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O perigo da vingança e da espiral de sangue

24/09/2001

Dario Fo
 


   Junto com a mulher, Franca Rame, e o filho Jacopo, o escritor e dramaturgo italiano Dario Fo, prêmio Nobel de Literatura de 1997, escreveu uma carta aberta sobre os atentados ocorridos nos Estados Unidos (publicada no site www.francarame.it), cujos conteúdo forte e tom emocionado estão provocando grande polêmica na Itália.

   Dario Fo se diz sensibilizado com a tragédia. Porém, o que mais lhe dói, afirma, é perceber que ela está espalhada pelo planeta. A entrevista ao GLOBO foi concedida durante um intervalo de seu trabalho na Universidade Livre Alcatraz, na região de Umbria, no centro da Itália, onde o escritor dá cursos de dramaturgia. (© O Globo)

 

Dario Fo: “A violência tira a credibilidade dos que pedem justiça no mundo”
Gina Marques
Correspondente ROMA

Como o senhor interpreta a situação atual no mundo depois dos atentados nos Estados Unidos?

DARIO FO: Esses atentados representam uma tragédia fora da lógica e da compreensão. O mundo deverá refletir sobre o que levou estes terroristas a fazer um gesto de extrema violência que provocou tantos mortos. Refletir também sobre todas as vítimas da violência no planeta. É um momento delicado, no qual é importante pensar nas injustiças de todo o mundo.

Em sua opinião, quais foram as causas dos ataques?

DARIO FO: Os EUA representam o poder no mundo e, ao mesmo tempo, para estes terroristas isso significa a causa das dificuldades deles. Além disso, durante os últimos dez anos, a América vem bombardeando o Iraque, causando mortos, e muitas vítimas do embargo econômico. Os ataques ao Iraque são feitos sem que as televisões mostrem imagens e acabam por gerar mais violência. Mas o que aconteceu em Washington em Nova York foi um gesto desesperado dos terroristas, como se um cadáver chamasse outro.

Quais as conseqüências?

DARIO FO: Depende. Se os Estados Unidos partirem para um ataque indiscriminado, poderão provocar um espírito de vingança. E a vingança gera vingança. Isso custará uma cadeia de vidas, porque poderá se repetir uma reação de violência, uma espiral de sangue. Sem contar que poderá provocar uma discriminação religiosa contra os muçulmanos, o que já está acontecendo. É perigoso, porque isso não atingiria apenas o Afeganistão, mas o mundo inteiro, inclusive os americanos.

Alguns dos movimentos contrários à globalização acusam os EUA de imperialismo econômico. O senhor acredita que os atentados podem sufocar a voz dos contrários à globalização, como um balde de água fria nas futuras manifestações?

DARIO FO: Espero que não. Uma coisa é protestar pacificamente contra a globalização, contra a fome de muitos diante da riqueza de poucos. Um protesto pacífico é também não comprar produtos das multinacionais que exploram o desespero humano e esse boicote podemos fazer. Outra é se manifestar com violência, ir para a rua disposto ao quebra-quebra e alimentar o mecanismo da vingança. A violência acaba por tirar a credibilidade daqueles que pedem justiça no mundo.

O senhor está otimista?

DARIO FO: Tenho esperança. E esta esperança pode ser interpretada como uma gota de otimismo. Porém, enquanto os Estados Unidos e os outros países mais potentes do planeta, que fazem parte do G-7, não demonstrarem sensibilidade aos problemas do mundo, vão continuar provocando mais desgraça. É hora de refletir, deixar de lado o egoísmo dos privilégios da riqueza e lembrar que toda ação tem uma reação. (© O Globo)

Trechos do texto “Dê uma possibilidade à paz!!!”
Por Dario Fo, Franca Rame e Jacopo Fo

“O QUE ACONTECEU INDUZIRIA

ao pânico, ao silêncio, à desesperação (...) As bolsas do mundo continuaram fazendo dinheiro, a buscar lucros selvagens (...) As pessoas ainda estavam penduradas nos arranha-céus em chamas, antes que caíssem, e já os grandes brokers gritavam nos telefones celulares: ‘Compra petróleo! Vende tudo!’ (...) A besta feroz do capitalismo cravava feliz os seus dentes nas carnes dos mortos (...) Outra imagem gélida: a gente pelas ruas, em bairros da Palestina, dilacerados pela guerra civil, que festeja o massacre(...) Quase todos os dias, há anos, os aviões dos EUA bombardeiam o Iraque, matando mulheres e crianças, com o pretexto de eliminar radares. E as televisões ocidentais não se dignam nem mesmo a dar a notícia (...) As lágrimas de hoje dos jornalistas televisivos são vergonhosas porque seguem o silêncio de décadas sobre os crimes do Ocidente cristão(...) Existem dezenas de pessoas que se transformaram em tão loucas a ponto de se suicidar juntas para atingir ‘os diabos brancos’. Esta medida do desespero deveria fazer refletir(...) Os horríveis atentados ridicularizaram as pretensões de Bush de construir um escudo estelar. (© O Globo)

 

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