Em uma manhã de junho, o legendário Giorgio Armani
acordou com fumaça saindo do andar térreo de seu palazzo em Milão. Sem poder abandonar
os aposentos, no andar superior, o decano dos estilistas italianos, aos 67 anos, ficou
esperando enquanto os bombeiros faziam seu serviço. "Permaneci muito frio, muito
filosófico", disse ele, horas depois, sentado à sua escrivaninha, vestindo uma
imaculada camiseta branca e blue jeans.
"Aconteceu. Acabou. É a vida", pensava ele. Essa tragédia
pessoal foi determinante para sua decisão de manter seu império e apostar na expansão
global - uma ousada expansão em uma variedade de novas cidades, com novas lojas e novas
mercadorias.
A tragédia pessoal moldou sua determinação de manter o controle da Casa
de Armani -- uma medida que ele logo poderá comprovar ser a mais inteligente até agora.
Não cedeu às pressões para vender seus negócios a candidatos de maior porte nesta
época de megafusões, mantendo controle total sobre seu império e, mais importante,
sobre a sensibilidade de seu estilo elegante, minimalista, que ajudou a colocar a moda
italiana no mapa e que ele agora está estendendo a cosméticos, sapatos, joalheria e até
móveis.
Essa é uma estratégia insólita para a época, mas a oportunidade
escolhida por Armani talvez seja perfeita. A arrogância desalinhada do último milênio
-- que fazia as pessoas relaxarem, pois, afinal, acreditavam que logo seriam bilionárias
-- já passou. Funcionários de firmas de 'pontocom' têm sido vistos usando paletó e
gravata. Em tempos de incerteza econômica, prevalece a tendência a buscar o clássico,
as verdades eternas, para manter o charme sob pressão. Durante a Grande Depressão, as
pessoas ficaram seduzidas pela calma impecável de Fred Astaire.
Agora, o estilo elegantemente descontraído de Armani pode oferecer, a um
mundo atormentado pelos riscos da recessão global, um fascínio semelhante.
Se Armani conseguir aproveitar esse momento singular, não será a
primeira vez que triunfará. Na década de 70, revolucionou a forma como homens e mulheres
se vestiam, em parte por vestir uns parecidos com os outros. Na década de 90, redefinou o
look de Hollywood, tornando o glamour sutil e, nos anos 90, construiu um império vendendo
blue jeans, assim como ternos executivos.
No varejo - Agora, apesar da economia nervosa e da idade, está
apostando centenas de milhões de dólares na expansão. Há planos para floriculturas
Armani e cafés Armani em diversas localidades selecionadas. Somando-se a um império
varejista que já abrange mais de 200 lojas em 33 países, ele ainda abrirá novas lojas
de design de interiores em Los Angeles e Nova York e megalojas no próximo ano em Hong
Kong e Londres.
Armani pode ser encarado como o antibolha. No auge da alta dos mercado de
ações, ele poderia ter vendido sua empresa por uma soma que o faria galgar muitas
posições na lista dos homens mais ricos do mundo. (Atualmente, é o número 292 na lista
da Forbes.) "Falamos em bilhões de dólares", conta ele. "É lógico que
fiquei tentado."
Outras casas de moda também foram tentadas e incorreram em débitos para
apostar no mercado. A sociedade privada limitada Prada comprou a Jill Sander, Helmut Lang
e a Church's Shoes, imaginando que esses nomes deslumbrariam Wall Street, prevendo uma IPO
(Oferta Pública Inicial) lucrativa, que a Prada teve de adiar depois da queda do mercado,
neste verão. As mais poderosas empresas candidatas aos negócios de Armani, conglomerados
de luxo como Gucci e LVMH, viram suas ações despencar desde as altas de janeiro de 2000.
Agora a estratégia-solo de Armani está parecendo bastante esperta.
Enquanto seus rivais devem responder a um mercado amargo e cauteloso, Armani responde
apenas para si mesmo. Durante os anos da bolha, ele acumulou US$ 800 milhões em dinheiro
vivo, que lhe permitiram garantir sua atual expansão. "Consigo avaliar meu trabalho
melhor do que qualquer outra pessoa", diz ele. Admite que nem sempre foi tão
confiante. "Anos atrás, eu tinha medo do mundo", diz ele.
Angústia de festa - A primeira vez que encontramos Armani foi em
uma festa promovida por ele no seu apartamento de Milão, após o desfile de moda
masculina, em junho. Grandes astros e estrelas de Hollywood estavam presentes: Brad Pitt e
Jennifer Aniston, George Clooney, Ashley Judd e Samuel Jackson. Armani circulou pelo
salão, mas freqüentemente refugiou-se em um canto, apenas observando.
