ROMA - Tudo foi feito - por quase todos -
para que jamais se realizasse o processo iniciado ontem no auditório blindado do cárcere
romano de Rebibbia. Nos últimos 20 anos e três meses, o juiz instrutor Rosario Priore
precisou ser muito persistente e paciente para ouvir, pronunciada por um funcionário do
tribunal de Roma, a frase que costuma preceder a abertura de qualquer julgamento nos
tribunais da Itália: "Entra la corte". Processo que na melhor das
hipóteses poderá ser a hora da meia-verdade sobre a morte trágica de 81 passageiros e
tripulantes de um DC-9 da Itavia, avião comercial que na noite de 27 de de junho de 1980
foi aparentemente apanhado inadvertidamente no meio de uma batalha aérea e abatido na
ilha de Ustica, nas proximidades de Palermo, quando já iniciava a operação de
aterrisagem no aeroporto da capital da Sicília.
Isto porque, seja qual for a conclusão desse processo previsto para durar
três anos, ninguém conhecerá toda a verdade sobre a guerra aérea que naquela noite de
junho de 1980 se combateu no céu de Ustica. Guerra que segundo o juiz Priore, principal
investigador do caso, empenhou e foi travada por aviões militares americanos e franceses
contra um ou mais inimigos (talvez líbios) - e da qual o DC-9 da Itavia, com todos os
seus passageiros e tripulantes, foi a mais inocente e absurda vítima: "Como tudo faz
supor, abatido por um míssel ou pela manobra de um caça."
A impossibilidade de se apurar toda a verdade e de se processar os
verdadeiros responsáveis pela tragédia de Ustica se deve principalmente ao comportamento
dos quatro generais da aeronáutica militar italiana que serão os principais réus do
processo iniciado ontem: Lamberto Bartolucci, na época ex-chefe do estado-maior da
aeronáutica; Franco Ferri, vice de Bartolucci; Corrado Melillo, chefe de um setor
estratégico; e Zeno Tascio, diretor do serviço secreto da aviação militar.
Todos quatro acusados de alta traição e de manobras de despistagem que
desviaram ou frustraram as investigações efetuadas sobre os mandantes e combatentes da
guerra aérea. Se os quatro generais, todos reformados, que ontem se distinguiram como
idosos e bem tratados e bem vestidos senhores, tivessem tido outra atitude, não tivessem
procurado confundir sistematicamente o inquérito judicial, o juiz Rosario Priore garante
que hoje o elenco dos acusados seria muito mais longo e ilustre. Muitos não teriam sido
salvos pelas prescrições e outros não teriam sido protegidos por ocultamento e
omissões de provas, autorizados ou efetuados pelos quatro generais que se sentam no banco
dos réus do caso de Ustica.
Caso que se tornou conhecido como o mais escandaloso dos mistérios
insolúveis da Itália moderna. (A.N., JB)