IVO BARROSO (*)
É com euforia que assinalamos a chegada de uma verdadeira onda de novas
edições de títulos italianos, oriundas sobretudo de São Paulo. A Sicília aparece aí
representada, até o momento, por dois autores fundamentais: Verga e Vittorini. Giovanni Verga (1840-1922), filho de abastados proprietários rurais,
começou sua carreira literária escrevendo folhetins históricos, à maneira de Walter
Scott e Alexandre Dumas, e novelas mundanas que se passavam em ambientes aristocratas e
superficiais. Embora já fizesse nelas alguma crítica à sociedade
aristocrático-burguesa de Florença e Milão, onde fora estudar, e já desfrutasse de
alguma notoriedade literária, será somente a partir da descoberta do naturalismo
francês que sua vocação literária realmente se realiza. Verga volta para sua Sicília
natal e passa a se concentrar na vida de seus "contadini", interessando-se por
suas crenças, preconceitos, ética e mitos.
Seria exagerado dizer que em seus escritos dessa época revelasse uma
preocupação social, um projeto de mudar as condições de vida dos menos favorecidos,
ainda que fosse a de seus próprios empregados rurais. Tudo se passa como se o autor os
observasse sob um ângulo fatalista e apenas retratasse, sem interferir, seus dramas,
procedimentos e tradições petrificadas, praticando um verismo meramente fotográfico.
Essa visão levou Gramsci a denunciar em Verga "uma atitude de fria
impassibilidade científica", que se limitava à denúncia sem propor soluções ou
mudanças. Mas a força de seu estilo, a afiada linguagem de seus diálogos, as ágeis
pinceladas com que retrata a psicologia de seus personagens fazem de seus contos um
documento de conscientização social, uma amostragem das circunstâncias em que se
desenvolve o comportamento dos deserdados e carentes da província, asfixiados pelo
fatalismo e pelas constrições religiosas.
Entre esses contos está o arquifamoso "Cavaleria Rusticana",
que poucos leram, mas que se tornaria conhecido no revestimento operístico que lhe deu o
gênio musical de Mascagni. Da leitura do conto decorre a impressão de se estar diante de
um relato inacabado ou lacunoso, sem os ingredientes dramáticos fundamentais do
tratamento operístico. Ocorre que, escrito e publicado em 1883, o conto de Verga foi por
ele próprio adaptado para o palco, tendo ninguém menos que Eleonora Duse como
protagonista; e essa versão cênica, que Mascagni e seus libretistas viram em 1884, é
que inspirou a ópera que consagrou a ambos ao ganhar o concurso de óperas de um ato
patrocinado por Sonzogno. Verga moveu (e ganhou) uma ação contra o compositor e a casa
editora, por não constar seu nome e apenas os dos libretistas (Tozzeti e Menasci) como
autores do texto.
Mas, além deste, há outros relatos de grande intensidade como "A
Amante de Gramigna" (uma espécie de Maria Bonita siciliana) e "A Loba",
onde os impulsos sexuais de uma mulher se fixam em seu genro, que acaba por matá-la,
segundo as leis da comunidade, para restaurar a ordem do patriarcado. Textos mais longos,
prenunciando os romances "I Malavoglia" e "Mastro Don Gesualdo",
atestam a força narrativa de Verga e sua capacidade de exprimir a resignação fatalista
de seus personagens.
Em Elio Vittorini (1908-1966) temos igualmente uma guinada, mas de cunho
político: filho de ferroviário, encantado pelo sonho dos trens e das viagens, fugirá
várias vezes de casa e abandonará seus estudos de contabilidade para se dedicar ao
jornalismo. Casa-se muito cedo, aos 19 anos, com a irmã do poeta Salvatore Quasimodo
("para reparar um erro") e ganha a vida como redator de revistas, revisor de
provas e tradutor do inglês, tendo introduzido na Itália dezenas de autores importantes
da moderna literatura anglo-saxã.
Empolgado inicialmente com as realizações materiais do fascismo, vai aos
poucos se tornando um fascista de esquerda; é depois expulso do partido e, de
ex-fascista, faz-se comunista clandestino, com participação ativa na Resistência
italiana; em 1945, quando dirige por alguns meses a revista "L'Unità", de
Milão, na qual assume posição favorável a uma busca intelectual autônoma da
política, entra em conflito com os líderes comunistas Mario Alicata e Palmiro Togliatti,
acabando por deixar o partido e eleger-se vereador por Milão.
A obra mais importante de Vittorini é decerto "Conversazione in
Sicilia", escrita em 1937, um histórico de sua guinada ideológica, mas igualmente
sua tentativa de alcançar uma linguagem que servisse como "porta-voz de todos que
sofrem". Para publicar este livro, Vittorini interrompeu a feitura de uma novela em
que estava trabalhando, "Erica e i Suoi Fratelli", segundo ele porque os
acontecimentos da guerra civil espanhola o tornaram "indiferente aos desenvolvimentos
da história em que havia trabalhado por seis meses seguidos".
Os manuscritos da obra interrompida quase foram queimados em 1943 num
incêndio de guerra que destruiu a casa em que morava, e recuperados dez anos depois, num
pacote guardado por amigos. Instado por Alberto Moravia e Alfredo Carocci para que
terminasse a novela a fim de publicá-la, Vittorini escreveu-lhes uma carta-justificativa
sobre a impossibilidade de fazê-lo, na qual afirma que "não é mais natural para
mim escrever que tal personagem "sentiu" tal coisa ou que "pensou" tal
coisa. [..." Eu gostaria de contar o restante da história, mas, para poder contá-la
de maneira natural e ao mesmo tempo salvar a unidade do livro, precisaria [..."
concentrar-me novamente, inteiramente, naqueles velhos motivos..."
Os velhos motivos denunciavam o contraste gritante entre a
"consolidação do regime fascista e sua expansão imperialista" e a fome e
miséria em que se afundava um grande estrato da população italiana. Moravia e Caroci
acharam, no entanto, que o livro inconcluso continha tudo o que se poderia esperar de uma
novela autêntica, e que "Erica" retratava o drama da infância abandonada, da
fragilidade do ser em formação que, para "ganhar a vida", tem que perdê-la
para o "mal".
Este livro admirável, que lembra as contundentes narrativas de um
Faulkner, admirado por Vittorini, é que foi escolhido para representá-lo nesta
coleção. Uma escolha sob todos os aspectos luminosa. (© Folha de S. Paulo)
(*) Ivo Barroso é tradutor.
Cenas de Vida Siciliana
Giovanni Verga
Tradução: Mariarosaria Fabris e outros
Berlendis & Vertecchia (Tel. 0/xx/11/ 3085-9583). 284 págs., R$ 29,00
Erica e Seus Irmãos
Elio Vittorini
Tradução: Liliana Laganá
Berlendis & Vertecchia. 110 págs., R$ 21,00
|