Filha do Duce
destrói imagem de machão do pai, revela que a mãe tinha um amante e abala a
extrema-direita italianaARAUJO
NETTO
Correspondente
ROMA - Ainda hoje, as imagens dos cadÁveres de Benito e
Claretta pendurados num poste da Piazalle Loretto em Milão continuam a chocar velhos e
jovens italianos.
A revelação mais discutida da
entrevista que Edda Mussolini Ciano concedeu ao seu velho amigo Domenico Oliviero, pouco
antes de sua morte numa clínica de Roma em 1995, foi sintetizada num dos títulos fortes
da primeira página do Libero, novo jornal da extrema-direita berlusconiana,
editado em Milão. ''Benito Mussolini era cornuto'' (Benito Mussolini era corno), escreveu
o diário dirigido por Vittorio Feltri, um dos jornalistas mais estimados e prestigiados
pela família e pelo grupo de empresas do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, depois de
ter tido acesso à entrevista de Edda Mussolini que hoje à noite deve ser um dos
programas de maior audiência das televisões italianas.
Revelação - O título do jornal milanês baseou-se numa das novidades contadas por
Edda Mussolini Ciano na entrevista gravada que será apresentada em horário nobre (20h50
de Roma) pelo programa ''A Grande História'', narrado e comentado pelo historiador Nicola
Caracciolo. Ou seja: a revelação de que em 1925 Edda acreditou que sua mãe Rachele, uma
camponesa da Emilia Romagna que aos 17 anos de idade se tornou companheira de Benito
Mussolini, mãe de seus cinco filhos, mulher paciente e solidária, em 1925, três anos
depois de seu marido ter se tornado o Duce da Itália fascista, teve um amante, um senhor
que dia e noite se fazia ver na casa da família Mussolini em Predappio, conhecido como o
cunhado do chefe da estação ferroviária da cidade natal do homem que criou e levou o
fascismo ao poder por mais de 20 anos.
Edda chegou à convicção de que aquele homem era amante de sua mãe não só por tê-lo
visto muito presente na casa de Predappio, mas porque várias vezes ouviu dona Rachele
dizer ao marido nas poucas vezes em que ele encontrava tempo para estar poucas horas com a
família: ''Quase nunca conseguimos te ver. Vives cheio de mulheres. Olha que tenho uma
pessoa que me quer bem e que me faz bela companhia''.
Com o correr dos anos, quando já estava perto da morte (aos 85 anos de idade), Edda
Mussolini Ciano aprendeu a ser tolerante e compreensiva com a sua mãe e seu amante,
contou ela na entrevista. Mas quando percebeu e se convenceu do adultério de dona
Rachele, Edda tinha 15 anos de idade e pensava como a grande maioria das italianas da
época: ''Sendo homem, papai podia fazer o queria, mas minha mãe, não.'' Na entrevista
que hoje será transmitida, Edda confirmou que Mussolini teve um incalculável número de
amantes. Desde Cesira, uma jovem que trabalhava como domestica na casa da família em
Predappio, até a moça Sarfatti, jovem de uma família judia, que acabaria vítima das
leis raciais assinadas pelo Duce.
Indignação - A primeira reação indignada às revelações póstumas de Edda foi a
de sua sobrinha Alessandra Mussolini, deputada pela Aliança Nacional, partido
neo-fascista, segunda força política da coalizão que apóia o governo Berlusconi. ''É
mentira, é mentira, é tudo falso. Meu avô Benito nunca foi cornuto nem minha
avó Rachele o traiu, nem mesmo em pensamento. Minha tia Edda disse todas essas coisas
porque vovó e ela viveram em conflito permanente''.
Ainda na opinião de Alessandra Mussolini, sua tia Edda morreu inconformada com o fato de
Benito Mussolini não ter salvo seu marido, o conde Galeazzo Ciano, do pelotão de
fuzilamento, que executou uma sentença de morte pronunciada contra ele por crime de alta
traição.
Da mesma forma, dona Rachele morreu sem perdoar o mesmo Ciano, seu genro e marido de Edda,
que durante oito anos foi ministro do Exterior de Mussolini, por ter votado a favor da
deposição do sogro na sessão do grande conselho que no dia 25 de julho de 1943 terminou
com a queda do governo e do regime fascista na Itália.
Rebeldia -
Os 39 anos de idade da deputada Alessandra Mussolini, o fato de não ter conhecido o avô
e de ter convivido (ainda muito criança) pouquíssimos anos com a avó, de contrapor à
revelação de Edda uma declaração de seu pai, Alessandro, último e menor dos filhos de
Benito e Rachele, não bastam para dar maior credibilidade às suas dúvidas sobre as
afirmações feitas por uma tia que em toda a sua vida foi considerada a mais audaciosa,
rebelde e combativa da família Mussolini. Opinião que Benito, como pai, foi o primeiro a
exprimir. (© Jornal do
Brasil) |