ARAUJO
NETTO
ROMA - A próxima
semana será uma semana gorda para o Fundo para as Vítimas da Máfia, instituído por uma
lei do parlamento italiano há mais de cinco anos. O leilão de uma pequena parte do tesouro
de Salvatore Totó Riina, chefe dos chefes da Cosa Nostra que desde 1993 se encontra na
prisão de máxima segurança da cidade de Ascoli Pisceno, faz prever que o Fundo será
reforçado pelos US$ 800 mil (talvez até US$ 1 milhão) que devem ser arrecadados pelas
vendas das 206 peças de um primeiro lote do tesouro encontrado pelos policiais que
capturaram o pequeno-grande homem nascido em Corleone que por quase 30 anos foi o líder
político, o estrategista das operações militares e o juiz que decidia sobre a vida e a
morte, a fortuna e a desgraça de todas as famílias mafiosas sicilianas.
Riina é um homem de baixa estatura
(1,60 metro), voz fina e anasalada, mas capaz de ordenar ou executar com suas próprias
mãos as maiores atrocidades. Não por acaso conhecido e tratado por outros mafiosos como la
belva (a fera), e identificado, processado e condenado pela Justiça como o mandante
de 150 homicídios, muitos deles praticados contra ex-companheiros e sócios, nas várias
guerras e chacinas que planejou e fez deflagrar contra mafiosos que ousaram questionar
seus métodos de comando.
Do lote de 206 objetos apreendidos pela polícia no porão da casa em que Riina foi
localizado e finalmente preso, em 15 de janeiro de 1993, - depois de 24 anos de
clandestinidade vividos tranqüilamente em Palermo, onde pôde estar presente aos
nascimentos de três filhos num dos melhores hospitais privados da cidade - fazem parte 32
lingotes de ouro pesando 34 quilos, pulseiras, colares, diamantes e objetos de ouro
branco, um relógio Cartier de ouro, com mostrador e pulseira cravejados de brilhantes,
outro relógio - Vacheron Costantin - avaliado em pelo menos US$ 100 mil, uma coleção de
115 moedas estrangeiras (principalmente libras esterlinas de ouro, dólares americanos e
pesos chilenos de prata).
Coleção - Entre as peças que serão leiloadas na próxima semana, figuram também
uma coleção de medalhas e miniaturas de imagens religiosas, usadas e distribuídas como
suvenires pelos amigos que assistiram aos nascimentos e batizados dos três filhos que
teve com sua mulher, Ninetta Bagarella, irmã de Leoluca Bagarella, outro chefão da Cosa
Nostra que chegou a ser o vice de Totó Riina. Um mafioso que os criminologistas italianos
e americanos afirmam ser o mais importante do mundo depois do Al Capone da Chicago dos
anos 30.
Por prudência, com receio de possíveis represálias de mafiosos que continuam fiéis e
obedientes ao seu comando, as autoridades do Ministério da Justiça que organizaram o
leilão desse primeiro lote do tesouro de Riina tomaram duas decisões importantes:
realizá-lo fora e longe da Sicilia; e sem divulgar que os objetos e valores que serão
leiloados pertenceram ao ex-chefe dos chefes da Cosa Nostra.
Na quinta-feira, Riina não pôde assistir ao casamento de sua filha mais velha (e mais
querida) Maria Concetta com o ex-disc-jóquei e tocador de trombone Tonino Ciavarelo, que
desde ontem passou a ser tratado e respeitado como um novo empresário agrícola de
Corleone - onde se realizou o casamento. Riina não obteve a permissão para deixar a cela
de isolamento em que se encontra, no cárcere de Ascoli Pisceno, para presenciar a
cerimônia. (© Jornal
do Brasil) |