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Máfia tem esquema de lavagem em Fortaleza

30/10/2000

 

 

BRASÍLIA. A Polícia Federal descobriu que organizações mafiosas da Itália estão envolvidas num esquema de lavagem de dinheiro em Fortaleza. Prepostos vêm adquirindo imóveis de luxo na orla, montando empresas de fachada abertas em nome de "laranjas" e controlando casas de bingo. A polícia também detectou fraudes fiscais envolvendo casas de câmbio e doleiros. Somando dinheiro de mafiosos e doleiros, a PF estima que foram movimentados entre 1997 e 1999 US$ 2 bilhões.

   Batizada de Operação Nordeste, a investigação da PF é comandada pelo chefe da Divisão de Combate ao Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Dcoie), delegado Euclídes Rodrigues Filho.

   Há um ano, um grupo especial, coordenado por dois delegados, foi enviado a Fortaleza e trabalha em sigilo, reportando-se apenas à Dcoie em Brasília. Doze inquéritos já foram instaurados para apurar os indícios de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

   No mapeamento já feito pela PF, há uma lista de dezenas de "laranjas" usados para abrir contas bancárias e empresas para lavagem de dinheiro de pessoas físicas e jurídicas brasileiras e estrangeiras. O que mais surpreendeu a PF foi a desenvoltura no mercado imobiliário. Bastou um rastreamento bancário para detectar a conexão desses empresários estrangeiros com organizações mafiosas.

   Em outra frente de investigação, a Operação Nordeste se concentrou na atuação de casas de câmbio e empresas de fachada. Um dos esquemas usados para lavar dinheiro era feito com simulação de venda de dólares ou por empresas de factoring e agiotagem que emprestavam os recursos com juros de 4% a 10%. Muitas das transações eram divididas em pequenas operações com valores inferiores a R$ 10 mil. Acima desse montante, os bancos são obrigados a identificar os envolvidos para informar o Banco Central.

   Um dos principais alvos é Alexander Diógenes Gomes. Ele está sendo investigado não por ter ligação com a lavagem de dinheiro da máfia, mas pelos indícios de participação na montagem de um esquema de movimentação ilegal de moeda estrangeira usando as contas de "laranjas".

   O elo dessas contas é a empresa Acctur, que foi fechada após as investigações da PF. Com prestígio nas altas rodas da sociedade, Alexander já teve até prisão preventiva decretada, que acabou sendo revogada pela Justiça. Procurado pelo GLOBO, contestou as acusações. Admitiu que a Acctur operava com câmbio, mas perdeu autorização do Banco Central. À frente do grupo ACC, Alexander alegou que há mais de quatro anos a PF vem investigando suas empresas.

   "Até o presente momento (o inquérito) não resultou em qualquer denúncia contra as empresas ou os dirigentes do Grupo ACC e, certamente, não poderá resultar, pois fundamenta-se em hipóteses que efetivamente não ocorreram", diz em nota. Ele informou que está sendo chantageado por ex-funcionários que estariam ameaçando forjar acusações contra suas empresas.

   No rastreamento de contas bancárias no Ceará, a PF encontrou algumas remessas para Foz do Iguaçu. O destino desses recursos é alvo de outra investigação: a Operação Macuco, iniciada há dois anos para apurar o uso irregular de contas de titulares com domicílio no exterior, as antigas CC5. Parte dos recursos que saíram do Ceará para o Paraná seguiram a mesma rota usada por casas de câmbio em diversos estados para remessa ilegal de dinheiro ao exterior.

   Segundo a PF, passaram pelas contas investigadas US$ 5,2 bilhões. Esse dinheiro é oriundo de transações do tráfico internacional de drogas e armas, contrabando de mercadorias, sonegação fiscal e desvio de recursos públicos.

   O dinheiro que passou por Foz, em contas de pessoas ou empresas com endereço em Ciudad del Leste, no Paraguai, foi remetido ilegalmente para Nova York, Miami, Los Angeles, Ilhas Cayman, Suíça, Hong Kong, Paraguai e Uruguai. Em dois anos de trabalho, a PF abriu 250 inquéritos, identificou mais de mil pessoas envolvidas e indiciou uma centena delas. Entre os envolvidos estão gerentes de 13 bancos. (Francisco Leali, OG)


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