como não reconhecer que as Rime, reunidas após a morte do poeta, oferecem uma excelente dimensão da variante toscana do amor provençal, talvez com mais contorno de "nacionalidade" do que o fez Guido Cavalcanti, célebre trovador?

   As análises do Dante "esotérico" e do Dante "místico" são modelares em termos de equilíbrio, porque desfazem uma série de lendas sobre as práticas ocultistas a que se teria entregue o florentino. Suas relações com a Ordem dos Templários, com as heresias de cátaros e albigenses, com o hermetismo dos alquimistas, etc, vão sendo mostradas como procedimentos nada ortodoxos e nem mesmo exemplares de convicções arraigadas, mas apenas indícios de que Dante navegou também pela cultura não oficial e pelas crenças populares, com repercussões evidentes na Comédia (veja-se ali, por exemplo, o gosto pela numerologia).

   Do mesmo modo, sua exaltação de Beatriz como uma espécie de imago da Virgem está em perfeita sintonia com a recente revalorização do culto mariano e com os apelos a um modelo de vida beneditinamente ascético, tônicas das reformas por que passava a Igreja no medievo central. Contudo, crítico feroz dessa mesma Igreja, Dante imprimiu sentido pessoalíssimo à sua busca de Deus, cujo esforço de contemplação caminha par e passo com a dolorosa peregrinação a que teve de se submeter por 20 anos, sem Beatriz e sem a terra natal.

   Como em toda obra bem urdida, onde os argumentos vão matematicamente desentranhando de si a conclusão, Hilário encerra com uma avaliação certeira sobre o papel histórico de Dante: "Sua grandeza não vem, como geralmente costuma-se considerar, do fato de ter estado à frente de seu tempo, mas de algo mais difícil: ter sido contemporâneo de si mesmo, ter compreendido a essência e a alma de seu próprio tempo" (p. 122). Além da oportunidade dada aos curiosos de verificar pessoalmente os caminhos que levam a essa constatação, as "indicações de leitura", ao final, arrolam poucos mas preciosos títulos bibliográficos, tematicamente organizados e suficientes para fundamentar a pesquisa de iniciantes ou relembrar trabalhos de veteranos. Manual de aparência modesta, está rigorosamente equipado para servir de "guia" pela "selva oscura" dos maus leitores de Dante Alighieri. (Lênia Márcia Mangelli, JT)

DANTE ALIGHIERI, O POETA DO ABSOLUTO, de Hilário Franco Júnior. Ateliê Editorial, 133 págs., R$ 15,00.


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