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O circo como metáfora da vida |
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24/09/2001
Federico Fellini, um dos
diretores mais amados pelo público em todos os tempos, ganha no Arteplex um ciclo de 15
longas-metragens, mais o episódio 'Três Passos no Delírio'; mas a programação, de
hoje até o dia 4, tem como atração principal a obra-prima 'I Clowns', de 1970, inédita
no BrasilLUIZ ZANIN ORICCHIO
Depois
de 31 anos, chega ao Brasil I Clowns, a obra-prima em que Federico Fellini faz do circo
uma metáfora para a vida. O filme, produzido em 1970 para a RAI (Rádio e TV italiana),
é a jóia da coroa de uma mostra bastante ampla dedicada ao diretor: serão 15
longas-metragens e mais o episódio de Histórias Extraordinárias, Três Passos no
Delírio, a serem exibidos no Arteplex até o dia 4 de outubro. Entre eles, obras do
início da carreira, como A Trapaça e Os Boas Vidas, títulos consagrados, como Oito e
Meio, A Estrada da Vida e A Doce Vida, a fase final, com E la Nave Va, Ensaio de Orquestra
e, o último, A Voz da Lua.
Fellini é um dos
diretores mais amados pelo público em todos os tempos. Seus filmes são muito reprisados,
a maioria deles já foi lançada em vídeo ou DVD, e são repetidamente programados pelos
canais pagos. No entanto, alguns títulos havia muito não passavam pelos cinemas
brasileiros, como o intrigante Satyricon, livremente adaptado da narrativa de Petrônio
sobre dois aventureiros, Encolpio e Ascilto, que vivem no começo da era cristã.
Deverá despertar
interesse, assim como o episódio Toby Dammit de Três Passos no Delírio, outra
adaptação, desta vez do norte-americano Edgard Allan Poe.
Toda a mostra é
interessante e, mais que interessante, fundamental - ver Fellini é constatar aquilo de
que o cinema é capaz e a que limite pode ser levado como forma de arte. Mas, claro, todas
as atenções devem concentrar-se neste I Clowns, que por insondáveis razões permaneceu
tanto tempo inédito para o espectador brasileiro.
Como todo Fellini, I
Clowns (literalmente, Os Palhaços) é - também - memorialístico. E abre dessa forma.
Nas primeiras cenas, vemos uma criança (o próprio Fellini) encantada com o circo que
está sendo armado em frente da sua casa. Depois, vê-se o espetáculo, com suas mulheres
fortes, os malabaristas, e, sobretudo, os palhaços. Conta Fellini que, nessa primeira vez
em que viu um palhaço, sentiu mais terror que encantamento. Isso não impediu que fugisse
com o circo e passasse alguns dias em companhia dos artistas.
Mas aconteceu de fato?
Os biógrafos vão da reticência à descrença ostensiva.
E, de fato, Fellini era
um grande mentiroso, como ele mesmo admitia. Mas o que são os fatos, o que é a verdade?
Fellini era um inventor, e o inventor não passa de um mentiroso dotado de método e
talento. Fellini criou um mundo (sua obra é isso), mas o criou a partir de sua própria
experiência. E, em sua experiência, ele incluía o mundo de sua fantasia.
Portanto, havia o
circo, com todo o encantamento que ele representa no imaginário infantil e acompanhou
Fellini a vida toda. Basta pensar na recorrência dos temas circenses em outras obras como
Oito e Meio (que termina numa ciranda de palhaços), na música de Nino Rota, no caráter
farsesco dos personagens, como em Amarcord, Cidade das Mulheres ou A Voz da Lua. Trata-se
mais do que um tema insistente ou obsessivo - é uma visão de vida, da existência como
espetáculo barato, que encontra no circo a sua metáfora mais que perfeita.
O circo como
microcosmo, e nele, uma subcategoria particular - a dos palhaços. Segundo Tulio Kezich,
autor de Fellini - Uma Biografia, publicado aqui pela L&PM, o cineasta parafraseia
Shakespeare, para quem o mundo era um teatro e os homens, atores. Para Fellini, o mundo é
um circo e os homens, palhaços. Nada há de depreciativo nisso. Se o universo é um vasto
picadeiro, a espécie humana está no centro dele. O palhaço é a alma do circo. E, em I
Clowns, Fellini esmiúça a tipologia clássica que os divide entre Augustos e palhaços
brancos.
