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O escritor siciliano Elio
Vittorini tem dois dos seus livros lançados no Brasil |
UBIRATAN BRASIL Uma súbita inquietação imobilizou o escritor italiano Elio
Vittorini, em julho de 1936. Tratava-se de um sentimento de angústia tão forte que o
obrigou a interromper o romance que escrevia havia seis meses.
Sua atenção concentrava-se agora no desenrolar da
Guerra Civil Espanhola, que se iniciara no mês anterior e que provocaria violentos
combates entre milícias populares e o Exército nos anos seguintes. "Eu invejo os
escritores que têm a capacidade de permanecer interessados pelo próprio trabalho,
conquanto enfureçam pestilências e guerras", escreveu, em uma carta, anos depois,
lembrando a interrupção. "Um grande acontecimento público pode me distrair,
infelizmente, e provocar uma mudança de interesses em meu trabalho do mesmo modo que uma
desventura (ou ventura) pessoal."
Considerado um dos mestres do neo-realismo italiano,
Vittorini escrevia o romance Erica e Seus Irmãos e a interrupção foi definitiva - a
carta, citada acima, acompanhava os manuscritos da história, que ele encaminhou aos seus
editores, em 1954, justificando a inconclusão do enredo. "O desencadear da guerra da
Espanha tornou-me de súbito indiferente aos desenvolvimentos da história em que havia
trabalhado por seis meses seguidos", justificou. Era a terceira vez que Vittorini
não terminava um romance, o que reforçava uma característica de seu espírito
irrequieto. Ele só voltaria a escrever em setembro de 1937, quando iniciou o que se
tornaria sua obra-prima, Conversas na Sicília.
As duas obras, que exemplificam com clareza a mudança
estilística do autor siciliano assim como o inconformismo de seu estado de espírito,
logo estarão juntas nas livrarias. Erica e Seus Irmãos (110 páginas, R$ 21) foi
recentemente lançado pela Berlendis & Vertechia Editores, figurando na Coleção
Letras Italianas, que pretende reunir obras desconhecidas daquele país. Já Conversas na
Sicília está em fase final de tradução, a cargo do também escritor Valêncio Xavier,
e deverá ser lançado no início do próximo ano, pela Cosac & Naif.
A demora é justificada - Xavier utiliza uma edição
de 1953, editada pela Bompiani, que hoje é rara até mesmo na Itália por um diferencial:
o livro é ilustrado por 188 fotografias, feitas sob a rigorosa orientação do próprio
Elio Vittorini e que traduzem seu lirismo siciliano. As edições atuais, por questões
econômicas, simplesmente eliminaram as imagens. "São figuras vagas, com legendas
imprecisas e que parecem trabalho de iniciante", comenta Xavier. "Mas é
justamente esse seu principal encanto: apesar do tom nebuloso, elas não pretendem
explicar o texto de Vittorini, mas elevá-lo à posição das grandes fantasias."
O encanto contagiou
também Rodrigo Lacerda, editor da Cosac & Naif, que decidiu lançar o livro com o
mesmo cuidado da antiga edição da Bompiani. A surpresa veio, porém, quando a editora
italiana confessou não deter os direitos das fotografias. Pior: tampouco sabia como
descobri-los.
"Começamos, então, uma longa pesquisa, mas não
conseguimos nada", conta Lacerda, que seguiu o conselho dos italianos e decidiu
publicar o livro com a ressalva expressa de que os detentores dos direitos não foram
encontrados.
"O texto é realmente enriquecido com as fotos;
por isso, preparamos um cuidadoso projeto gráfico."
Há anos vivendo em Curitiba, Valêncio Xavier é
apaixonado por Conversas na Sicília, chegando a recitar trechos inteiros, em sonoro
italiano. A devoção se estendeu ao filme Gente da Sicília, a versão idealizada por
Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, considerada pela crítica como uma das melhores
produções do ano passado. Puro retrato neo-realista da Sicília, o filme hipnotizou
Xavier: "Na primeira vez, saí de Curitiba pela manhã e, já em São Paulo, emendei
duas sessões até voltar, à noite", conta o escritor, que repetiu a dose duas
semanas depois. "É fascinante o cuidado com que a dupla selecionou cada
imagem."
Estrangeiro - O filme narra o mesmo fio de
história do livro: em 1937, portanto, durante a opressão fascista, o linotipista
Silvestro volta à Sicília, depois de 15 anos morando em Milão. O reencontro com a mãe
e o povo local é uma epifania - diante daqueles que foram seus conterrâneos, Silvestro
descobre-se um estranho em sua própria terra, a ponto de se reconhecer como um
estrangeiro diante de um paupérrimo vendedor de laranjas, que estranha sua presença.
"Sim, sou americano", afirma, constrangido. "Há 15 anos."
