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Furio Monicelli revela o escândalo da hipocrisia

30/09/2000

Lágrimas Impuras

 

Lágrimas impuras, romance do escritor italiano Furio Monicelli, é o relato íntimo e quase escandaloso da experiência de um noviço num mosteiro de jesuítas: um episódio autobiográfico, inspirado na vida aventurosa do autor que, no fim da década de 40, resolvera tornar-se sacerdote, embora pertencesse a uma família laica convicta. Após publicar com muito sucesso seu segundo livro, em 1961, Monicelli optou pelo silêncio, mergulhando em experiências de vida à Rimbaud, o poeta maldito: de marinheiro tornou-se zelador num grande hotel de Roma, funcionário de uma agência de turismo, publicitário, colaborador da BBC em Londres e, finalmente, professor de italiano num conservatório. "Não desejo transmitir nenhuma mensagem por meio de meus livros", afirma ele numa recente entrevista, ainda espantado pela nova publicação e o novo sucesso.

De certa forma um segundo escândalo - é o triângulo que se forma entre Andrea, o protagonista, sugestionável e indeciso, o irmão Zanna, um iluminista convicto avesso a qualquer autoridade, e o irmão Lodovici, delicado representante da abnegação e do amor. A tensão entre a obediência às regras dos jesuítas e o amor dedicado ao irmão Lodovici, embora nunca além de um caráter platônico, revela um conflito bem mais consistente do que aquele entre fé e razão, que a hipocrisia dominante na Companhia afirma constituir o núcleo da formação do sacerdote. Por fim, Lodovici será aniquilado pelo câncer, doença que enseja uma mórbida descrição do narrador da relação entre o amor de Andrea e a morte de Lodovici, do embate entre Eros e Tânatos.

  Por outro lado, as regras e a prática dos jesuítas pretendem uma obediência radical e cega por parte de seus adeptos. Nas palavras do padre mestre: "Nossa alma é propriedade da Companhia, dos superiores, legítimos zeladores dela, intérpretes autorizados da vontade divina." É essa constatação que levará Zanna a se rebelar contra a autoridade e a hipocrisia, até abandonar o mosteiro. A fuga de Zanna e a morte de Lodovici levam paradoxalmente Andrea a confirmar sua escolha. É ele, em sua hipocrisia e falta de fé, como sugere o título dado por Monicelli originalmente ao romance, o jesuíta perfeito. Andrea descobrirá - tarde demais - que o verdadeiro místico é o mais rebelde, o irmão Zanna, que "procurava uma razão profunda para a vida, uma transmutação da realidade..."

  Lágrimas Impuras, um romance curto, tenso e ágil deve seu sucesso na Itália provavelmente ao seu estilo claro e, ao mesmo tempo, ao interesse pela revelação de práticas internas da Companhia de Jesus, incluindo a repressão a qualquer espécie de manifestação afetiva. A narrativa flui tensa e intrigante: num primeiro momento clara, essencial, iluminista, mostrando a seguir alguns momentos de abandono a um estilo decadentista, que revelam a dívida do autor para com Gabriele d'Annunzio, escritor e poeta do fim do século 19: "Ele amava aquele mundo crepuscular. Havia ali uma estranha mescla de sensualidade e devoção que refletia as paixões dominantes e os segredos de seu coração..."

  Os jesuítas revelam-se no romance como melhor exemplo do totalitarismo perfeito, aquele que os habilitou a exercer sua autoridade, apoiando a Inquisição e a conquista violenta do Novo Mundo: em suma, afirmando uma espécie de maquiavélica dupla moral, assim como os acusa o irmão Zanna. O próprio escândalo da paixão entre Andrea e Lodovico, denunciada pelo protagonista, é por eles silenciada: "Vá em paz, filho, descanse tranqüilo.... a Igreja ... se mostra infinitamente tolerante com os pecados da carne." A conclusão apropriada está novamente nas palavras de Zanna: "Parece-me que nenhuma outra sociedade humana... seja mais totalitária que a Companhia inaciana."

Influência

  Entretanto, para Roland Barthes "os jesuítas muito contribuíram para formar a idéia que hoje temos da literatura", pois o objetivo dos Exercícios Espirituais de Inácio de Loiola, o fundador da Companhia de Jesus no século 16, era a invenção de uma língua exclusiva, metódica, obsessiva, tornando o texto do fundador algo simultaneamente terrível e desejável por seus adeptos (Sade, Fourier). O capítulo central de Lágrimas Impuras está dedicado à meditação sobre o texto de Loiola: um assombroso mês de retiro em completa solidão dos jovens noviços, uma prova de que alguns não suportarão e que leva o irmão Zanna a abandonar a ordem: após a morte do irmão Lodovici e a fuga de Zanna, Andrea resolve assumir a máscara da hipocrisia. Durante a cerimônia de iniciação, após os dois anos de noviciado, ele se surpreende a chorar. "São lágrimas puras, as dele...", comenta o padre mestre. (Andrea Lombardi, professor de literatura italiana da USP - OESP)


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