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Arturo Minelli representa a alfaiataria à moda antiga

01/10/2001

 


   Fita métrica pendurada no pescoço, óculos de aro metálico equilibrados no nariz, gravata bem assentada no colarinho, gestos ágeis e movimentos precisos caracterizam Arturo Minelli, clássico representante da tradição napolitana em alfaiataria, que aprendeu o ofício com o pai e aos 8 anos de idade já pilotava uma agulha. Esse tipo de artista, capaz de interpretar os desejos dos seus clientes e criar ternos com caimento perfeito, está se tornando cada vez mais raro no planeta enquanto o desejo de ter roupas personalizadas está longe de diminuir, como prova o investimento das maiores grifes internacionais como Ermenegildo Zegna e Giorgio Armani no segmento "su mesura".

   "O terno sob medida se distingue em dois pontos: otimiza a figura do homem que o veste e lhe proporciona conforto total", resume o mestre alfaiate. "Todo o trabalho que é feito em uma roupa visa esses dois elementos, que, somados, resultam em elegância", completa. Para ele, só se sente desconfortável em um terno quem está dentro de um exemplar inadequado. "O terno deve ser leve no corpo, não pode tolher os movimentos, deve ressaltar o positivo e disfarçar os pontos negativos da constituição física da pessoa", diz o alfaiate, que tem em seu cadastro de clientes mais de 500 nomes, entre eles o apresentador Jô Soares, o médico Adib Jatene e o senador Michel Temer. "Por isso, é importante saber o ângulo de rotação da cava, compensar os desvios de coluna, o formato do peito de quem usará a roupa e até os gestos que ela terá de fazer em sua atividade", diz o mestre, com seu sotaque característico. Nascido em 1928 em Benevento, uma pequena cidade perto de Nápoles, Arturo aprendeu os princípios da profissão com seu pai, Salvatore, e seus irmãos mais velhos. Quando Arturo era ainda um bebê, Giuseppe, o mais velho dos irmãos, emigrou para o Brasil. Depois vieram o pai e o irmão Rafael e, em 1950, foi a vez de Arturo vir "fazer a América". Poucos anos depois, a sociedade com o irmão Rafael numa loja de roupas masculinas na rua Barão de Itapetininga, à época uma das mais elegantes do centro de São Paulo, tornou o nome Minelli conhecido como referência de moda masculina de qualidade.

   Mudanças nos rumos do negócio em sociedade com o irmão levaram Arturo a deixar o varejo de lado e a se concentrar no que é sua paixão: a alfaiataria sob medida. "O que torna o projeto de cada terno fascinante é o processo de entrar na mente do cliente para visualizar o que deseja", diz Arturo. "Depois, é só traduzir estrategicamente o desejo do cliente e suas características físicas para o corte da roupa", arremata.

   E é nesse ponto que Minelli discorda do "sob medida por correspondência" que as grifes internacionais propõem. "É preciso conhecer o cliente em três dimensões", diz Minelli. Segundo ele, o número de centímetros das costas pode não revelar características pessoais, como a leve sifose (abaloamento das costas entre as omoplatas) que caracteriza várias profissões. "É fundamental fazer uma prova para ajustar o molde a pequenos detalhes, especialmente nos clientes novos." O alfaiate diz que 90% das pessoas têm ombro direito mais baixo e que a diferença só pode ser identificada na prova. A mesma diferença se dá na hora de marcar a barra das calças, já que é comum uma perna ser mais comprida do que a outra.

   Características como o número de botões, a largura dos ombros, a frente da calça são "cíclicas e obedecem ao vaivém da moda, mas os fundamentos de acabamento não mudam", diz o alfaiate. "O processo de corte e costura não mudou substancialmente desde que eu era criança", assegura ele, que diz ter conferido isso com seus próprios olhos nas grandes fábricas que visitou recentemente na Itália. "Há muitos detalhes que as máquinas não conseguem fazer e que dependem das mãos humanas", destaca. Pregar botões, fazer as casas dos botões e finalizar forros estão entre as tarefas das quais as máquinas não se desincumbem com total qualidade.

   Na opinião do mestre, também permanecem inalteradas as exigências para formar um bom artesão na costura. "Para ser bom com a agulha é preciso começar ainda na infância. Depois que os dedos endurecem, não adianta mais", diz Minelli. Ele reconhece que esse tipo de instrução desde a infância, que remete às corporações de ofício medievais, não combina com a realidade brasileira. "Na Itália ainda há a tradição, embora o número de rapazes dispostos a enfrentar décadas de instrução até alcançar o status de mestre esteja diminuindo sensivelmente. Atualmente, em seu ateliê no bairro do Sumaré, em São Paulo, Minelli dispõe de uma equipe pequena e muito especializada e é capaz de produzir entre 40 e 45 ternos, no máximo, por mês. Aos 73 anos não pensa em se aposentar, não perde o interesse em relação à sua profissão e vibra com entusiasmo de menino quando mostra suas criações.

