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ARAUJO NETTO
ROMA - As gafes do primeiro-ministro italiano, Silvio
Berlusconi, agora não irritam só a metade dos italianos que não votaram por ele. São
gafes que provocam indignações, situações de mal-estar, até mesmo insultos de
líderes de meio mundo, como os que ontem no Cairo foram ditos pelo secretário da Liga
Árabe, Amr Mussa, que chegou a considerar ''indecente e racista as declarações de
Berlusconi proclamando a supremacia da civilização ocidental sobre a islâmica''.
Réplica enérgica e irritada, completada pela exigência de um pedido de desculpas do
chefe do governo direitista da Itália ao mundo árabe e islâmico por um conselho para
que estude e aprenda a história da civilização islâmica.
Retrocesso - Total solidariedade a essa
indignação do secretário da Liga Árabe foi prestada também por outros moderados
estadistas cristãos e muçulmanos, neste momento empenhados em evitar o risco de a
primeira guerra do terceiro milênio marcar um retrocesso aos tempos das Cruzadas, ao
século 12 dos conflitos entre as forças de Ricardo Coração de Leão e do Sultão
Saladino.
Preocupados em comprometer o esforço diplomático que as
democracias ocidentais vêm realizando para obter pelo menos a não hostilidade dos
países árabes à ação anti-terrorista liderada pelos Estados Unidos, o presidente da
Comissão Européia, Romano Prodi, foi um dos primeiros críticos das desastrosas gafes de
Berlusconi, feitas anteontem durante uma visita a Berlim. Disse que se começarmos a
estabelecer diferenças entre as civilizações, estaremos todos perdidos e que
''ocidentais e islâmicos somos iguais, temos os mesmos direitos, a mesma história e
demos a mesma contribuição à humanidade''. Prodi lembrou a relação entre os dois
povos no Mediterrâneo.
Ainda mais incisivo do que Prodi, foi o primeiro-ministro
da Bélgica, Guy Verhosfstadt, que neste momento exerce a presidência da União
Européia. ''Afirmações do gênero podem alimentar de modo perigoso um sentimento de
humilhação que pode conduzir ao distanciamento e à divisão dos dois mundos'', disse
Verhosfstadt.
Mubarak - De total perplexidade foi ainda a
reação do presidente do Egito, Hosni Mubarak, que há poucos dias esteve em Roma, onde
por mais de uma hora manteve um colóquio muito cordial com um Berlusconi que lhe pareceu
muito diferente do homem que em Berlim promoveu o festival de gafes tão inoportunas
quanto ofensivas.
Holocausto - O desejo de atenuar os efeitos
negativos das declarações de Berlusconi, que para explicar a alegada supremacia da
civilização ocidental sustentou ainda que a civilização e a cultura islâmica
continuavam a viver no século 14, levou o ministro do Exterior belga, Louis Michel, a
qualificar como ''inaceitáveis'' as palavras do primeiro-ministro italiano e a recordar
que não foi a civilização e a cultura islâmica a promover o holocausto na Segunda
Guerra Mundial. (© Jornal do Brasil)
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espanhóis querem que Itália processe Berlusconi A Promotoria Anticorrupção da Espanha quer
que os juízes italianos estudem a possibilidade de processar o primeiro-ministro da
Itália, Silvio Berlusconi. O premiê italiano é supeito de ter cometido fraude de 13,5
milhões de pesetas na Espanha, quando era diretor da TV privada Telecinco.
De acordo com o jornal El Mundo,
os promotores espanhóis cobram uma posição da justiça italiana, já que só poderiam
interrogar Berlusconi se ele renunciasse à sua imunidade.
O juiz Baltazar Garzón - célebre por
ter solicitado a extradição do ex-ditador do Chile, Augusto Pinochet, à Espanha -
investiga as supostas fraudes cometidas pelos antigos gestores da rede de TV. O promotor
que trabalha no caso já pediu que Garzón solicite uma ação da Itália.
No início do processo, Berlusconi
não ocupava cargo público - ele venceu as eleições parlamentares da Itália, em maio,
e se tornou primeiro-ministro em junho. O juiz Garzón já assinalou a possibilidade de
pedir o levantamento da imunidade de Berlusconi ao Parlamento Europeu. (© Terra/Mundo) |
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