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Pedofilia provoca crise na Rai

29/09/2000

 

 

ROMA - O terremoto político de ontem na Itália foi provocado pela transmissão de imagens de atos de pedofilia por duas redes da televisão estatal - Rai-1 e Rai-3 - em seus telejornais de maior audiência. Na hora do jantar, os 22 milhões de italianos que se informam pelos noticiários dessas emissoras foram chocados por cenas de sodomia praticadas por adultos contra crianças dos dois sexos, de 5 a 10 anos de idade, parte dos três mil videocassetes apreendidos por policiais e procuradores perto de Nápoles.

   Nem os pedidos de desculpas dos diretores dos telejornais, Gad Lerner e Nino Rizzo Nervo, minutos depois, nem as cartas de demissão que entregaram ontem ao conselho de administração da Rai abrandaram os mais exaltados. Toda a oposição de direita e muitos dos líderes da maioria governista não perderam a oportunidade de se identificar como defensores da moralidade pública, exigindo inclusive a demissão de toda a alta direção da Rai.

   Não ouviram nem mesmo o apelo do porta-voz do papa, Joaquin Navarro-Vals, para que se evitasse a instrumentalização política dos infortúnios da Rai e fossem considerados suficientes e muito dignos os pedidos de desculpas. Respondendo ao apelo à tolerância e à compreensão do porta-voz, Silvio Berlusconi, principal líder da oposição direitista, considerou "imperdoáveis os erros" de dois telejornais da mais forte concorrente das três televisões de sua propriedade.

Política

   Ontem à noite, a grande discussão em Roma se fazia sobre os destinos dos diretores, chefes de redações e repórteres e administradores: se eles seriam as novas e únicas vítimas de uma antiga guerra entre as televisões estatais e as de Berlusconi e de mais uma campanha eleitoral que só terminará em abril do próximo ano, com a escolha de um novo primeiro-ministro.

   Tudo isso parecia mais importante do que as revelações feitas pelas reportagens transmitidas pelas duas emissoras sobre os 3 mil videocassetes pornográficos, que têm crianças como desgraçadas protagonistas, produzidos na Rússia e na Itália, destinados a um rico e vasto mercado de pedófilos, que hoje seria integrado - segundo os investigadores - por 50 mil sítios da internet, de consumidores e praticantes da pedofilia virtual e real.

   Conclusões a que magistrados e policiais chegaram após 19 meses de investigações, durante as quais ouviram 1.629 testemunhos e prenderam 11 pessoas, três das quais cidadãos russos e oito italianos. Gente que participava de um comércio realizado pela internet para vender em todo o mundo 20 milhões de vídeos e fotos, muitos dos quais podem custar de 300 a 500 dólares. Material usado para o turismo sexual, que na Europa tem a Alemanha e a Itália como países líderes. Os que mais contribuem para a receita de US$ 4 bilhões que nos últimos cinco anos teria constituído a média anual do turismo sexual. (Araújo Netto, JB)


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