Vittorini constrói momentos de extrema beleza como os
diálogos com a mãe, a paisagem siciliana, as figuras locais. A viagem de Silvestro
torna-se então não apenas uma descoberta subjetiva, motivada pelo mundo estilhaçado à
sua volta, como também uma mudança espiritual do próprio Vittorini, que passa a
compreender melhor o fascismo e se torna comunista, iniciando uma efetiva participação
na Resistência italiana.
Conversas na Sicília consolida também uma mudança
estilística em sua carreira, no momento em que ambicionava transformar sua linguagem em
porta-voz daqueles que sofrem. "O tema da representação da realidade é fundamental
na poética vittoriniana", diz Liliana Laganá, na introdução de Erica e Seus
Irmãos, livro que também traduziu. "É o que impulsionou sua busca de uma linguagem
'revelação', uma linguagem que não se limitasse à transmissão do prazer estético,
mas que fosse capaz de suscitar no homem sentimentos elevados, uma linguagem que
permitisse dizer certas coisas 'como faz a música, como faz o melodrama, como faz a
poesia', e que pudesse ajudar o homem a entender, em qualquer tempo, a realidade a ele
contemporânea."
A realização dessa busca é plenamente conseguida em
Conversas na Sicília, mas, ao deixar inacabada sua obra anterior, Vittorini já
sinalizava que estava no caminho. "Através do artifício da fábula - a fábula de
Erica -, ele alerta sobre o 'mal' que aflige seu tempo e, contrapondo-se ao discurso
grandiloqüente do regime, escreve uma história de fome e miséria", observa
Liliana.
O interesse pelo humanismo desponta justamente nos anos
1936-37, em que o fascismo na Itália demonstrava de maneira mais enfática seu aspecto
ditatorial e imperialista. Para evitar que a censura impedisse a publicação de seus
escritos, Vittorini utiliza uma forma estilística que podia ser entendida, mas sem
esclarecer muito seu pensamento. Anos depois, em 1964, em uma entrevista, o autor
justificava sua escolha: "Um escritor, por dever de sinceridade, pode-se permitir ser
desumano consigo mesmo e com os seus colegas. E não se fale de espírito de corpo: nós
não somos contadores ou pequenos burocratas da literatura".
A fidelidade às suas convicções transformou Elio
Vittorini em um escritor respeitado e admirado pelos seus pares. Em 1947, por exemplo,
Jean-Paul Sartre confiou-lhe a elaboração do número especial da revista Temps Modernes
sobre a Itália. Também notória foi sua atuação na editora Einaudi, entre 1950 e 1958,
quando dirigiu a coleção Fichas, que permitiu a divulgação de escritores que logo se
tornariam importantes, como Lunardi, Genoglio, Arpino e outros. A síntese de sua
importância foi conseguida por Italo Calvino que, em artigo publicado em 1973, afirma que
todos os romances de Vittorini têm como forma mítica a viagem, como forma estilística o
diálogo e como forma conceitual a utopia. (© O Estado de
S. Paulo)
Os
bastidores da criação de 'Gente da Sicília'
Documentário do
português Pedro Costa, apresentado em Veneza, mostra o casal Danièlle Huillet e
Jean-Marie Straub montando o filme baseado em Elio Vittorini
LUIZ ZANIN ORICCHIO
Enviado especial
VENEZA - Um dos achados da dupla Jean-Marie Straub
& Danièle Huillet foi transformar a prosa de Elio Vittorini em litania. Gente da
Sicília (transposição para o cinema de Conversazione in Sicilia, livro que está saindo
agora em português) leva a história de Vittorini para o domínio mítico. Isso é o que
você observa quando vê o filme - isto é, quando entra no cinema e relaxa, sem se dar
conta do trabalho que está por trás da obra.
E que trabalho! A minúcia com que cada plano é
selecionado na moviola, com que cada detalhe é cuidado, aparece no documentário Danièle
Huillet e Jean-Marie Straub, Cineastes - Où Gît Votre Sourire Enfoui?, do português
Pedro Costa. Um dos melhores títulos apresentados no recém-encerrado Festival de Veneza,
e fora de competição, para sorte dos concorrentes.
O filme mostra a dupla de cineastas discutindo, durante
um laboratório dado no Studio National des Arts Contemporaines. Danièle assume o comando
na moviola. Straub passeia, impaciente, pela sala. Discutem cada plano, cada detalhe, o
que conservar, o que jogar fora. A voz de comando é da mulher.
Mas Straub opina, discute, se impacienta, teoriza,
fuma. Vê-se que Danièle é mais prática e colocará o ponto final quando a discussão
chegar ao impasse.
