BRASÍLIA. A Polícia
Federal descobriu que organizações mafiosas da Itália estão envolvidas num esquema de
lavagem de dinheiro em Fortaleza. Prepostos vêm adquirindo imóveis de luxo na orla,
montando empresas de fachada abertas em nome de "laranjas" e controlando casas
de bingo. A polícia também detectou fraudes fiscais envolvendo casas de câmbio e
doleiros. Somando dinheiro de mafiosos e doleiros, a PF estima que foram movimentados
entre 1997 e 1999 US$ 2 bilhões.
Batizada de Operação Nordeste, a investigação da PF
é comandada pelo chefe da Divisão de Combate ao Crime Organizado e Inquéritos Especiais
(Dcoie), delegado Euclídes Rodrigues Filho.
Há um ano, um grupo especial, coordenado por dois
delegados, foi enviado a Fortaleza e trabalha em sigilo, reportando-se apenas à Dcoie em
Brasília. Doze inquéritos já foram instaurados para apurar os indícios de lavagem de
dinheiro e evasão de divisas.
No mapeamento já feito pela PF, há uma lista de
dezenas de "laranjas" usados para abrir contas bancárias e empresas para
lavagem de dinheiro de pessoas físicas e jurídicas brasileiras e estrangeiras. O que
mais surpreendeu a PF foi a desenvoltura no mercado imobiliário. Bastou um rastreamento
bancário para detectar a conexão desses empresários estrangeiros com organizações
mafiosas.
Em outra frente de investigação, a Operação
Nordeste se concentrou na atuação de casas de câmbio e empresas de fachada. Um dos
esquemas usados para lavar dinheiro era feito com simulação de venda de dólares ou por
empresas de factoring e agiotagem que emprestavam os recursos com juros de 4% a 10%.
Muitas das transações eram divididas em pequenas operações com valores inferiores a R$
10 mil. Acima desse montante, os bancos são obrigados a identificar os envolvidos para
informar o Banco Central.
Um dos principais alvos é Alexander Diógenes Gomes.
Ele está sendo investigado não por ter ligação com a lavagem de dinheiro da máfia,
mas pelos indícios de participação na montagem de um esquema de movimentação ilegal
de moeda estrangeira usando as contas de "laranjas".
O elo dessas contas é a empresa Acctur, que foi
fechada após as investigações da PF. Com prestígio nas altas rodas da sociedade,
Alexander já teve até prisão preventiva decretada, que acabou sendo revogada pela
Justiça. Procurado pelo GLOBO, contestou as acusações. Admitiu que a Acctur operava com
câmbio, mas perdeu autorização do Banco Central. À frente do grupo ACC, Alexander
alegou que há mais de quatro anos a PF vem investigando suas empresas.
"Até o presente momento (o inquérito) não
resultou em qualquer denúncia contra as empresas ou os dirigentes do Grupo ACC e,
certamente, não poderá resultar, pois fundamenta-se em hipóteses que efetivamente não
ocorreram", diz em nota. Ele informou que está sendo chantageado por
ex-funcionários que estariam ameaçando forjar acusações contra suas empresas.
No rastreamento de contas bancárias no Ceará, a PF
encontrou algumas remessas para Foz do Iguaçu. O destino desses recursos é alvo de outra
investigação: a Operação Macuco, iniciada há dois anos para apurar o uso irregular de
contas de titulares com domicílio no exterior, as antigas CC5. Parte dos recursos que
saíram do Ceará para o Paraná seguiram a mesma rota usada por casas de câmbio em
diversos estados para remessa ilegal de dinheiro ao exterior.
Segundo a PF, passaram pelas contas investigadas US$
5,2 bilhões. Esse dinheiro é oriundo de transações do tráfico internacional de drogas
e armas, contrabando de mercadorias, sonegação fiscal e desvio de recursos públicos.
O dinheiro que passou por Foz, em contas de pessoas ou
empresas com endereço em Ciudad del Leste, no Paraguai, foi remetido ilegalmente para
Nova York, Miami, Los Angeles, Ilhas Cayman, Suíça, Hong Kong, Paraguai e Uruguai. Em
dois anos de trabalho, a PF abriu 250 inquéritos, identificou mais de mil pessoas
envolvidas e indiciou uma centena delas. Entre os envolvidos estão gerentes de 13 bancos.
(Francisco Leali, OG)