São pares opostos: o
palhaço branco é sério, autoritário, dominador. O Augusto é sobretudo anárquico. Nas
palavras do diretor: "Hitler era um palhaço branco, Mussolini era o palhaço
augusto; Pacelli um palhaço branco, Roncalli, um augusto; Freud um palhaço branco, Jung
um augusto." São dicotomias: o patrão e o empregado, o conformista e o rebelde, o
rico e o pobre, a razão e a loucura. Poderíamos continuar: o apolíneo e o dionisíaco,
na terminologia de Nietzsche, e que continua na tipologia de Julio Cortázar, dividindo a
humanidade entre cronópios e famas. Enfim, entre aquele que conserva a ordem e o outro,
que a subverte.
A estratégia do filme
é simples. Depois do prólogo memorialístico, um primeiro espetáculo circense. E depois
mais memória, com Fellini relembrando os tipos exóticos de sua infância. Entre eles, o
louquinho manso que por ironia é apelidado de Giudizio, os empregados da estação de
trens que vivem sempre brigando, etc. A mensagem é transparente: com tanta gente
esquisita no mundo (ou seja, qualquer um de nós), que direito temos de esnobar um
palhaço, que se oferece voluntariamente a serviço do riso alheio? Há aí um sentido de
profundo humanismo, de humildade e sabedoria de Fellini, para quem não existe pior
mistificador do que aquele que se leva excessivamente a sério.
Esse prólogo é
destinado a preparar o terreno para o que vem a seguir, quando I Clowns se transforma
naquilo que se poderia chamar de documentário ficcional. Não, em se tratando de Fellini
os termos não são contraditórios.
E, de fato, existe uma
trupe (o próprio diretor, o câmera, o responsável pelo som, a secretária, etc.) que
sai em busca do mundo do circo e registra o seu próprio trabalho. E existem alguns
personagens verdadeiros, que são entrevistados. Fellini começa pelo circo de Liana,
Rinaldi e Nandino Orfei, no qual se vêem dois palhaços, Amleto e Ginetto, se
apresentando em um número cômico. Mas, logo a seguir, entra em cena a deusa Anita Ekberg
que, espalhafatosa, diz que está ali com uma finalidade: quer comprar uma pantera para
mantê-la em casa. Alguém diz que é perigoso. "Ma mi piace (Mas eu gosto)",
diz ela, encerrando a conversa. Nesse momento fica fácil se lembrar daquele monumento de
mulher, caprichosa e voluntariosa como uma prima-dona, que enlouquecia Marcello
Mastroianni na Fontana de Trevi em A Doce Vida. La Ekberg reapareceria 17 anos mais tarde
em Entrevista (que não está na mostra do Arteplex), já sob efeito do peso dos anos e
dos quilos. Mas, em I Clowns, em 1970, ela ainda estava em plena forma.
Em Paris, Fellini e sua
equipe promovem um encontro de velhos palhaços no Café Curieux, no antigo quarteirão do
Les Halles, o mercado depois demolido.
O deslocamento a Paris
era obrigatório porque é na França que o circo atinge a dimensão de grande arte. Mas
há também um aspecto mítico a ser perseguido.
Fellini quer recuperar
velhas imagens, de artistas de outros tempos. Vai à casa do ator e diretor Pierre Etaix,
porque este se prontifica a exibir um filme dos palhaços Fratellini. Mas o aparelho
enguiça e Fellini parece triste.
Depois ele visita a
televisão francesa, em busca das únicas imagens existentes de um palhaço mitológico,
chamado Rhum. Foi o maior de todos, segundo os colegas, mas perdeu-se pelo nome e morreu
cedo, devastado pelo alcoolismo. Fellini é recebido por uma funcionária, que, secamente,
pergunta se ele é o senhor "Bellini" (sic). Mostra o filmete, de alguns
segundos, no qual o artista mal aparece, num plano de fundo. Frustração total. E Fellini
começa a entender o comentário de um dos seus entrevistados, o historiador do circo
Tristan Rémy: por que motivo fazer um documentário sobre a arte circense, se esta é uma
arte morta, sem lugar no mundo moderno?
A partir dessa
constatação, o tom do filme muda para aquela nostalgia terna, que é uma das marcas
registradas de Fellini. O circo não tem futuro, e também não tem passado, porque é
impossível ir atrás das fontes de uma arte que se consuma no momento mesmo em que
acontece. A magia do circo nasce e morre na noite do espetáculo e deixa poucos rastros
materiais atrás de si. O filme dos Fratellini não pode ser exibido e se queima no
projetor. O filmete de Rhum, ciosamente guardado na cinemateca, nada diz a respeito de um
artista que já se foi. Tudo é precário, a vida é precária e a morte é certa.
Portanto, a solução
é mesmo inventar a partir das lembranças afetivas. O insucesso da incursão de Fellini
é, ao mesmo tempo, a confissão de uma impossibilidade (a de recuperar o que se perdeu na
poeira do tempo) e um convite à fantasia. Inventar para reconstruir o que se perdeu - o
que é uma norma para o cinema e pode ser um consolo para a vida, desde que não se caia
no delírio.
