FRANCESCA ANGIOLILLO
DA REPORTAGEM LOCAL
Pai, mãe, filho pequeno, filho mais velho. Pai, mãe, filho pequeno, filha
mais velha. Vizinhos em tudo parecidos. Os pais são concorrentes nos negócios, duas
lojas também porta a porta. É como se uma família fosse, para outra, seu reflexo num
espelho. Com o sutil detalhe que o espelho tem uma pequena
rachadura, que revela a diferença: uma das duas famílias é judia.
Essa sutil trincadura é a linha condutora de
"Concorrência Desleal", mais recente filme do italiano Ettore Scola, 70.
O ano é 1938 e estamos na Itália de Mussolini. Hitler
marcha sobre Roma, e sua passagem, celebrada com honrarias, transforma o detalhe sutil em
um verdadeiro cânion. Os judeus, como os da família Simeoni, não podem mais levar uma
vida igual à das famílias católicas como os Melchiorri.
A história é narrada a partir do ponto de vista de
Pietruccio (Walter Dragonetti), o filho mais novo do alfaiate Umberto Melchiorri (Diego
Abatantuono).
Em um diário ilustrado, Pietruccio registra, primeiro,
as brigas que marcam a disputa entre seu pai e o vizinho, Leone Simeoni (Sergio
Castellitto), que vende roupas de qualidade duvidosa a preços baixos e se aproveita dos
cartazes de seu pai para a própria publicidade.
Se há essa inocente "deslealdade" na
concorrência entre os vizinhos, ela se torna muito mais cruel com o empurrão das leis
raciais promulgadas pelo líder fascista -e se inverte.
O esperto Simeoni e sua família, se levavam alguma
vantagem, perdem-na toda, junto com direitos e liberdades, por não terem a "sorte de
serem católicos", como diz a mãe de Pietruccio (Anita Zagaria), explicando ao filho
porque o amigo Lelle (Simone Ascani) não pode mais ir à escola.
O diretor, que em 77 já abordara o fascismo em "Um Dia Muito Especial", com
Sophia Loren e Marcello Mastroianni, volta ao tema e ao enfoque das personalidades
encerradas em ambientes restritos -no primeiro, um apartamento; agora, uma rua romana.
Scola diz que deixa suas histórias em aberto. "É
o público que deve concluí-las. Um filme não tem o poder de mudar uma realidade, mas
pode convidar ao questionamento. Esta, para mim, deveria ser a função do cinema. Por
isso prefiro não ter finais muito fechados, nem heróis. É isto: meu cinema é um cinema
sem heróis."
Leia a seguir os principais trechos da entrevista de
Scola à Folha, por telefone, de Roma.
Folha - Como surgiu a idéia de falar das leis raciais, que
não foi antes explorada no cinema?
Ettore Scola - Muitas vezes, nos meus filmes, penso em um período histórico.
Mesmo nos filmes contemporâneos, procuro amarrar episódios privados a públicos, vistos
de um ponto de vista minimalista. Para este, pensei em um período muito pouco tratado,
inclusive nos livros escolares, é muito pouco conhecido. Os jovens, por exemplo,
ignoravam a existência dessas leis raciais, que, em 1938, Mussolini promulgou, mais por
imitação de Hitler do que por verdadeira convicção.
Folha - O sr. nasceu em 1931. Como as suas lembranças do
período marcam o filme?
Scola - Tinha sete anos e tenho lembranças infantis, mas também algumas sobre
judeus, colegas que deixaram de ir à escola de repente, de um vendedor de colchões que
fechou a loja.
O filme não é tanto sobre as leis raciais. É mais sobre o modo indiferente com que elas
foram recebidas pelos italianos, o modo superficial, sem dramatizar, dizendo: "Enfim,
são pequenas limitações, não podem ter rádio em casa, ou não podem ir à escola, ou
têm de descer do bonde, paciência, terão de andar um pouquinho". Em suma,
tendia-se a amenizar. É um pouco o caráter italiano: não é racista -mas a indiferença
pode provocar o racismo.
Folha - Hoje na Itália se reconhece essa estreiteza de
visão?
Scola - Fiz o filme especialmente para os jovens. O propósito era mostrar a
história a quem não sabe de nada. O mais importante, porém, é que hoje, na Itália,
existem situações bastante similares. Não há ditadura fascista, mas há a imigração
para a Itália de extracomunitários, e a acolhida não é plena. Quem não é membro da
Comunidade Européia é visto como alguém sem direitos, que tem de trabalhar para os
italianos.
Folha - Suas lembranças inspiraram Pietruccio?
Scola - Certamente em Pietruccio há um pouco de mim, seja porque tinha também um
diário, seja porque tinha essa paixão pelo desenho, que tenho ainda. As crianças, elas
eram bastante isoladas, com elas nunca se falava do coletivo. A única atividade que cabia
era observar os adultos, rir deles, fazer suas caricaturas. Foi esse espírito que pus em
Pietruccio.
Folha - Uma característica de seus filmes é uma preferência
por ambientes restritos, como o apartamento de "Um Dia Muito Especial" ou o
restaurante de "O Jantar". Pode explicar essa marca?
Scola - Eu me movimento melhor em ambientes restritos. Tenho mais liberdade em um
apartamento do que em vastas paisagens. Porque meu cinema é de observação, de
caráteres, de personagens, consigo olhar mais de perto em ambientes menores. Tenho a
convicção de que um gesto ou um dia são testemunhos universais de comportamentos.
Folha - Aparece o tempo todo a cúpula do Vaticano, dando as
costas a essa rua -e à questão. Como isso repercutiu?
