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Ivo Barroso
Quem nunca ouviu falar de Natalia Ginzburg pode pensar, pelo arrevesado do
nome, que se trata de alguma escritora de best-sellers convencionais. Mas por trás dele
está uma das maiores representantes do neo-realismo italiano de pós-guerra, e sua
literatura, que floresceu na companhia de Elio Vittorini, Cesare Pavese e Italo Calvino
- cujo quartel-general literário era a revista Solaria e o bastião
ideológico a editora Einaudi - reflete a busca e o encontro de um estilo despojado,
à maneira dos novelistas de língua inglesa que eles próprios traduziam e introduziam
nos círculos literários italianos. Mas falar em despojamento estilístico para
caracterizar a arte literária de Natalia Ginzburg é muito pouco. Livros como este Foi
assim são verdadeiras aulas do bem escrever, recomendáveis a muitos dos nossos
autores de sucesso que confundem simplicidade com vulgaridade.
Avessa à descrição, Natalia joga com o valor representativo dos objetos
comuns, concedendo-lhes papéis de importância no relato. E, mais que tudo, consegue ser
profunda, mergulhar abissalmente na alma de seus personagens, e transmitir ao leitor a
densidade dos sentimentos de solidão, de incomunicabilidade, de desamor, sem para isso
lançar mão de falsos estudos psicológicos. Seus personagens, além de parecerem
retratos de pessoas conhecidas, são tão humanos que se torna difícil admiti-los apenas
como criações literárias. Embora se saiba que a autora fugia à utilização de eventos
biográficos na construção de seus livros ficcionais, é inegável que neles instilou
uma angústia e um vazio que algum dia sentiu.
A simplicidade da trama nem de longe pressupõe a realização irretocável
que dela pôde extrair o talento da escritora: Uma jovem professora, feia, tímida,
solteirona, morando numa pensão, trata com distância um homem já maduro, supostamente
apaixonado por ela, que lhe demonstra interesse e cortesia, mas nunca se declara. É ela
própria que o faz, admitindo por fim também estar apaixonada, mas o homem lhe diz que
ama outra mulher, casada, que o maltrata, mas de quem não consegue viver afastado. Por
força da solidão desesperada de ambos, a jovem solitária e o homem taciturno se casam,
embora ele continue fiel à amada impossível, com a qual ainda se encontra
ocasionalmente. A esposa sabe, chega a admitir a situação ambígua, mas quando o marido
decide separar-se, ela o mata com um tiro entre os olhos.
Banal, dirão, mas vejam o tratamento. O livro começa pelo fim, ou seja, o
minuto após o tiro, e a partir daí há dois tempos que se intercalam, o presente real em
que a personagem cogita entregar-se à polícia, e o presente contínuo, que se desenrola
como se fosse já a confissão dos motivos do crime. Natalia faz nesse princípio uma
verdadeira gozação à técnica do romance americano, com abuso do ele disse, ela
disse, que só pela insistência é que denuncia ao leitor o intuito gozativo. Além
de Alberto, o marido, intervêm na história o amigo deste, Augusto, a prima da esposa,
Francesca, e episodicamente a amante, Giovanna, todos delineados com precisão e
consistência psicológica. No fim, uma estranha sensação invade o leitor, indeciso
entre o ato da protagonista, que não consegue suportar a idéia de não ser amada, e o do
marido por não querer insistir na falsidade.
Livro densamente complexo em sua aparente fragilidade narrativa, Foi
assim nos lembra a precisão solar de um Graciliano Ramos nos melhores momentos de
seu Angústia. O leitor que a não conhece se surpreenderá com Natalia
Ginzburg e certamente quererá saber mais sobre essa autora que parece mostrar em seus
escritos os estigmas da amargura e da solidão. (© O Globo)
Foi assim, de Natalia Ginzburg. Tradução de Edson Roberto Bogas Garcia.
Berlendis & Vertecchia Editores, 112 páginas. R$ 23
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