Nesse sentido, a
metáfora do mundo como circo vai muito além do par antagônico formado pelo palhaço
branco e o Augusto. Em I Clowns, Fellini fala de vida e de morte, de lembrança e de
fantasia, de desejo e evasão.
Trabalhando sobre
a perda, o cinema, tal como ele o concebia, é o dispositivo humano que mais se aproxima
da forma de arte total. Ele se foi, quebraram a forma, não existe ninguém igual. Ficaram
os filmes. (© O Estado de S. Paulo)
| Fellini
oferece o prazer de redescobrir o cinemaMostra do Unibanco Arteplex traz alguns dos maiores
filmes do diretor que morreu em 1993
LUIZ CARLOS MERTEN
É
falso, logo é verdadeiro. Pense em dois ou três autores de cinema aos quais se aplica a
definição. O rococó Max Ophuls, o ultrakitsch Baz Luhrmann e o maior de todos, o mago
Federico Fellini. Se houve um artista que, ao longo deste 106 anos de cinema transformou a
mentira em verdade, foi Fellini. Era tão mentiroso que inventou a própria biografia. E
era tão verdadeiro que esquadrinhou os abismos da alma humana sem deixar de ser duro com
as contradições da sociedade contemporânea. Grande, imenso Fellini. No oitavo ano de
sua morte (em 31 de outubro de 1993), continua mais vivo que nunca.
Prova
disso é a mostra que começa hoje no Unibanco Arteplex e vai até o dia 4. Não traz a
totalidade da obra do diretor nascido em Rimini, em 1920, mas exibe filmes que estão
entre os melhores que ele fez. A pérola da programação é I Clowns. Decorrido todo esse
tempo da sua morte, ainda havia um Fellini inédito nos cinemas brasileiros. Havia. A
mostra vai suprir a lacuna exibindo o filme que o autor fez para a TV italiana, no começo
dos anos 70. Vale debruçar-se um pouco sobre I Clowns antes de entrar nos grandes filmes
da retrospectiva.
Fellini contou muitas
vezes a história de como fugiu de casa, ainda garoto, para seguir um circo. O circo virou
metáfora da vida em seu cinema, mas há evidências de que a história era falsa, apenas
uma das muitas mentiras contadas por ele. O cineasta recria as imagens do que teria sido
essa experiência na abertura de I Clowns. Vê-se o menino que observa o circo, que
penetra nos seus mistérios, que descobre os palhaços. Como duvidar da veracidade
felliniana? A mentira, não de Fellini, mas do cinema, é exposta no desfecho de E la Nave
Va, quando um movimento de câmera revela que o transatlântico é só um cenário de
estúdio. Outro movimento de câmera mostra que o elefante no estúdio de Entrevista
também é só um cenário oco, dentro do qual operários de verdade comem prosaicamente
um sanduíche. E há o mar de celofane de Amarcord, no qual navega o Rex. Verdades e
mentiras e quase sempre embaladas na música de Nino Rota, pois a parceria dos dois foi
mágica.
Outro grande, Orson Welles, fez um filme (F for Fake) que recebeu esse título no
Brasil. Debruçando-se sobre o falsário Elmyr de Hory, que pintou mais Picassos do que o
genial Pablo, Welles partia daí para discutir o que é falso e o que é verdadeiro numa
forma de arte como o cinema. Pode-se retomar o axioma da objetividade do crítico francês
André Bazin, que acreditava na vocação realista do cinema. Filmes são janelas abertas
para a realidade.
Parecem tão reais que
a gente até acredita que aquilo é a vida, mesmo que seja só um simulacro batendo na
tela. Muitos filmes de Fellini desenvolvem essa mesma discussão. E, por meio de suas
mentiras, ele chega à verdade da vida, do cinema.
Quais são os filmes faróis de Fellini? Os Boas Vidas, A Estrada da Vida, A Doce
Vida, Oito e Meio. Estão todos na mostra do Unibanco Arteplex. Não é que os demais não
sejam bons. Eventualmente, um ou outro talvez não o sejam, mas o gênio felliniano
percorre a totalidade dessa programação. Faltam alguns clássicos: Amarcord e Fellini
Roma. Mas você pode (re)ver As Noites de Cabíria, A Trapaça, E la Nave Va, Ensaio de
Orquestra. Pode avaliar melhor filmes que provocaram certo desconcerto ou mesmo polêmica
na época do lançamento: Giulietta dos Espíritos, Casanova de Fellini, A Voz da Lua.
