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Uma viagem de revelação pela Sicília

17/09/2001

Com espírito inquieto, o escritor italiano Elio Vittorini sempre esteve disposto a interromper uma obra caso algum fato real modificasse seu ponto de vista

O escritor siciliano Elio Vittorini tem dois dos seus livros lançados no Brasil


UBIRATAN BRASIL

   Uma súbita inquietação imobilizou o escritor italiano Elio Vittorini, em julho de 1936. Tratava-se de um sentimento de angústia tão forte que o obrigou a interromper o romance que escrevia havia seis meses.

   Sua atenção concentrava-se agora no desenrolar da Guerra Civil Espanhola, que se iniciara no mês anterior e que provocaria violentos combates entre milícias populares e o Exército nos anos seguintes. "Eu invejo os escritores que têm a capacidade de permanecer interessados pelo próprio trabalho, conquanto enfureçam pestilências e guerras", escreveu, em uma carta, anos depois, lembrando a interrupção. "Um grande acontecimento público pode me distrair, infelizmente, e provocar uma mudança de interesses em meu trabalho do mesmo modo que uma desventura (ou ventura) pessoal."

   Considerado um dos mestres do neo-realismo italiano, Vittorini escrevia o romance Erica e Seus Irmãos e a interrupção foi definitiva - a carta, citada acima, acompanhava os manuscritos da história, que ele encaminhou aos seus editores, em 1954, justificando a inconclusão do enredo. "O desencadear da guerra da Espanha tornou-me de súbito indiferente aos desenvolvimentos da história em que havia trabalhado por seis meses seguidos", justificou. Era a terceira vez que Vittorini não terminava um romance, o que reforçava uma característica de seu espírito irrequieto. Ele só voltaria a escrever em setembro de 1937, quando iniciou o que se tornaria sua obra-prima, Conversas na Sicília.

   As duas obras, que exemplificam com clareza a mudança estilística do autor siciliano assim como o inconformismo de seu estado de espírito, logo estarão juntas nas livrarias. Erica e Seus Irmãos (110 páginas, R$ 21) foi recentemente lançado pela Berlendis & Vertechia Editores, figurando na Coleção Letras Italianas, que pretende reunir obras desconhecidas daquele país. Já Conversas na Sicília está em fase final de tradução, a cargo do também escritor Valêncio Xavier, e deverá ser lançado no início do próximo ano, pela Cosac & Naif.

   A demora é justificada - Xavier utiliza uma edição de 1953, editada pela Bompiani, que hoje é rara até mesmo na Itália por um diferencial: o livro é ilustrado por 188 fotografias, feitas sob a rigorosa orientação do próprio Elio Vittorini e que traduzem seu lirismo siciliano. As edições atuais, por questões econômicas, simplesmente eliminaram as imagens. "São figuras vagas, com legendas imprecisas e que parecem trabalho de iniciante", comenta Xavier. "Mas é justamente esse seu principal encanto: apesar do tom nebuloso, elas não pretendem explicar o texto de Vittorini, mas elevá-lo à posição das grandes fantasias."

   O encanto contagiou também Rodrigo Lacerda, editor da Cosac & Naif, que decidiu lançar o livro com o mesmo cuidado da antiga edição da Bompiani. A surpresa veio, porém, quando a editora italiana confessou não deter os direitos das fotografias. Pior: tampouco sabia como descobri-los.

   "Começamos, então, uma longa pesquisa, mas não conseguimos nada", conta Lacerda, que seguiu o conselho dos italianos e decidiu publicar o livro com a ressalva expressa de que os detentores dos direitos não foram encontrados.

   "O texto é realmente enriquecido com as fotos; por isso, preparamos um cuidadoso projeto gráfico."

   Há anos vivendo em Curitiba, Valêncio Xavier é apaixonado por Conversas na Sicília, chegando a recitar trechos inteiros, em sonoro italiano. A devoção se estendeu ao filme Gente da Sicília, a versão idealizada por Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, considerada pela crítica como uma das melhores produções do ano passado. Puro retrato neo-realista da Sicília, o filme hipnotizou Xavier: "Na primeira vez, saí de Curitiba pela manhã e, já em São Paulo, emendei duas sessões até voltar, à noite", conta o escritor, que repetiu a dose duas semanas depois. "É fascinante o cuidado com que a dupla selecionou cada imagem."

   Estrangeiro - O filme narra o mesmo fio de história do livro: em 1937, portanto, durante a opressão fascista, o linotipista Silvestro volta à Sicília, depois de 15 anos morando em Milão. O reencontro com a mãe e o povo local é uma epifania - diante daqueles que foram seus conterrâneos, Silvestro descobre-se um estranho em sua própria terra, a ponto de se reconhecer como um estrangeiro diante de um paupérrimo vendedor de laranjas, que estranha sua presença. "Sim, sou americano", afirma, constrangido. "Há 15 anos."