Scola - Fiz questão de mostrar sempre a cúpula exatamente porque o Vaticano
nunca interveio a favor dos judeus -e tinha autoridade, influência sobre Hitler e os
alemães. O Vaticano está ali, parado, eterno, com sua potência, seus sinos, mas sem
intervir. Todos notaram, alguns não gostaram, mas é um símbolo inegável: não dá para
dizer que Pio 12 tenha feito algo pelos judeus.
Folha - O sr. parece ter adotado personagens especulares, duas
famílias com a mesma estrutura, para ressaltar que o fato de serem iguais não impede que
tenham destinos diferentes.
Scola - Essas duas famílias também são metafóricas. São absolutamente
especulares, idênticas, a mesma composição. A negação de direitos vem porque alguém
decide que são diferentes. É uma diversidade imposta, injusta. Uma diversidade que não
existe. (© Folha de S. Paulo)
Ettore Scola discute leis raciais
"Concorrência
Desleal" trata das leis raciais que surgiram na Itália em 1938. O diretor criou a
história de dois comerciantes de roupas cuja rivalidade estimula os ardis e as trapaças,
recrudesce as diferenças
São Paulo - Ettore Scola não gosta de dar entrevistas. Chega a sugerir ao
repórter: "Faça uma pesquisa e publique uma síntese; entrevistados sempre se
repetem." É pena: o novo Scola, que estréia nesta sexta-feira, já é um dos
grandes filmes do ano. E Concorrência Desleal é certamente o melhor trabalho do
diretor desde A Viagem do Capitão Tornado, em 1990. Nos 11 anos decorridos desde
então, Scola não havia parado de nos brindar com manifestações de sensibilidade e
inteligência em filmes como Mário, Maria e Mário, A História de um Jovem Homem
Pobre e O Jantar. Só que Concorrência Desleal vai muito além. É da estirpe
de suas maiores obras: Nós Que nos Amávamos Tanto, Um Dia muito Especial, Casanova e
a Revolução e O Baile.
Já que o próprio
autor se recusa a falar sobre seu filme cabe a nós, que o admiramos, descobrir as raízes
profundas que o levaram a fazer esse filme tão verdadeiro e emocionante. Nesses tempos de
inteligência artificial, nada como o humanismo de Scola para restabelecer a fé no
cinema. Concorrência Desleal trata das leis raciais que surgiram na Itália em
1938. Engloba aquele dia especial que Scola focalizou no filme com Marcello Mastroianni e
Sophia Loren, quando Hitler se encontrou com Mussolini em Roma e os dois selaram sua
aliança sinistra. No texto que a distribuidora Pandora distribuiu à imprensa, há uma
nota do diretor. Vale reproduzi-la:
"Viver na mesma
cidade, na mesma rua, fazer o mesmo tipo de trabalho, pertencendo ao mesmo meio social,
tendo o mesmo tipo de família - uma esposa, duas crianças, tias, tios, avós - e ainda
assim não ser igual, não ter os mesmos direitos, não poder freqüentar as mesmas
escolas nem exercer sua profissão ou abrir o próprio negócio. Sofrer a exclusão e a
intolerância. Descobrir que você é ´diferente´ por nascimento ou devido à raça. Foi
o que ocorreu, no passado, com os negros e os judeus. É o que ocorre hoje, na Europa, com
os trabalhadores que vêm do outro lado da União Européia."
Para expressar o
horror, Scola criou a história dos dois comerciantes de roupas cujas lojas são grudadas.
A rivalidade profissional começa por dividi-los, estimulando os ardis e as trapaças.
Essa parte do filme vai até o momento em que o personagem de Diego Abatantuono, querendo
ofender o de Sergio Castelito, que está lhe roubando os clientes, chama o outro de
´judeu´, conferindo à palavra toda a sua força pejorativa. A partir daí e num
processo que passa pela tomada de consciência de Abatantuono pelo que está ocorrendo em
seu país, ambos se tornam solidários. A injustiça termina por selar a verdadeira
amizade.
Todo o filme é visto
pela ótica do menino e o recurso poderia estar desgastado não fosse o grande talento de
Scola. As regras e proibições impostas aos judeus pelo fascismo são absurdas, mas
também tragicamente engraçadas e até grotescas. O tio vagabundo pode lembrar o de Amarcord,
a reconstituição que Federico Fellini fez de sua infância, em Rimini, também sob o
fascismo. Mas o tio do filme de Fellini não vira camisa-negra nem tem o desfecho que leva
Castelito, no auge da depressão provocada pela nova ordem que o exclui, como homem e
cidadão, ao ataque de riso de Concorrência Desleal.
É um raro e belo filme
que reconstitui, com brilho invulgar, uma página da história da qual os italianos não
podem se orgulhar. Para enfatizar o que querem dizer, Scola e os roteiristas Furio
Scarpelli, Giacomo Scarpelli e Silvia Scola criaram o personagem de Gérard Depardieu, mas
ele não está lá só para brandir as verdades do diretor, como porta-voz de suas
convicções políticas e crenças humanistas. Concorrência Desleal não é um
teorema para expor uma tese. Também não é um subproduto de A Vida É Bela,
misturando infância, Holocausto e humor com vistas ao Oscar. É o retorno do cinema
italiano a uma vertente humana e realista que fez sua grandeza, ao longo dos anos. Toda
essa beleza fica expressa na última frase dita pelo garoto. É tão simples e tão rica,
tão ingênua e tão profunda que vai fazer parte das frases definitivas do cinema. (Luiz
Carlos Merten © estadao.com.br)
Serviço - Concorrência
Desleal (Concorrenza Sleale). Drama. Direção de Ettore Scola. It/2000. Duração: 110
minutos. 14 anos |
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