   Minelli não transmitiu aos filhos a profissão que seu pai lhe ensinou. Mas acredita que a arte dos "sartos" — os alfaiates — napolitanos está cada vez mais valorizada "porque o mundo está mais sofisticado". E também, como ele admite, porque os alfaiates tradicionais são uma categoria seriamente ameaçada de extinção. Terra/Exclusivo)

Moda junta tecnologia com exclusividade para atrair clientes

   Na Roma dos anos 1930, um representante da terceira geração de uma família de alfaiates desenvolve uma rixa com seu vizinho, um comerciante que vende roupas prontas. A determinada altura, os vizinhos chegam às vias de fato, especialmente porque o alfaiate atribuía ao estilo agressivo do seu competidor a queda em 25% nas suas vendas. Esse é o mote do filme Concorrência Desleal, do cineasta Ettore Scola. Se fosse ambientado nos dias de hoje, não seria de surpreender se fosse contrário: o alfaiate seduzindo a clientela do comerciante. Para garantir a satisfação dos consumidores que desejam se apresentar com roupas impecáveis e exclusivas, empresas de alcance mundial como Ermenegildo Zegna e Giorgio Armani — famosas por suas criações prêt-à-porter — desenvolveram sistemas que permitem a execução de ternos sob medida, a partir de encomendas em suas lojas espalhadas pelo mundo e que são terminados à mão por alfaiates italianos em ateliês por toda a Europa.

   Para cortar um terno, o alfaiate utiliza os mesmo recursos de um arquiteto e praticamente passa pelos mesmos passos: analisar o terreno onde a obra será construída, medi-la criteriosamente, depois criar o projeto levando em conta as expectativas para seu uso no futuro. Depois é preciso traduzir tudo isso para o mundo da geometria utilizando vários tipos de régua e compasso. Com o projeto traduzido em modelos feitos em papel, é hora de partir para a construção.

   No caso de um terno, a etapa seguinte é o corte do tecido. E nesse ponto é que se dá o grande momento do alfaiate. Só para construir a jaqueta, são necessárias 140 partes. Mesmo com toda a tecnologia aplicada na realização de suas roupas, nem a fábrica da Zegna dispensa esses passos, embora seu processo seja bem mais sofisticado em diversos aspectos. Diante das medidas do cliente, os técnicos da fábrica personalizam o corte com a ajuda de cálculos feitos no computador. Um software também orientará a disposição das partes, o que se parece muito com a montagem de uma quebra-cabeças. Nessa etapa há dois importantes desafios: posicionar o molde de cada parte do terno sobre o tecido de modo que, depois de pronto, as fibras se encontrem. É nessa fase que se planeja, por exemplo, para que o xadrez da manga seja uma continuidade do xadrez dos ombros e da frente do terno. A segunda preocupação é fazer com que o encaixe implique a menor perda de tecido possível.

   Aliás, foi sobre os tecidos que essa família do Piemonte construiu seu império. Em 1910, Ermenegildo Zegna abriu um lanifício e se esmerou em tecidos especiais para moda masculina. Nos anos 60, a família entrou no negócio de roupas prontas para homens. "O produto Su Mesura surgiu nos anos 1970, para atingir clientes com necessidades específicas que o prêt-à-porter não consegue atender", diz a diretora de marketing internacional da empresa, Benedetta Zegna, que veio ao Brasil para lançar o Su Mesura por Ermenegildo Zegna na loja da grife no Shopping Iguatemi, em São Paulo. "Essa era uma maneira de incluir todos os homens no estilo Zegna", completa. Segundo a diretora, com o passar dos anos, o projeto foi muito além de simplesmente atender a quem tem medidas fora do padrão — os muito altos, muito fortes, muito baixos ou muito magros — e se tornou uma ferramenta de personalização, um veículo para a criação de um estilo pessoal. "Pessoas que tinham a tradição fazer roupas sob medida com alfaiates passaram a ter um motivo para entrar nas nossas lojas", diz Benedetta. "Assim, quando se depararam com uma enorme escolha de tecidos e padronagens, com a possibilidade de ter a roupa finalizada à mão pelos melhores artesãos e entregue em apenas quatro semanas a partir da encomenda, o negócio não parou mais de crescer."

   Nos cinco últimos anos da década passada, os lucros da Zegna cresceram em média 17% por ano. A meta da empresa para o período de 2000 a 2003 é alcançar crescimento de 20% por ano em seus resultados. Em 2000, seus ganhos ficaram em torno de US$ 670 milhões. Deste faturamento, apenas 15% vêm dos tecidos e 85% são provenientes das roupas prontas. Três quartos da produção de tecidos é vendida como matéria-prima para outros estilistas de renome internacional como Armani, Brioni e Gucci.

