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Itália julga caso do avião abatido

29/09/2000

 

 

ROMA - Tudo foi feito - por quase todos - para que jamais se realizasse o processo iniciado ontem no auditório blindado do cárcere romano de Rebibbia. Nos últimos 20 anos e três meses, o juiz instrutor Rosario Priore precisou ser muito persistente e paciente para ouvir, pronunciada por um funcionário do tribunal de Roma, a frase que costuma preceder a abertura de qualquer julgamento nos tribunais da Itália: "Entra la corte". Processo que na melhor das hipóteses poderá ser a hora da meia-verdade sobre a morte trágica de 81 passageiros e tripulantes de um DC-9 da Itavia, avião comercial que na noite de 27 de de junho de 1980 foi aparentemente apanhado inadvertidamente no meio de uma batalha aérea e abatido na ilha de Ustica, nas proximidades de Palermo, quando já iniciava a operação de aterrisagem no aeroporto da capital da Sicília.

   Isto porque, seja qual for a conclusão desse processo previsto para durar três anos, ninguém conhecerá toda a verdade sobre a guerra aérea que naquela noite de junho de 1980 se combateu no céu de Ustica. Guerra que segundo o juiz Priore, principal investigador do caso, empenhou e foi travada por aviões militares americanos e franceses contra um ou mais inimigos (talvez líbios) - e da qual o DC-9 da Itavia, com todos os seus passageiros e tripulantes, foi a mais inocente e absurda vítima: "Como tudo faz supor, abatido por um míssel ou pela manobra de um caça."

   A impossibilidade de se apurar toda a verdade e de se processar os verdadeiros responsáveis pela tragédia de Ustica se deve principalmente ao comportamento dos quatro generais da aeronáutica militar italiana que serão os principais réus do processo iniciado ontem: Lamberto Bartolucci, na época ex-chefe do estado-maior da aeronáutica; Franco Ferri, vice de Bartolucci; Corrado Melillo, chefe de um setor estratégico; e Zeno Tascio, diretor do serviço secreto da aviação militar.

   Todos quatro acusados de alta traição e de manobras de despistagem que desviaram ou frustraram as investigações efetuadas sobre os mandantes e combatentes da guerra aérea. Se os quatro generais, todos reformados, que ontem se distinguiram como idosos e bem tratados e bem vestidos senhores, tivessem tido outra atitude, não tivessem procurado confundir sistematicamente o inquérito judicial, o juiz Rosario Priore garante que hoje o elenco dos acusados seria muito mais longo e ilustre. Muitos não teriam sido salvos pelas prescrições e outros não teriam sido protegidos por ocultamento e omissões de provas, autorizados ou efetuados pelos quatro generais que se sentam no banco dos réus do caso de Ustica.

   Caso que se tornou conhecido como o mais escandaloso dos mistérios insolúveis da Itália moderna. (A.N., JB)


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