Nos estertores da 2ª Guerra Mundial,
Mussolini tentou fugir à ira de seus conterrâneos disfarçado de soldado alemão. Hoje,
eles não se cansam de se interessar pelo Il Duce.
Para alguns críticos, a onda de interesse por
Mussolini se aproxima de uma reabilitação: guardas de honra em seu túmulo, sua foto
adornando produtos, suas antigas casas transformadas em hotéis, seus apologistas no
governo.
Historiadores dizem que a política italiana de
acobertar os crimes fascistas - exposta em uma nova pesquisa - tem gerado uma nostalgia de
dar arrepios, inimaginável em seu aliado da guerra, a Alemanha.
James Waltson, um historiador da American University de
Roma, escreveu no Italy Daily: "A presente reabilitação do homem que se aliou
política e militarmente aos nazistas, perseguiu judeus italianos sem ter sido incitado
por Hitler, arrastou a Itália para uma guerra desastrosa, não é de surpreender. É um
reflexo de sérias mudanças na sociedade e na política italianas."
Escritores, cineastas e diretores de agências de
turismo são acusados de gerar uma indústria que transforma a Itália em uma
"Benitolândia" na qual as atrocidades do ditador são esquecidas.
Várias das antigas residências do ditador foram
envolvidas em um surto de marketing. Por exemplo, a Villa Carpena foi inaugurada no mês
passado como "casa das recordações" depois de comprada por um grupo de
empresários supostamente por US$ 1 milhão, com seu conteúdo incluído.
E quando Alessandro Lunardelli, um vinicultor de Udine,
cidade próxima à fronteira com a Áustria, elevou suas vendas decorando os rótulos de
suas garrafas com fotos de Mussolini, um tribunal rejeitou uma ação judicial de parte de
grupos judeus para impedir a continuidade da produção. Desde então, Lunardelli
diversificou seus rótulos colocando fotos de Hitler, Stalin e Lenin.
Os escritórios e as casas da República de Salò de
Mussolini, um regime fascista formado por remanescentes do Duce, estabelecido com ajuda
alemã depois da derrubada de Mussolini, em 1943, foram transformados em bares, hotéis e
pousadas.
Na semana passada, uma entrevista inédita da filha do
ditador Edda teve 3,5 milhões de telespectadores, uma audiência considerada
espetacularmente alta para um documentário exibido em um canal de interesse apenas de uma
minoria, o Rai 3. Um recorde talvez difícil de se repetir, avaliou o jornal La
Repubblica.
No fim de semana, em um teatro de Benevento, uma das
principais atrizes da Itália, Piera degli Esposti, retratou a viúva de Mussolini,
Rachele, como uma mulher corajosa por causa da luta dela para transferir os restos mortais
do Duce para Predappio, sua cidade natal, onde o túmulo onde ele foi enterrado em 1957 é
visitado por peregrinos.
O governo de centro-direita, eleito em maio, inclui
herdeiros dos camisas negras, a Aliança Nacional, que renegaram o facismo, mas são
propensos a espasmos de nostalgia.
A deputada Alessandra Mussolini é presença constante
em programas de entrevistas na TV nos quais costuma enaltecer o avô. (© O Estado de S. Paulo)