Sai no Brasil
"Baudolino ", o novo romance do escritor italiano Umberto Eco, que é
ambientado na Idade Média do imperador Frederico Barba Ruivada "Der Spiegel"
Lingüista, crítico, filósofo e um dos
mais prestigiados escritores da atualidade, o italiano Umberto Eco fala, na entrevista
abaixo, das condições climáticas indispensáveis para o pensamento, sobre a atualidade
de soberanos e seres fabulosos da Idade Média e, sobretudo, de seu novo romance,
"Baudolino", ambientado no século 12, no Sacro Império Romano Germânico de
Frederico Barba Ruiva, e que está sendo publicado agora no Brasil.
Originalmente seu novo romance iria se chamar
"Número Zero". O sr. havia pensado de início num livro totalmente diferente?
Sim, deveria se passar numa redação de jornal, cuja equipe se punha à caça de furos e
notícias sensacionalistas para a edição seguinte. Quando me perguntei, porém, qual
teria sido afinal de contas a notícia mais fantasiosa da Idade Média, logo me veio à
mente a legendária carta do rei sacerdote Preste João.
Falsificação devidamente comprovada pela história.
Exatamente. Esse documento forjado levou o homem do século 12 a acreditar no engodo de
que existiria no Extremo Oriente um império cristão banhado por rios de leite e mel.
Mas, como até então ninguém conhecia o autor da velha notícia sensacionalista, eu o
criei, presenteando-o com o nome Baudolino e uma biografia repleta de aventuras. A carta
histórica surgiu nos tempos do imperador do Sacro Império Romano Germânico Frederico
Barba Ruiva [que viveu no século 12", quando foi fundada minha cidade natal,
Alexandria, no Egito. E assim eu transformei Baudolino no filho adotivo e conselheiro de
Barba Ruiva, fazendo-o dedicar a própria vida à busca utópica do legendário império
no Oriente.
O sr. chamou seu primeiro romance, o sucesso mundial "O Nome da Rosa", de
"grande colagem" feita a partir de fontes originais medievais. Isso também é
válido para "Baudolino"?
Com a diferença de que Baudolino é de origem humilde. Ele é filho de camponeses e não
profere sentenças eruditas como os monges que se reuniam em "O Nome da Rosa" e
que formavam a elite intelectual de sua sociedade. Mas, apesar dessa diferença, é claro
que um narrador literário não é capaz de criar algo que se aproxime da dramaticidade e
do caráter cômico da realidade.
Quanto mais a fundo investigamos a história, mais nos deparamos com situações
inacreditáveis, de efeito romanesco. Nem a mente mais criativa seria capaz de imaginar
tais coisas. Claro que tirei proveito dessa experiência para escrever
"Baudolino", além de ter me apoiado com bastante exatidão nas fontes
tradicionais na descrição de personalidades históricas como Barba Ruiva ou sua mulher,
Beatriz.
O que foi mais importante ao sr. ao escrever este livro?
Meu próprio deleite. Para os amantes do latim, "delectari", a forma passiva do
infinitivo.
Portanto, a mais recente "Eco trip" é acima de tudo uma "ego
trip"?
Sim. Mas num segundo momento eu certamente também quis ensinar um pouco. Mesmo numa
história fictícia, não é fácil para um professor universitário abrir mão dessas
coisas.
Nos relatos de Barba Ruiva há grandes lacunas e enigmas. Nenhum historiador consegue
explicar, por exemplo, por que o imperador, tido como bom nadador, teria morrido afogado
em um rio. O sr. idealizou seu herói Baudolino para explicar no plano da ficção tais
enigmas? Ele funciona como uma espécie de "elo perdido"?
Sim, preenchi as lacunas históricas à minha maneira, com fantasia. De modo semelhante à
antiga lenda heróica alemã, o imperador Barba Ruiva não teria morrido e estaria vagando
até hoje pelo monte Kyffhäuser.
O século 12 e acontecimentos como a derrota de Frederico Barba Ruiva em Legnano para
as cidades do Norte da Itália não estão distantes demais para muitos dos leitores de
hoje?
Se eu mesmo sinto prazer em ilustrar a batalha de Legnano, então estou certo de que pelo
menos alguns leitores haverão de se entreter com ela. Obviamente deverá ser uma ínfima
minoria da população terrestre de 6 bilhões de pessoas digamos, 0,01% desse total.
Em todo caso, já seriam 600 mil pessoas.
Em escala planetária, isso não é nada, portanto. Segui o princípio do "diverte a
ti mesmo e estarás divertindo também os outros" também na ilustração dos
numerosos monstros de meu romance. Agradam-me todos os cinocéfalos (seres com cabeça de
cão), ciápodes (pés de sombra), aves do tipo fênix (pássaros gigantes) etc., todos
eles eram ponto pacífico para nossos ancestrais, como é para nós a força de gravidade.
As enciclopédias e os bestiários medievais dão os nomes e descrevem a aparência desses
seres com exatidão, mas não dizem nada sobre a maneira como se comportavam em movimento.
Essa lacuna de imaginação eu me encarrego de preencher. Mostro como se movimenta alguém
com orelhas de abano que chegam até o chão ou cujo pênis sai do peito como uma
bússola.