   Vittorini constrói momentos de extrema beleza como os diálogos com a mãe, a paisagem siciliana, as figuras locais. A viagem de Silvestro torna-se então não apenas uma descoberta subjetiva, motivada pelo mundo estilhaçado à sua volta, como também uma mudança espiritual do próprio Vittorini, que passa a compreender melhor o fascismo e se torna comunista, iniciando uma efetiva participação na Resistência italiana.

   Conversas na Sicília consolida também uma mudança estilística em sua carreira, no momento em que ambicionava transformar sua linguagem em porta-voz daqueles que sofrem. "O tema da representação da realidade é fundamental na poética vittoriniana", diz Liliana Laganá, na introdução de Erica e Seus Irmãos, livro que também traduziu. "É o que impulsionou sua busca de uma linguagem 'revelação', uma linguagem que não se limitasse à transmissão do prazer estético, mas que fosse capaz de suscitar no homem sentimentos elevados, uma linguagem que permitisse dizer certas coisas 'como faz a música, como faz o melodrama, como faz a poesia', e que pudesse ajudar o homem a entender, em qualquer tempo, a realidade a ele contemporânea."

   A realização dessa busca é plenamente conseguida em Conversas na Sicília, mas, ao deixar inacabada sua obra anterior, Vittorini já sinalizava que estava no caminho. "Através do artifício da fábula - a fábula de Erica -, ele alerta sobre o 'mal' que aflige seu tempo e, contrapondo-se ao discurso grandiloqüente do regime, escreve uma história de fome e miséria", observa Liliana.

   O interesse pelo humanismo desponta justamente nos anos 1936-37, em que o fascismo na Itália demonstrava de maneira mais enfática seu aspecto ditatorial e imperialista. Para evitar que a censura impedisse a publicação de seus escritos, Vittorini utiliza uma forma estilística que podia ser entendida, mas sem esclarecer muito seu pensamento. Anos depois, em 1964, em uma entrevista, o autor justificava sua escolha: "Um escritor, por dever de sinceridade, pode-se permitir ser desumano consigo mesmo e com os seus colegas. E não se fale de espírito de corpo: nós não somos contadores ou pequenos burocratas da literatura".

   A fidelidade às suas convicções transformou Elio Vittorini em um escritor respeitado e admirado pelos seus pares. Em 1947, por exemplo, Jean-Paul Sartre confiou-lhe a elaboração do número especial da revista Temps Modernes sobre a Itália. Também notória foi sua atuação na editora Einaudi, entre 1950 e 1958, quando dirigiu a coleção Fichas, que permitiu a divulgação de escritores que logo se tornariam importantes, como Lunardi, Genoglio, Arpino e outros. A síntese de sua importância foi conseguida por Italo Calvino que, em artigo publicado em 1973, afirma que todos os romances de Vittorini têm como forma mítica a viagem, como forma estilística o diálogo e como forma conceitual a utopia. (© O Estado de S. Paulo)


Os bastidores da criação de 'Gente da Sicília'

Documentário do português Pedro Costa, apresentado em Veneza, mostra o casal Danièlle Huillet e Jean-Marie Straub montando o filme baseado em Elio Vittorini

LUIZ ZANIN ORICCHIO
Enviado especial

   VENEZA - Um dos achados da dupla Jean-Marie Straub & Danièle Huillet foi transformar a prosa de Elio Vittorini em litania. Gente da Sicília (transposição para o cinema de Conversazione in Sicilia, livro que está saindo agora em português) leva a história de Vittorini para o domínio mítico. Isso é o que você observa quando vê o filme - isto é, quando entra no cinema e relaxa, sem se dar conta do trabalho que está por trás da obra.

   E que trabalho! A minúcia com que cada plano é selecionado na moviola, com que cada detalhe é cuidado, aparece no documentário Danièle Huillet e Jean-Marie Straub, Cineastes - Où Gît Votre Sourire Enfoui?, do português Pedro Costa. Um dos melhores títulos apresentados no recém-encerrado Festival de Veneza, e fora de competição, para sorte dos concorrentes.

   O filme mostra a dupla de cineastas discutindo, durante um laboratório dado no Studio National des Arts Contemporaines. Danièle assume o comando na moviola. Straub passeia, impaciente, pela sala. Discutem cada plano, cada detalhe, o que conservar, o que jogar fora. A voz de comando é da mulher.

   Mas Straub opina, discute, se impacienta, teoriza, fuma. Vê-se que Danièle é mais prática e colocará o ponto final quando a discussão chegar ao impasse.