Na manhã seguinte, perguntei-lhe por que parecia tão solitário na
própria festa. "Sou obrigado a fazer o papel de anfitrião brilhante, que faz
amizade rápida com pessoas que nunca tinha visto -- como os atores americanos, por
exemplo", respondeu ele. "Ontem à noite, conheci Brad Pitt. Achei-o muito
agradável, mas eu não o conheço. É uma fachada. No fim de uma noite dessas, sempre
pergunto a mim mesmo: O que você fez nessas três ou quatro horas?"
Armani não tem problemas em recordar a infância vivida durante a 2.ª
Guerra Mundial. A cidade industrial de Piacenza, onde morava, foi alvo freqüente de
ataques- surpresa dos aliados. "Se o Sol estava escondido, eu ficava apavorado porque
o Sol trazia os bombardeiros."
A irmã dele, Rosanna, agora aposentada da firma do irmão, lembra um dia
particularmente ruim, quando ela tinha 4 anos e Giorgio, 9. Quando os dois saíam de um
abrigo antibombas, alguns colegas de escola chamaram por Giorgio. Ele atravessou a rua
para ver o que estava acontecendo. Seus amigos tinham encontrado uma granada de fumaça.
Um deles a acendeu e a explosão matou o amigo de Giorgio e queimou Giorgio da cabeça aos
pés. "Ele passou 40 dias no hospital", conta Rosanna. "Eles o punham em
álcool todas as manhãs e depois tiravam fora sua pele." A única cicatriz física
que restou, diz ela, foi da fivela da sandália que queimou no seu pé.
Frango de Natal - Quando perguntado como desenvolveu seu senso de
estilo, Armani lembra de um Natal logo depois da guerra, quando sua mãe serviu frango
pela primeira vez em meses. "Ainda sinto o cheiro dele", conta. O pequeno
Giorgio achou que a mãe tinha posto flores demais na mesa e lhe disse que alguns dos
arranjos tinham de sair. "Esse foi o começo da história."
Em 1949, a família mudou-se para Milão, onde Armani foi tratado como um
forasteiro provinciano. Estudou medicina e depois conseguiu um emprego na loja de
departamentos La Rinascente para arrumar vitrines, fazer decoração. Tinha quase 30 anos
quando conseguiu uma chance de trabalhar para o estilista Nino Cerruti -- e ainda assim
Armani não tinha certeza se queria. "Eu estava ganhando dinheiro suficiente para dar
uma parte a meus pais", conta ele. "Não foi fácil abandonar aquela
segurança."
Então, um carismático e muito rico entusiasta da moda chamado Sergio Galeotti
mudou a vida de Armani para sempre. "Giorgio era calado", lembra Rosanna. Foi
incrível"! Eles logo se tornaram parceiros na vida e nos negócios. "Ele me deu
confiança em mim mesmo", diz Armani. "Tinha muito mais coragem do que eu e era
dez anos mais jovem. Eu tinha passado pela guerra; ele era um homem jovem, com dinheiro e
sem problemas."
Eles abriram, conta Armani, "um pequeno escritório com uma boa dose de
entusiasmo e que funcionou". Como diz a modelo Lauren Hutton: "Antes de Giorgio,
não havia uma indústria de moda italiana. Havia uma indústria têxtil italiana."
Museu - No decorrer dos próximos 20 anos, Armani converteu-se em um nome
famoso. O Museu Guggenheim montou uma grande retrospectiva de Armani que agora está sendo
mostrada em Bilbao, na Espanha.
"Quando vimos Armani pela primeira vez, na cerimônia de entrega do
Oscar, foi uma revolução", conta Anna Wintour da revista Vogue. "Foi o fim da
maneira de se vestir de modo espalhafatoso, cheia de exageros, meio vulgar." Ele
"desestruturou" os paletós masculinos e eles ficaram confortáveis ao uso. Em
meados da década de 80, Armani estava contemplando um futuro de um bilhão de dólares.
Então, em 1985, Sergio Galeotti morreu de aids.
Mais do que qualquer outro acontecimento, foi essa perda trágica que
explica por que Armani permanece um teimoso solitário da moda. "Quando perdi
Galeotti, fui obrigado a tomar conta de tudo que antes ele cuidava", explica Armani.
Sem ter consciência de como os negócios de Armani tinham se tornado pessoais, os
últimos candidatos tentaram convencê-lo da forma errada.
Ofereceram-se para deixá-lo continuar sendo a força criativa da Casa de
Armani e para aliviá-lo dos detalhes aborrecidos, como distribuição e marketing. Mas
isso não era um fardo para Armani. Era o papel que tinha assumido para superar a morte de
Galeotti. A resposta dele: "Para vocês, nada."
Perguntamos a Armani o que ele via como seu maior fracasso. "Talvez o
maior fracasso foi não ter conseguido evitar a morte do meu companheiro." Por um
breve momento, sua frieza estóica se desvaneceu. Mas, depois ela retornou. Afinal, já
aconteceu. Acabou. Agora esta é a vida de Armani. (Tradução de Maria de Lourdes
Botelho) (© O Estado de S. Paulo)