São duas vontades se opondo e, ao que tudo indica, é
a da mulher que prevalece. No entanto, o trabalho em dupla sai desse embate de forças.
Desse conjunto de desejos, às vezes conflitantes.
Gente da Sicília é um filme maravilhoso. Fotografado
em preto-e-branco, parece, num primeiro momento, um puro retrato neo-realista da Sicília,
ou seja da região pobre e mais misteriosa da Itália. Aquele cruzamento milenar entre a
península e a Grécia, a ilha enorme, chutada pela bota, pontilhada de templos antigos e
tradições milenares, algumas nem um pouco saudáveis.
Nesse ambiente histórico, mas transformado pelo tom do
filme em algo intemporal, um homem se encontra com sua mãe e ouve dela, aos poucos, uma
história de família inesperada. Há um tom lamentoso em tudo isso, que evoca um dos
episódios de Caos, dos irmãos Taviani, adaptado do siciliano Luigi Pirandello. Mas se os
Tavianis vão em busca da Sicília sob a sua forma mais sanguínea e sensível (e por isso
o episódio do encontro de Pirandello com a mãe morta é o mais tocante), Straub &
Danièle procuram uma depuração, uma espécie de essência formal, distanciada, daquilo
que está sendo dito e contado.
No entanto, é a classificação de formalista que mais
incomoda o casal, a Jean-Marie Straub em particular. Enfurecido, ele explica que o
resultado final nasce do embate entre uma idéia e a matéria que resiste a ela. Eis aí:
a forma é resultado de um problema, algo a ser alcançado ao longo de um processo de
superação e não uma decisão a priori, que sai pronta da cabeça dos cineastas. É no
final que essa idéia pode se materializar, através, mas freqüentemente contra o
material com que se trabalha. Ou seja, a idéia contra a película que a suporta e lhe dá
forma. É o que se passa no processo de criação, em especial nesta última etapa, a da
montagem, que acompanhamos no filme de Pedro Costa.
A revelação do processo de trabalho não acontece
apenas na discussão do pano de fundo, digamos assim, filosófico do filme. Mais prática,
como sempre, Danièle lembra que, antes de tudo, trabalharam com atores não
profissionais, sicilianos simples, que não estavam acostumados com o cinema e suas
exigências. E que eram obrigados a fazer vários takes de uma mesma tomada até que os
exigentes diretores se dessem por satisfeitos. "Foi preciso ganhar a confiança
dessas pessoas", lembra Danièle, "porque sempre nos esquecemos de que não
somos nada para eles, que nunca ouviram falar do nome Straub na vida". Pé na terra,
que equilibra a vocação abstrata predominante na dupla. (© O Estado de S. Paulo)
Neo-realismo nasceu na região
Entre os precursores
do movimento está Giovanni Verga, além de Vittorini
ANDREA LOMBARDI
Especial para o Estado
A Sicília é surpreendentemente rica em
escritores, desde o longínquo século 12, quando deu vida à escola siciliana, um dos
primeiros movimentos culturais e literários em língua vulgar (ou seja, não mais em
latim, língua culta). Podia-se falar da Sicília como metáfora, acertado título de um
livro de entrevistas a Leonardo Sciascia, ele também escritor siciliano. Giovanni Verga
(1840-1922) e Elio Vittorini (1908-1966) são representantes culturais da Sicília, embora
de épocas diferentes. Numa reconstrução ideal dos precursores do movimento literário
neo-realista, o escritor Italo Calvino declarou haver três escritores que influenciaram o
neo-realismo: Giovanni Verga, Elio Vittorini e Cesare Pavese.
De fato, Verga foi o principal representantes do
verismo (de verità - verdade), movimento mítico e fundante da literatura italiana após
a unificação (1860). Em Cenas de Vida Siciliana, coletânea de 18 contos organizada por
Mariarosaria Fabris, um conto, particularmente expressivo e anti-retórico, representa
magnificamente o tema do conflito, que atravessa a obra de Verga. O conto é Liberdade,
uma reconstrução fiel da cruel insurreição dos camponeses da cidade siciliana de
Bronte, em 1860, e a posterior volta à ordem, chefiada com mão de ferro por um general
enviado por Garibaldi.
