Eros Ramos de Almeida Trabalhando uma média de 20 horas por dia, em Paris, para finalizar
Abril despedaçado a tempo de exibir o filme na 58 edição do Festival de
Veneza, dia 5, Walter Salles sonha botar o sono em dia, tão logo chegue ao fim da
maratona.
Assim que acabar o festival, parto em busca do sono perdido... mas
logo retorno ao processo de finalização de Abril adianta Walter, em
entrevista por e-mail da capital francesa, admitindo apresentar Abril com uma
mixagem e uma montagem provisórias, como Wong Kar-wai teve que fazer com Amor à
flor da pele, no ano passado, em Cannes.
O exemplo de Amor à flor da pele é um bom presságio: ainda que
exibido com créditos alertando que o filme não estava 100% concluído, o filme de Wong
Kar-wai faturou dois prêmios no festival francês.
No entanto, segundo Walter, a correria para aprontar o filme faz com que ele
não acalente expectativas quanto a prêmios. A revelação soa algo cautelosa demais, a
julgar pela empolgação do próprio diretor do Festival de Veneza, Alberto Barbera, com a
adaptação do romance do albanês Ismail Kadaré. A transposição da guerra entre duas
famílias nos Balcãs para o Nordeste brasileiro levou Barbera a referir-se a
Abril como uma interessante reflexão da violência e a convidar Walter a
exibir o filme na competição do festival Dias de Nietzsche em Turim,
de Julio Bressane, também estará em Veneza, mas na mostra paralela Novos Territórios.
A data prevista para o filme ficar pronto era efetivamente dia 15 de
setembro, na melhor das hipóteses. O convite do festival acelerou o processo de
pós-produção. Em vez de uma mixagem de cinco semanas, só tivemos duas e meia. E ainda
falta equilibrar a luz, fazer e legendar as cópias diz o diretor do premiadíssimo
Central do Brasil.
Em Abril despedaçado, José Dumont vive o pai que impele o
filho, Tonho (Rodrigo Santoro), a vingar a morte do irmão, dando continuidade a uma
secular guerra entre duas famílias pela posse da terra. No entanto, Tonho se apaixona e
começa a questionar a perpetuação dessa história escrita a sangue.
Dumont e Santoro são os dois principais atores de um elenco que ainda conta
com a atriz baiana Rita Assemany, o menino Ravi Ramos Lacerda, Flavia Marco Antonio, Luis
Carlos Vasconcelos, Othon Bastos e Everaldo Pontes, além de um contingente de não-atores
de Bom Sossego, Caetité e Rio de Contas. Foi nessas cidadezinhas do interior baiano que o
filme foi rodado entre agosto e setembro do ano passado.
Viagem de Guevara pelo continente inspira filme
Apesar de estar completamente envolvido com a exibição de Abril
despedaçado em Veneza, Walter já tem data para tocar outros projetos. Em novembro,
deve começar a procurar locações para Diários de motocicleta, percorrendo
a Argentina, o Chile e o Peru. O filme, a ser produzido pelo ator e diretor americano
Robert Redford, é uma adaptação das cartas enviadas por Ernesto Che Guevara durante uma
viagem que ele fez com um amigo pela América Latina, em 1952, quando tinha 22 anos.
Talvez possamos filmar no fim do ano que vem, mas vai depender tanto
das locações quanto da descoberta dos atores prevê o diretor. A única
exigência que fiz foi a de filmar em espanhol, com atores latino-americanos. Mais uma vez
pretendo trabalhar com profissionais e não-atores.
Antes disso, porém, em janeiro de 2002, Walter começa o projeto de
pré-produção de seu filme internacional mais ambicioso, The assumption of the
virgin, com roteiro de Anthony Minghella (diretor de O paciente inglês)
e elenco multiestelar encabeçado por Benicio Del Toro, Juliette Binoche e Geoffrey Rush.
A princípio, os preparativos teriam início no mês que vem, mas uma queda de Benicio e a
conseqüente quebra de um braço adiaram o processo.
Recentemente, o diretor brasileiro recebeu um convite de um de seus ídolos,
o cineasta americano Martin Scorsese, para dirigir a refilmagem de um clássico de Akira
Kurosawa, Céu e inferno, rodado em 1963. Segundo Walter, no entanto, ainda
vai demorar muito para o projeto decolar:
Estamos na etapa de conceitualização da história. Como um roteiro
demora de três a quatro anos para ficar verdadeiramente maduro, hoje é impossível
determinar uma possível data para a filmagem. A única coisa que sei é que participar
desse processo será uma rara oportunidade de aprender com Scorsese, um cineasta cujos
filmes como Caminhos perigosos e Touro indomável me levaram, de
alguma forma, a optar por esta profissão. (O Globo)
Convite para fazer filme sobre bairro de
Paris
Walter Salles também foi convidado, pela prefeitura de Paris, para rodar um
breve documentário sobre um bairro da Cidade Luz.
Minha opção foi pelo 20ème, um bairro de imigrantes. De certa forma
é como procurar uma terra estrangeira dentro de Paris compara o diretor.
No entanto, o excesso de trabalho pode inviabilizar sua participação no
projeto:
Mas, se der, é algo que gostaria de fazer. A série inclui cineastas
tão diferentes quanto Godard e John Woo.
Diante de tantos projetos como diretor contratado, Walter, que sempre
trabalhou em iniciativas absolutamente pessoais, põe em dúvida sua própria capacidade
de disciplinar-se a este novo esquema.
Na verdade, estou procurando descobrir se há alguma forma menos
exaustiva de fazer cinema diz.
Mas é a uma certa imaturidade ou melhor, a uma falta de maturidade
que Walter credita o adiamento de um projeto extremamente pessoal. Trata-se de
Últimos diálogos, roteiro escrito por Millôr Fernandes a ser estrelado por
Fernanda Montenegro:
É um roteiro extraordinário, de densidade crepuscular, para o qual
ainda não me sinto completamente pronto. Mas, de certa forma, as perdas pessoais ( o
pai do cineasta, o diplomata Walther Moreira Salles, morreu há seis meses ) que
sofri este ano me reaproximaram do tema e me permitiram entender melhor a força dos
sentimentos dos personagens criados por Millôr. (E.R.A.) (O Globo)
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