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Natalia Ginzburg: descida profunda e abissal na alma humana

28/09/2001

 
 

Ivo Barroso

   Quem nunca ouviu falar de Natalia Ginzburg pode pensar, pelo arrevesado do nome, que se trata de alguma escritora de best-sellers convencionais. Mas por trás dele está uma das maiores representantes do neo-realismo italiano de pós-guerra, e sua literatura, que floresceu na companhia de Elio Vittorini, Cesare Pavese e Italo Calvino —- cujo quartel-general literário era a revista “Solaria” e o bastião ideológico a editora Einaudi —- reflete a busca e o encontro de um estilo despojado, à maneira dos novelistas de língua inglesa que eles próprios traduziam e introduziam nos círculos literários italianos. Mas falar em despojamento estilístico para caracterizar a arte literária de Natalia Ginzburg é muito pouco. Livros como este “Foi assim” são verdadeiras aulas do bem escrever, recomendáveis a muitos dos nossos autores de sucesso que confundem simplicidade com vulgaridade.

   Avessa à descrição, Natalia joga com o valor representativo dos objetos comuns, concedendo-lhes papéis de importância no relato. E, mais que tudo, consegue ser profunda, mergulhar abissalmente na alma de seus personagens, e transmitir ao leitor a densidade dos sentimentos de solidão, de incomunicabilidade, de desamor, sem para isso lançar mão de falsos estudos psicológicos. Seus personagens, além de parecerem retratos de pessoas conhecidas, são tão humanos que se torna difícil admiti-los apenas como criações literárias. Embora se saiba que a autora fugia à utilização de eventos biográficos na construção de seus livros ficcionais, é inegável que neles instilou uma angústia e um vazio que algum dia sentiu.

   A simplicidade da trama nem de longe pressupõe a realização irretocável que dela pôde extrair o talento da escritora: Uma jovem professora, feia, tímida, solteirona, morando numa pensão, trata com distância um homem já maduro, supostamente apaixonado por ela, que lhe demonstra interesse e cortesia, mas nunca se declara. É ela própria que o faz, admitindo por fim também estar apaixonada, mas o homem lhe diz que ama outra mulher, casada, que o maltrata, mas de quem não consegue viver afastado. Por força da solidão desesperada de ambos, a jovem solitária e o homem taciturno se casam, embora ele continue fiel à amada impossível, com a qual ainda se encontra ocasionalmente. A esposa sabe, chega a admitir a situação ambígua, mas quando o marido decide separar-se, ela o mata com um tiro entre os olhos.

   Banal, dirão, mas vejam o tratamento. O livro começa pelo fim, ou seja, o minuto após o tiro, e a partir daí há dois tempos que se intercalam, o presente real em que a personagem cogita entregar-se à polícia, e o presente contínuo, que se desenrola como se fosse já a confissão dos motivos do crime. Natalia faz nesse princípio uma verdadeira gozação à técnica do romance americano, com abuso do “ele disse, ela disse”, que só pela insistência é que denuncia ao leitor o intuito gozativo. Além de Alberto, o marido, intervêm na história o amigo deste, Augusto, a prima da esposa, Francesca, e episodicamente a amante, Giovanna, todos delineados com precisão e consistência psicológica. No fim, uma estranha sensação invade o leitor, indeciso entre o ato da protagonista, que não consegue suportar a idéia de não ser amada, e o do marido por não querer insistir na falsidade.

   Livro densamente complexo em sua aparente fragilidade narrativa, “Foi assim” nos lembra a precisão solar de um Graciliano Ramos nos melhores momentos de seu “Angústia”. O leitor que a não conhece se surpreenderá com Natalia Ginzburg e certamente quererá saber mais sobre essa autora que parece mostrar em seus escritos os estigmas da amargura e da solidão. (© O Globo)

Foi assim, de Natalia Ginzburg. Tradução de Edson Roberto Bogas Garcia. Berlendis & Vertecchia Editores, 112 páginas. R$ 23

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