O choque relatado é violentíssimo e simboliza a luta
entre a Itália recém-unificada e um mundo arcaico, feudal, subdesenvolvido, de uma
pequena aldeia da Sicília arcaica. Verga foi 'acusado' de representar a realidade 'assim
como ela é', de maneira fotográfica (o autor da crítica é nada mais nada menos que
Antonio Gramsci, como informa no prefácio a organizadora). É preciso acrescentar,
porém, que Giovanni Verga foi fotógrafo, e isto numa época em que a fotografia era uma
novidade. Cada fotografia sua é afim a seu processo de criação literária: uma foto,
por exemplo, de uma cidade paupérrima do interior da Sicília (cenário ideal de
inúmeros contos); camponeses trabalhando sem poses artificiais (os mesmos descritos no
texto?); uma moça debruçada na moldura natural de uma janela, parecendo sair do romance
Os Malavoglia. Já A Loba, outro conto da coletânea, que apresenta em poucos traços
incesto e morte, acentua os contrastes radicais, elementos típicos de uma foto em
branco-e-preto: a protagonista, a loba, uma mulher radicalmente movida pelo desejo, embora
descrita com traços muito realistas, não deixa de lembrar Lilith, cujo desejo a torna
mítica no texto bíblico.
Os textos de Verga são enriquecidos pelo olhar atento
de seu autor. Seu ponto de vista parece mais que fotográfico: nas linhas iniciais de
Liberdade, o movimento da cena parece cinematográfico: "Como o mar tempestuoso. A
multidão espumava e flutuava na frente do clube dos fidalgos, diante da prefeitura, na
escadaria da Igreja: um mar de barretes brancos, machados e foices reluzindo." O
recurso à metáfora do mar em Liberdade corresponde à escolha estilística do autor, de
apresentar um mundo homogêneo, que parece estar-se autonarrando, sem o recurso a um
narrador externo, sem distorções, seleções, escolhas arbitrárias. É o mar da
Sicília, sempre presente para os moradores da ilha.
Verga consegue uma mistura inédita e inovadora entre
língua padrão e dialeto, que acentua especialmente a oralidade e lega aos nomes o papel
de aludir à realidade regional. Mas há ainda mais elementos a compor a metáfora
siciliana: o pessimismo radical, sem arrependimentos, quase cósmico, resgata - de certa
forma - o conceito grego de kairós, destino, pois não há como vencer as leis da
história e da natureza. O conflito entre classes sociais, pessoas e entre homem e
natureza é realmente irreconciliável. Embora Verga desfaça sistematicamente por meio de
antecipações e deslocamentos, o efeito trágico, este aflora igualmente e nos seus
instantâneos, seus contos. Não por acaso o ciclo de três romances por ele projetado
intitulava-se Os Vencidos. Deles, Os Malavoglia tornou-se um pilar da literatura italiana
moderna, inspirando A Terra Treme, filme de Luchino Visconti, de 1948.
Já Erica e Seus Irmãos, romance inacabado de Elio
Vittorini, seu seguidor declarado, situa-se idealmente entre o verismo de Verga e o
neo-realismo. No enredo e na vida de Erica, uma menina quase adolescente (entre 12-14 anos
talvez), um duplo plano gera uma tensão social, ética e política permanente:
"Pensava sempre num trabalho mau que a deixasse ganhar a vida", brandas alusões
ao fascismo e, sobretudo, o olhar impiedoso sobre a vida dos pobres, proletários e
subproletários.
Erica e seus dois irmãos são abandonados pelos pais
num cortiço de uma grande cidade, pois o pai - há pouco desempregado - resolve procurar,
sozinho, emprego em outra cidade. Quando a esposa se junta a ele - Erica é intermediária
da intimidade até sexual entre os dois por meio das cartas que ela lê para mãe - os
irmãos ficam naturalmente aos cuidados de Erica, filha mais velha: uma versão moderna da
fábula de João e Maria, com acento sobre as diferênças sociais: "Os abandonos nos
bosques eram coisas de fábulas", pensa a protagonista, explicitando a alusão ao
conto dos irmãos Grimm.
O mundo, como é de se esperar, é impiedoso. Após
consumir todas as reservas deixadas pela mãe e esgotado o crédito no armazém, Erica
resolve se prostituir e o livro chega assim a um final inacabado, embora explícito em seu
ato de acusação à sociedade: "Todos olharam Erica ir embora, perceberam que
caminhava de pernas abertas..." Uma história de pobreza da década de 30 que, em sua
simplicidade e na sua apresentação de suas perversões sociais, torna-se emblema de um
destino trágico universal em versão protofeminista.
O recurso à fábula e, posteriormente, ao mito (em
Conversação na Sicília, do mesmo autor, obra que muito influenciou o neo-realismo)
rompe radicalmente com o verismo de Verga, embora sempre o cite. Elementos morais - a
crítica social vista como indignação moral e, de certa forma, religiosa - agregam ao
projeto do neo-realismo uma tendência conciliadora, redentora, elemento que une o
messianismo cristão à teleologia marxista. Dos dois, não há dúvida, que Verga
permanece mestre inconteste. Resta ainda fazer um elogio à editora Berlendis &
Vertecchia pela elegância da apresentação dos textos e das ilustrações. (© O Estado de S. Paulo)
Andrea Lombardi é docente de literatura italiana
da USP
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