   "O grande fator de atração do sob medida é a personalização. Em vez de escolher entre os 30 ou 40 modelos da loja, o cliente passa a ter 450 opções de tecidos e todas as variações de modelo possíveis", diz o diretor responsável pelo Su Mesura da Zegna, Enzo D’Alessandro. "Isso garante exclusividade no resultado e o conforto psicológico de vestir exatamente o que se tinha em mente", diz D’Alessandro. Segundo ele, o maior problema na implantação do sistema do sob medida é o treinamento dos vendedores para tirar as medidas corretamente. O processo começa com o cliente escolhendo uma roupa pronta, disponível na loja, do modelo mais parecido com o que tem em mente e no manequim mais próximo da sua constituição física. Essa roupa, que serve como parâmetro inicial para a sessão de tomada de medidas, é chamada pela equipe Zegna de "testemonial". A partir da base de dados que inclui o testemonial, a escolha do tecido e as medidas tiradas pelo vendedor, um relatório é enviado via modem para a fábrica da Zegna na Suíça. A roupa é cortada, costurada à máquina ou à mão em 110 operações e verificada diversas vezes ao longo do processo para garantir fidelidade às medidas. Depois, o terno vem de avião e o cliente o prova na loja para acertar apenas as mangas e a barra, que são feitas por alfaiates locais. "O fato é que não há renovação na mão-de-obra, por isso as grandes redes estão tomando para si o que os alfaiates tradicionais fariam se houvesse uma nova geração surgindo agora", diz D’Alessandro.

   Nas lojas Giorgio Armani também é possível encomendar ternos sob medida. Segundo a diretora de marketing para as marcas Armani, Patrícia Gaia, essa possibilidade é uma resposta à solicitação dos clientes que desejam roupas em tecidos especiais. "Alguns tecidos são tão preciosos e caros, que é inviável fazer uma grade de roupa pronta com eles", explica Patrícia. "Por isso, o sob medida resolve esse desejo pelo produto de qualidade máxima e também garante o melhor caimento." O processo todo leva cerca de um mês e, quando o cliente veste o terno pela primeira vez, a roupa já poderia ter seu cartão de milhagem aérea com milhares de milhas voadas.

   Apesar de ser filho e neto de alfaiates, Ricardo Minelli, diretor da Daslu Homem, se diz incapaz até de pregar um botão no padrão de qualidade que um bom terno exige. "Essa profissão está seriamente ameaçada de extinção porque ninguém hoje em dia começa a treinar desde a infância e porque são precisos muitos anos de experiência para formar um profissional de qualidade", diz Minelli, que passava reto pelo ateliê do pai, Arturo, para ir à Politécnica da USP e à Getúlio Vargas. "Especialmente no Brasil, onde essa tradição de formar profissionais desde cedo não existe como na Itália, é pouco provável que o número de profissionais sequer se mantenha nas próximas décadas", diz. "Por outro lado, a demanda por roupas feitas sob medida está longe de decrescer na mesma proporção", completa. Já há alguns anos a Daslu oferece o sistema Su Mesura da Zegna. Para resolver esse impasse entre demanda e disponibilidade de mão-de-obra, a butique também oferece um serviço de roupas sob medida com tecidos importados ou ainda um sistema misto que consiste em personalizar ternos que vêm semiprontos da Itália. Nesse caso, a finalização é feita aqui pelos cada vez mais raros profissionais de gabarito.

   Numa trajetória bem diferente do roteiro clássico dos alfaiates, o estilista Ricardo Almeida tem formação empírica e uma enorme inquietação. Assim, ele diz basear suas criações na busca de equilíbrio no resultado final da roupa e na inovação do estilo. "Muitos criadores de moda masculina acabaram sendo engolidos pela mesmice", diz Almeida. "Não é porque um modelo ficou bem no cliente que ele terá que usá-lo pelos próximos 20 anos", argumenta. "Por isso, é preciso estar sempre ligado no que as pessoas desejam comunicar com suas roupas, que pode ser poder, sensualidade, vitalidade ou sobriedade." Talvez seja esse desejo de novidade que tenha aproximado Almeida das personalidades do mundo da música, da televisão e dos esportes. "O que tem acontecido muito recentemente são os filhos, na casa dos 20 anos, trazendo seus pais de 50 anos para fazer ternos comigo com o objetivo de renovar o visual de seus pais", diz Almeida, que também produz prêt-à-porter.

   O controle sobre o que vestir e o que mostrar para o mundo, o desejo de exclusividade e o conforto empurram cada vez mais gente para as origens: a roupa feita sob medida. E a falta de artistas como Arturo Minelli inspira as grandes empresas a encontrar novas soluções para o velho prazer de se vestir bem. (© Terra/Exclusivo)

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