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Cinco décadas depois, cresce na Itália o interesse por Mussolini

12/09/2001

 
 


Estaria sendo criada uma 'Benitolândia' que ignora as atrocidades do ditador

RORY CARROLL
The Guardian

   ROMA - Cinco décadas depois de ter sido morto a tiros e pendurado de cabeça para baixo na Piazzale Loreto, em Milão, Benito Mussolini está tendo um renascimento, com a vergonha em relação ao ditador dando lugar ao fascínio.

   Nos estertores da 2ª Guerra Mundial, Mussolini tentou fugir à ira de seus conterrâneos disfarçado de soldado alemão. Hoje, eles não se cansam de se interessar pelo Il Duce.

   Para alguns críticos, a onda de interesse por Mussolini se aproxima de uma reabilitação: guardas de honra em seu túmulo, sua foto adornando produtos, suas antigas casas transformadas em hotéis, seus apologistas no governo.

   Historiadores dizem que a política italiana de acobertar os crimes fascistas - exposta em uma nova pesquisa - tem gerado uma nostalgia de dar arrepios, inimaginável em seu aliado da guerra, a Alemanha.

   James Waltson, um historiador da American University de Roma, escreveu no Italy Daily: "A presente reabilitação do homem que se aliou política e militarmente aos nazistas, perseguiu judeus italianos sem ter sido incitado por Hitler, arrastou a Itália para uma guerra desastrosa, não é de surpreender. É um reflexo de sérias mudanças na sociedade e na política italianas."

   Escritores, cineastas e diretores de agências de turismo são acusados de gerar uma indústria que transforma a Itália em uma "Benitolândia" na qual as atrocidades do ditador são esquecidas.

   Várias das antigas residências do ditador foram envolvidas em um surto de marketing. Por exemplo, a Villa Carpena foi inaugurada no mês passado como "casa das recordações" depois de comprada por um grupo de empresários supostamente por US$ 1 milhão, com seu conteúdo incluído.

   E quando Alessandro Lunardelli, um vinicultor de Udine, cidade próxima à fronteira com a Áustria, elevou suas vendas decorando os rótulos de suas garrafas com fotos de Mussolini, um tribunal rejeitou uma ação judicial de parte de grupos judeus para impedir a continuidade da produção. Desde então, Lunardelli diversificou seus rótulos colocando fotos de Hitler, Stalin e Lenin.

   Os escritórios e as casas da República de Salò de Mussolini, um regime fascista formado por remanescentes do Duce, estabelecido com ajuda alemã depois da derrubada de Mussolini, em 1943, foram transformados em bares, hotéis e pousadas.

   Na semana passada, uma entrevista inédita da filha do ditador Edda teve 3,5 milhões de telespectadores, uma audiência considerada espetacularmente alta para um documentário exibido em um canal de interesse apenas de uma minoria, o Rai 3. Um recorde talvez difícil de se repetir, avaliou o jornal La Repubblica.

   No fim de semana, em um teatro de Benevento, uma das principais atrizes da Itália, Piera degli Esposti, retratou a viúva de Mussolini, Rachele, como uma mulher corajosa por causa da luta dela para transferir os restos mortais do Duce para Predappio, sua cidade natal, onde o túmulo onde ele foi enterrado em 1957 é visitado por peregrinos.

   O governo de centro-direita, eleito em maio, inclui herdeiros dos camisas negras, a Aliança Nacional, que renegaram o facismo, mas são propensos a espasmos de nostalgia.

   A deputada Alessandra Mussolini é presença constante em programas de entrevistas na TV nos quais costuma enaltecer o avô. (© O Estado de S. Paulo)

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