Principalmente deve
conhecer o inédito I Clowns ou (re)descobrir um filme tão pouco visto - há mais de 30
anos não é reprisado - como o episódio felliniano de Histórias Extraordinárias,
aquela adaptação de relatos de Edgar Allan Poe que reuniu o mestre italiano aos
franceses Louis Malle e Roger Vadim. E que tal assistir de novo a Fellini Satyricon, que
toda uma geração de espectadores conhece só da televisão? Não é a mesma coisa. Na
tela do cinema, a visão felliniana da decadência da antiga Roma impressiona muito mais,
como vasto afresco sobre uma doce vida exitinta há 2 mil anos.
O episódio de Vadim era o pior de Histórias Extraordinárias: Metzengerstein
foi um fracasso, apesar de erotizado por Jane Fonda, imediatamente antes de encarnar a
mítica Barbarella. Malle contou em William Wilson a história de um homem e seu duplo.
Ofereceu belos papéis a Alain Delon e a uma Brigitte Bardot surpreendentemente morena.
Sua história talvez seja até a melhor das três, mas Terence Stamp é superpoeniano, sem
deixar de ser felliniano, como o decadente Toby Damnit de Três Passos no Delírio, cuja
saga Fellini situou no universo do próprio cinema. Sempre o cinema: Fellini, originário
de uma família pequeno-burguesa de província, foi jornalista, ilustrador e roteirista,
antes de virar diretor.
Realismo interior - Participou
do movimento neo-realista, associando seu nome a alguns filmes de Roberto Rossellini. Já
diretor, a partir de Mulheres e Luzes (co-direção de Alberto Lattuada) e Abismo de um
Sonho, o primeiro longa que fez sozinho - ainda em cartaz na cidade -, foi dos primeiros a
perceber que a Itália mudara e, conseqüentemente, não era mais o país derrotado e
miserável que olhara para dentro de si mesmo em busca de um renascimento. Até por isso,
o neo-realismo teve de mudar. Mudou, de diferentes formas, nos filmes de Rossellini,
Vittorio De Sica, Luchino Visconti, Michelangelo Antonioni e Fellini. Embora ainda seja
neo-realista a inspiração dos primeiros filmes de Fellini, ele logo se orientou para
aquilo que os críticos chamaram de neo-realismo interior, voltado para a pessoa.
Continuam importando as condições sociais, mas é a mulher que importa, o
homem. Gelsomina e Zampanò em A Estrada da Vida, Cabíria, os desiludidos protagonistas
de A Trapaça. O brutamontes Zampanò, o maior papel da carreira de Anthony Quinn, é tão
bronco que não consegue perceber o amor que lhe oferece a chapliniana heroína
representada pela mulher do diretor, Giulietta Masina. Zampanò, o corpo, Gelsomina, a
alma. São duas pontas do tripé armado por Fellini e que se completa com o Louco, il
Matto (Richard Basehart) - a mente. Perdido no mundo, sozinho no fim de La Strada,
Zampanò chora sua dor e toca a terra, da qual se ergue, como personagem felliniano
condenado a viver.
Cabíria, de novo a
sublime Giulietta Masina, também é lançada ao solo, querendo morrer no fim de uma
daquelas noites de amargura, mas também ela se ergue renovada da mãe Terra. Marcello
Rubini, o jornalista interpretado por Marcello Mastroianni em A Doce Vida, termina o filme
ajoelhado na areia da praia, incapaz de compreender o que lhe diz o anjo. Marcello é o
próprio Fellini, como o foi, antes, o Moraldo de Franco Interlenghi em Os Boas Vidas, que
abandonava aquela vida vazia de beberrão para tentar a sorte na cidade grande, como o
diretor.
A Doce Vida é o vasto
painel da decadência contemporânea, uma das obras emblemáticas que mudaram a face do
cinema nos anos 60. Oito e Meio, que muitos críticos consideram, com justificadas
razões, a obra-prima do autor, é uma obra de ruptura. Por meio da história do diretor
em crise, que não consegue criar, Fellini, que sempre foi autobiográfico, passa a
liberar suas fantasias. Em Giulietta dos Espíritos, ele aborda os mistérios do sexo do
ângulo da mulher, em E la Nave Va faz a sua alegoria sobre o fim da belle époque. E em A
Voz da Lua, que terminou sendo seu último filme, propõe o retorno à poesia num mundo
desordenado, que perdeu a magia. Foi um grande artista, dos maiores do cinema. Virou até
verbete de dicionário. Procure no Aurélio, no Houaiss. Neles você encontra o adjetivo
'felliniano'. A explicação não é exatamente essa, mas poderia ser: encantamento. (© O Estado de S. Paulo) |
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