ROMA - O terremoto político de ontem na
Itália foi provocado pela transmissão de imagens de atos de pedofilia por duas redes da
televisão estatal - Rai-1 e Rai-3 - em seus telejornais de maior audiência. Na hora do
jantar, os 22 milhões de italianos que se informam pelos noticiários dessas emissoras
foram chocados por cenas de sodomia praticadas por adultos contra crianças dos dois
sexos, de 5 a 10 anos de idade, parte dos três mil videocassetes apreendidos por
policiais e procuradores perto de Nápoles.
Nem os pedidos de desculpas dos diretores dos telejornais, Gad Lerner e
Nino Rizzo Nervo, minutos depois, nem as cartas de demissão que entregaram ontem ao
conselho de administração da Rai abrandaram os mais exaltados. Toda a oposição de
direita e muitos dos líderes da maioria governista não perderam a oportunidade de se
identificar como defensores da moralidade pública, exigindo inclusive a demissão de toda
a alta direção da Rai.
Não ouviram nem mesmo o apelo do porta-voz do papa, Joaquin Navarro-Vals,
para que se evitasse a instrumentalização política dos infortúnios da Rai e fossem
considerados suficientes e muito dignos os pedidos de desculpas. Respondendo ao apelo à
tolerância e à compreensão do porta-voz, Silvio Berlusconi, principal líder da
oposição direitista, considerou "imperdoáveis os erros" de dois telejornais
da mais forte concorrente das três televisões de sua propriedade.
Política
Ontem à noite, a grande discussão em Roma se fazia sobre os destinos dos
diretores, chefes de redações e repórteres e administradores: se eles seriam as novas e
únicas vítimas de uma antiga guerra entre as televisões estatais e as de Berlusconi e
de mais uma campanha eleitoral que só terminará em abril do próximo ano, com a escolha
de um novo primeiro-ministro.
Tudo isso parecia mais importante do que as revelações feitas pelas
reportagens transmitidas pelas duas emissoras sobre os 3 mil videocassetes pornográficos,
que têm crianças como desgraçadas protagonistas, produzidos na Rússia e na Itália,
destinados a um rico e vasto mercado de pedófilos, que hoje seria integrado - segundo os
investigadores - por 50 mil sítios da internet, de consumidores e praticantes da
pedofilia virtual e real.
Conclusões a que magistrados e policiais chegaram após 19 meses de
investigações, durante as quais ouviram 1.629 testemunhos e prenderam 11 pessoas, três
das quais cidadãos russos e oito italianos. Gente que participava de um comércio
realizado pela internet para vender em todo o mundo 20 milhões de vídeos e fotos, muitos
dos quais podem custar de 300 a 500 dólares. Material usado para o turismo sexual, que na
Europa tem a Alemanha e a Itália como países líderes. Os que mais contribuem para a
receita de US$ 4 bilhões que nos últimos cinco anos teria constituído a média anual do
turismo sexual. (Araújo Netto, JB)