Até que ponto o sr. quer tratar da atualidade, se narra sobre homens e seres fabulosos
da Idade Média?
Não há escrita histórica que não descreva também nosso momento atual. Uma nova
biografia de Napoleão sempre levantará questões diferentes das que foram formuladas há
cem anos. Simplesmente porque cada novo tempo tem um novo olhar sobre o passado.
Em vez do sol da Itália, em "Baudolino" predomina a névoa. O herói do
romance também encontra seu futuro protetor, Frederico Barba Ruiva, na névoa. Num ensaio
sobre sua cidade natal, Alexandria, o sr. chegou até mesmo a enobrecer a névoa como um
meio ideal para o pensamento. O sr. pode nos explicar isso melhor?
Para pensar, para ter uma vida interior, é preciso primeiro solidão e silêncio. Eu
nasci numa região enevoada e acredito que a névoa seja um elemento essencial para um ser
pensante.
Mas o sr. está inserido na tradição do Iluminismo, cuja metáfora central é a
luz...
Mas eu sou o filósofo da névoa. Como o sr. mesmo, agora é a vez de Baudolino ter
nascido em Alexandria. O romance todo é uma espécie de homenagem à sua cidade natal.
Recentemente o sr. chegou a discutir seu livro com os internos do presídio de Alexandria.
O que resultou dessas conversas?
Foi espantoso. Meus interlocutores haviam passado três meses inteiros totalmente ocupados
com meu romance. Alguns tinham escrito comentários, ensaios ou poemas sobre ele, e um
deles havia transformado a ação em história em quadrinhos.
As grades estimulam a criatividade?
Em alguns presos, sim. A falta de distração e meios de passar o tempo parece ter
favorecido uma leitura cuidadosa. Talvez as grades estimulem até mesmo o pensamento
científico -um deles me fez uma pergunta referindo-se a Foucault...
...o pré-idealizador do pós-modernismo francês.
Para essas pessoas, meu livro foi uma verdadeira "experiência de leitura". Só
por isso, eu disse a mim mesmo, já valeu a pena tê-lo escrito. Baudolino procura
incansavelmente o utópico reino no Oriente. O pensamento utópico é visto como
liquidado, na Europa, pelo menos desde o fim do comunismo. A humanidade é incapaz de
viver sem utopias?
Disso eu estou convencido. Mal entraram em colapso as grandes utopias históricas e já
retorna o anseio por uma vida completamente diferente, de que são exemplos os movimentos
contra a globalização. A atual oposição de ambientalistas à globalização tem uma
boa dose de utopia.
O sr. simpatiza com os movimentos de protesto contra a globalização?
Penso que eles estão com a razão em seus objetivos, mas a perdem em seus métodos. Antes
das eleições na Itália o sr. propôs, num artigo de jornal, que se realizasse um
"referendo moral" contra o magnata da mídia e multimilionário Silvio
Berlusconi. Hoje ele é presidente. E agora?
Nós perdemos. Eu me voltei contra Berlusconi, entre outros motivos, porque sua política
só favorece os ricos. Tenho tentado, em vão, rejeitar os benefícios fiscais com que ele
agora presenteia pessoas como eu.
No mesmo artigo, o sr. também lançou uma polêmica contra a alienadora
"ideologia do espetáculo" que vem se propagando pelo mundo todo. Até que ponto
esse fenômeno é novo?
Isso começou já em 1960, com a eleição de John Kennedy para a Presidência dos Estados
Unidos. Ali venceu o candidato com melhor aparência, mais fotogênico para as câmeras de
TV. Desde os anos 60, os EUA disseminam um novo modelo de democracia: dois partidos, ambos
controlados pelo poder econômico, disputam eleitores que por sua vez julgam seus
candidatos segundo a imagem que recebem da mídia. O conceito de democracia representativa
está sob a ameaça de ruir completamente na era da globalização. Berlusconi não passa
de uma espécie de vanguarda.
O sr. acha que a democracia das mídias só vem a consolidar o poder dos grandes grupos
econômicos?
Veja o caso das recentes eleições presidenciais nos EUA. Ainda que tivesse sido eleito
um outro candidato, o resultado político teria sido o mesmo: as grandes empresas teriam
recusado o Protocolo de Kyoto, o presidente seria controlado, exatamente como o é George
W. Bush, por aqueles que pagaram sua eleição. Somente 50% das pessoas com direito a voto
vão às urnas...
Portanto, quem hoje ocupa o cargo de presidente foi eleito por apenas 25% dos cidadãos
americanos...
E desse modo a situação é semelhante à do império romano, em que uma minoria de
famílias abastadas ou generais compunha o governo. Não sou nenhum oráculo, mas tudo
leva a crer que as coisas continuarão se desenvolvendo nessa direção. Talvez tenhamos
de criar, na era da internet, uma forma de democracia representativa diferente daquela que
nos serviu nos últimos 300 anos, um equilíbrio entre Estado e protesto, entre centros de
poder e comunidades locais. Para isso, é preciso fantasia.
(Folha de S. Paulo)
Entrevista concedida a Hans-Jürgen Schlamp, Rainer
Traub, da redação da revista "Der Spiegel", com a colaboração de Fritz
Rumler. Tradução de Marcelo Rondinelli.
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