   São duas vontades se opondo e, ao que tudo indica, é a da mulher que prevalece. No entanto, o trabalho em dupla sai desse embate de forças. Desse conjunto de desejos, às vezes conflitantes.

   Gente da Sicília é um filme maravilhoso. Fotografado em preto-e-branco, parece, num primeiro momento, um puro retrato neo-realista da Sicília, ou seja da região pobre e mais misteriosa da Itália. Aquele cruzamento milenar entre a península e a Grécia, a ilha enorme, chutada pela bota, pontilhada de templos antigos e tradições milenares, algumas nem um pouco saudáveis.

   Nesse ambiente histórico, mas transformado pelo tom do filme em algo intemporal, um homem se encontra com sua mãe e ouve dela, aos poucos, uma história de família inesperada. Há um tom lamentoso em tudo isso, que evoca um dos episódios de Caos, dos irmãos Taviani, adaptado do siciliano Luigi Pirandello. Mas se os Tavianis vão em busca da Sicília sob a sua forma mais sanguínea e sensível (e por isso o episódio do encontro de Pirandello com a mãe morta é o mais tocante), Straub & Danièle procuram uma depuração, uma espécie de essência formal, distanciada, daquilo que está sendo dito e contado.

   No entanto, é a classificação de formalista que mais incomoda o casal, a Jean-Marie Straub em particular. Enfurecido, ele explica que o resultado final nasce do embate entre uma idéia e a matéria que resiste a ela. Eis aí: a forma é resultado de um problema, algo a ser alcançado ao longo de um processo de superação e não uma decisão a priori, que sai pronta da cabeça dos cineastas. É no final que essa idéia pode se materializar, através, mas freqüentemente contra o material com que se trabalha. Ou seja, a idéia contra a película que a suporta e lhe dá forma. É o que se passa no processo de criação, em especial nesta última etapa, a da montagem, que acompanhamos no filme de Pedro Costa.

   A revelação do processo de trabalho não acontece apenas na discussão do pano de fundo, digamos assim, filosófico do filme. Mais prática, como sempre, Danièle lembra que, antes de tudo, trabalharam com atores não profissionais, sicilianos simples, que não estavam acostumados com o cinema e suas exigências. E que eram obrigados a fazer vários takes de uma mesma tomada até que os exigentes diretores se dessem por satisfeitos. "Foi preciso ganhar a confiança dessas pessoas", lembra Danièle, "porque sempre nos esquecemos de que não somos nada para eles, que nunca ouviram falar do nome Straub na vida". Pé na terra, que equilibra a vocação abstrata predominante na dupla. (© O Estado de S. Paulo)


Neo-realismo nasceu na região

Entre os precursores do movimento está Giovanni Verga, além de Vittorini

ANDREA LOMBARDI
Especial para o Estado

   A Sicília é surpreendentemente rica em escritores, desde o longínquo século 12, quando deu vida à escola siciliana, um dos primeiros movimentos culturais e literários em língua vulgar (ou seja, não mais em latim, língua culta). Podia-se falar da Sicília como metáfora, acertado título de um livro de entrevistas a Leonardo Sciascia, ele também escritor siciliano. Giovanni Verga (1840-1922) e Elio Vittorini (1908-1966) são representantes culturais da Sicília, embora de épocas diferentes. Numa reconstrução ideal dos precursores do movimento literário neo-realista, o escritor Italo Calvino declarou haver três escritores que influenciaram o neo-realismo: Giovanni Verga, Elio Vittorini e Cesare Pavese.

   De fato, Verga foi o principal representantes do verismo (de verità - verdade), movimento mítico e fundante da literatura italiana após a unificação (1860). Em Cenas de Vida Siciliana, coletânea de 18 contos organizada por Mariarosaria Fabris, um conto, particularmente expressivo e anti-retórico, representa magnificamente o tema do conflito, que atravessa a obra de Verga. O conto é Liberdade, uma reconstrução fiel da cruel insurreição dos camponeses da cidade siciliana de Bronte, em 1860, e a posterior volta à ordem, chefiada com mão de ferro por um general enviado por Garibaldi.

