VENEZA, Itália
(Reuters) - Naufragadas para impedir uma ilha de afundar, e depois transformadas em tumbas
para vítimas de epidemias, duas embarcações da Idade Média voltam à tona pela
primeira vez em 700 anos. Dois arqueólogos marinhos trabalham para descortinar os tesouros
enterrados nas águas lamacentas da lagoa de Veneza (Itália), descobertos há cinco anos
por um deles, o italiano Marco d'Agostino.
Uma galera do século 14 e um barco veneziano medieval serão trazidos à
tona após terem sido afundados na metade dos anos 1.300, uma vez que alguns litros de
água salgada sejam drenados de dentro deles.
A descoberta, segundo d'Agostino e seu parceiro Stefano Medas, pode ser a
mais importante a ser feita na região.
"Esta é a primeira galera encontrada em qualquer lugar do
Mediterrâneo", afirmou d'Agostino, enquanto trabalhava em cima de uma balsa
estacionada no meio da lagoa.
"Houve poucas descobertas como essa em outras partes do mundo, em
especial se levarmos em conta a idade dos achados", disse o cientista à Reuters
durante uma visita ao local da escavação, na ilha afundada de Boccalama.
Os dois barcos possuem importância arqueológica, mas a galera, de 38
metros de comprimentos e capaz de transportar 250 homens, atrai uma atenção especial.
No início de sua história, Veneza era a maior de várias ilhas-estado,
lutando contra piratas e invasores vindos do Leste e da Espanha, derrotando-os com suas
habilidades navais.
A galera de cinco metros de largura dominou aquelas águas do início do
século 14 ao século 16.
O içamento das embarcações, porém, não revela de imediato como elas
foram parar no meio das águas de Veneza e como se encontram tão bem preservadas.
No início do século 14, a ilha de Boccalama, no sudoeste da lagoa,
abrigava o monastério de San Marco. Mas o retiro dos monges não oferecia muita
segurança. A ilha afundava rapidamente nas águas lamacentas da lagoa.
Para deter o processo, a galera e o barco de transporte foram carregados
com areia, naufragados e depois escorados com madeira para servir como proteção para os
bancos da ilha.
A solução funcionou, por algum tempo. Em 1348, quando uma grande
epidemia atingiu Veneza, o monastério foi abandonando e a ilha, usada como depositário
dos corpos das vítimas da praga. Anos depois, Boccalama acabou afundando e levando
consigo seus segredos. (© ZIP Notícias)