   O choque relatado é violentíssimo e simboliza a luta entre a Itália recém-unificada e um mundo arcaico, feudal, subdesenvolvido, de uma pequena aldeia da Sicília arcaica. Verga foi 'acusado' de representar a realidade 'assim como ela é', de maneira fotográfica (o autor da crítica é nada mais nada menos que Antonio Gramsci, como informa no prefácio a organizadora). É preciso acrescentar, porém, que Giovanni Verga foi fotógrafo, e isto numa época em que a fotografia era uma novidade. Cada fotografia sua é afim a seu processo de criação literária: uma foto, por exemplo, de uma cidade paupérrima do interior da Sicília (cenário ideal de inúmeros contos); camponeses trabalhando sem poses artificiais (os mesmos descritos no texto?); uma moça debruçada na moldura natural de uma janela, parecendo sair do romance Os Malavoglia. Já A Loba, outro conto da coletânea, que apresenta em poucos traços incesto e morte, acentua os contrastes radicais, elementos típicos de uma foto em branco-e-preto: a protagonista, a loba, uma mulher radicalmente movida pelo desejo, embora descrita com traços muito realistas, não deixa de lembrar Lilith, cujo desejo a torna mítica no texto bíblico.

   Os textos de Verga são enriquecidos pelo olhar atento de seu autor. Seu ponto de vista parece mais que fotográfico: nas linhas iniciais de Liberdade, o movimento da cena parece cinematográfico: "Como o mar tempestuoso. A multidão espumava e flutuava na frente do clube dos fidalgos, diante da prefeitura, na escadaria da Igreja: um mar de barretes brancos, machados e foices reluzindo." O recurso à metáfora do mar em Liberdade corresponde à escolha estilística do autor, de apresentar um mundo homogêneo, que parece estar-se autonarrando, sem o recurso a um narrador externo, sem distorções, seleções, escolhas arbitrárias. É o mar da Sicília, sempre presente para os moradores da ilha.

   Verga consegue uma mistura inédita e inovadora entre língua padrão e dialeto, que acentua especialmente a oralidade e lega aos nomes o papel de aludir à realidade regional. Mas há ainda mais elementos a compor a metáfora siciliana: o pessimismo radical, sem arrependimentos, quase cósmico, resgata - de certa forma - o conceito grego de kairós, destino, pois não há como vencer as leis da história e da natureza. O conflito entre classes sociais, pessoas e entre homem e natureza é realmente irreconciliável. Embora Verga desfaça sistematicamente por meio de antecipações e deslocamentos, o efeito trágico, este aflora igualmente e nos seus instantâneos, seus contos. Não por acaso o ciclo de três romances por ele projetado intitulava-se Os Vencidos. Deles, Os Malavoglia tornou-se um pilar da literatura italiana moderna, inspirando A Terra Treme, filme de Luchino Visconti, de 1948.

   Já Erica e Seus Irmãos, romance inacabado de Elio Vittorini, seu seguidor declarado, situa-se idealmente entre o verismo de Verga e o neo-realismo. No enredo e na vida de Erica, uma menina quase adolescente (entre 12-14 anos talvez), um duplo plano gera uma tensão social, ética e política permanente: "Pensava sempre num trabalho mau que a deixasse ganhar a vida", brandas alusões ao fascismo e, sobretudo, o olhar impiedoso sobre a vida dos pobres, proletários e subproletários.

   Erica e seus dois irmãos são abandonados pelos pais num cortiço de uma grande cidade, pois o pai - há pouco desempregado - resolve procurar, sozinho, emprego em outra cidade. Quando a esposa se junta a ele - Erica é intermediária da intimidade até sexual entre os dois por meio das cartas que ela lê para mãe - os irmãos ficam naturalmente aos cuidados de Erica, filha mais velha: uma versão moderna da fábula de João e Maria, com acento sobre as diferênças sociais: "Os abandonos nos bosques eram coisas de fábulas", pensa a protagonista, explicitando a alusão ao conto dos irmãos Grimm.

   O mundo, como é de se esperar, é impiedoso. Após consumir todas as reservas deixadas pela mãe e esgotado o crédito no armazém, Erica resolve se prostituir e o livro chega assim a um final inacabado, embora explícito em seu ato de acusação à sociedade: "Todos olharam Erica ir embora, perceberam que caminhava de pernas abertas..." Uma história de pobreza da década de 30 que, em sua simplicidade e na sua apresentação de suas perversões sociais, torna-se emblema de um destino trágico universal em versão protofeminista.

   O recurso à fábula e, posteriormente, ao mito (em Conversação na Sicília, do mesmo autor, obra que muito influenciou o neo-realismo) rompe radicalmente com o verismo de Verga, embora sempre o cite. Elementos morais - a crítica social vista como indignação moral e, de certa forma, religiosa - agregam ao projeto do neo-realismo uma tendência conciliadora, redentora, elemento que une o messianismo cristão à teleologia marxista. Dos dois, não há dúvida, que Verga permanece mestre inconteste. Resta ainda fazer um elogio à editora Berlendis & Vertecchia pela elegância da apresentação dos textos e das ilustrações. (© O Estado de S. Paulo)

Andrea Lombardi é docente de literatura italiana da USP

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